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Doutoranda em teoria literária, Fabiane Secches recomenda cinco obras publicadas a partir dos anos 2000

Escolhi cinco livros de ficção de diferentes nacionalidades que foram publicados neste milênio e dialogam com tensões próprias do nosso tempo.

A amiga genial (Tetralogia Napolitana)

Elena Ferrante  (Biblioteca Azul, 2015-2017)Tradução de Maurício Santana Dias

Publicada originalmente em quatro volumes, “A amiga genial” tem como primeiro plano a história da amizade entre duas mulheres, Elena Greco, a narradora, e Rafaella Cerullo (Lila), que desaparece na velhice em circunstâncias misteriosas. O desaparecimento da amiga de infância funciona como gatilho para o longo relato de Elena, que vai de meados de 1950, no pós-guerra, a meados de 2010, presente da narrativa. A obra se tornou um fenômeno raro de recepção, dando origem a um movimento apelidado de “Febre Ferrante”. A partir da história dessas duas personagens, a autora constrói um retrato potente do mal-estar na contemporaneidade e da complexidade das relações humanas, enquanto também faz uma homenagem à história da literatura.

Formas de voltar para casa

Alejandro Zambra (Cosac Naify, 2014)Tradução de José Geraldo Couto

Nesse romance chileno, a história pessoal e a história coletiva também são sobrepostas na tessitura da narrativa. De um lado, temos a infância vivida pelas personagens e, de outro, a ditadura de Pinochet: “Enquanto os adultos matavam ou eram mortos, nós fazíamos desenhos num canto. Enquanto o país se fazia em pedaços, nós aprendíamos a falar, a andar, a dobrar guardanapos em forma de barcos”. Esse alheamento natural às crianças é, de certo modo, compartilhado pelos pais do protagonista, que não aderem nem à situação, nem à oposição durante o regime. Mais tarde, o narrador passa a questionar a dissonância de suas memórias felizes de infância com o contexto brutal de uma das ditaduras mais violentas da América Latina e, com isso, também questiona a sua própria história e a relação com os pais. O livro pode render um paralelo bonito com o romance “O amor dos homens avulsos”, de Victor Heringer, publicado pela Companhia das Letras, com o qual tem muitos pontos de contato, a começar pelo mais óbvio: o talento de seus autores para a escrita de histórias tão ásperas quanto delicadas.

Um defeito de cor

Ana Maria Gonçalves (Record, 2006)

Talvez o romance brasileiro mais importante dos últimos anos, “Um defeito de cor” narra a história de Kehinde, que, na velhice, rememora a sua odisseia entre a África e o Brasil, para onde veio escravizada. A personagem foi inspirada em Luísa Mahin, uma mulher que, segundo a autora, “é lenda na Bahia, mas de quem não consegui confirmar a existência e sobre quem não se sabe muita coisa. Dizem que ela pode ter sido inventada pelo poeta Luís Gama, filho de um fidalgo português e de uma escrava baiana. A mãe desapareceu quando ele tinha por volta de sete anos e ele foi vendido pelo pai, aos dez, para quitar dívida de jogo. Dizem que ele pode tê-la inventado como uma mulher forte e uma das principais articuladoras da Rebelião Malê para dignificar um pouco o próprio passado”. Com cerca de mil páginas, a obra é fruto de uma minuciosa pesquisa sobre a sociedade escravista do século 19 e foi bem recebida pela crítica e pelos leitores.

Querida konbini

Sayaka Murata (Estação Liberdade, 2018)Tradução de Rita Kohl

A narradora desse best-seller japonês é uma mulher de 36 anos que passa metade da vida trabalhando numa konbini, loja de conveniência típica do país. O título original, algo como pessoa-konbini, sugere a fusão entre a loja e a personagem, que, se antes fracassa em atender às expectativas sociais, encontra no trabalho automatizado a possibilidade de fazer parte da “engrenagem do mundo”. Transitando entre o humor e a melancolia, o romance de Murata tem sido elogiado pelo retrato que faz da sociedade contemporânea japonesa, mas, em muitos aspectos, também poderia se aplicar à vida em outras grandes metrópoles de diferentes países.

Sobre os ossos dos mortos

Olga Tokarczuk (Todavia, 2019)Tradução de Olga Bagińska-Shinzato

Engraçado, comovente e sombrio. O romance “Sobre os ossos dos mortos” é o único livro de Olga Tokarczuk publicado no Brasil. A autora polonesa, vencedora do Nobel, retoma aqui o antigo embate entre natureza e civilização, que se torna ainda mais agudo no mundo contemporâneo. Entre um suspense policial e o que foi chamado de “suspense existencial”, Tokarczuk nos conduz, habilidosamente, por uma história incomum, narrada por uma professora de inglês aposentada que vive em uma pequena vila na Polônia e prefere a companhia dos animais a das pessoas. A narradora enxerga as relações humanas — e as não-humanas — a partir de uma ótica muito particular, que diverte, enternece e confronta os leitores com questões profundas de sensibilidade e ética. Uma das melhores leituras que fiz em muito tempo.

Fabiane Secches é doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo. Colabora com veículos como o jornal Folha de S. Paulo, a revista Cult e a Quatro Cinco Um, escrevendo sobre literatura, cinema e psicanálise.

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