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Foto: Marina Klink

O escritor e navegador Amyr Klink indica cinco obras sobre grandes jornadas, dentro e fora do mar, que nos fazem querer viajar. Ele participa da edição de 2019 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que ocorre entre 10 e 14 de julho

Fiz esta seleção porque, no caso destes cinco livros, são textos que te fazem sair da cadeira. Até mesmo o texto de ficção maluca do Campos de Carvalho: é um livro que, quando você fecha, tem vontade de abrir a janela e sair. São textos que influenciaram muitas pessoas relevantes no cenário intelectual, empresarial, artístico. Muitas pessoas foram impactadas por esses livros. 

Alguns são relatos de viagens reais, outros de viagens imaginárias. Independentemente disso, são textos transformadores, que te fazem repensar o que você quer fazer e botar as pernas para funcionar.

A Lua vem da Ásia

Campos de Carvalho

O primeiro livro que me marcou bastante e foi importante para o que eu faço hoje, que me fez viajar figurativamente. Para mim, Campos de Carvalho é o melhor escritor da literatura brasileira. É autor do melhor texto em língua portuguesa, que é esse livro. Ele tem outros livros, a obra dele é pequena, mas eu não gosto. Esse eu acho absolutamente fantástico. É um texto futurista: foi escrito na década de 1950 e é extraordinariamente atual. Tem um humor cáustico, muito interessante. Nunca parei de reler, até pela forma como ele descreve viagens imaginárias para lugares improváveis – uma maneira cômica muito fina.

Sozinho ao redor do mundo

Joshua Slocum

É um livro de um autor que não tinha nenhuma veia literária, mas é extraordinariamente bem escrito e emocionante. Ele foi um dos últimos baluartes da navegação à vela no período da história em que o vapor começou a dominar as navegações. E acabou fazendo uma viagem épica, foi a primeira circunavegação (quando a Terra ainda era redonda) em solitário do planeta. O texto é maravilhoso, é uma unanimidade, e o livro se tornou um best-seller.

 

Sobre as viagens em altas latitudes, que influenciaram muitas viagens que eu acabaria fazendo, tem várias dezenas de livros muito bem escritos. Mas dois são referência absoluta:

Endurance

Alfred Lansing

“Endurance” é o nome de um navio que desapareceu na Antártida. É a história de uma expedição do Ernest Shackleton, que é tido como o principal explorador britânico. É engraçada a vida dele: fez quatro grandes expedições e, em todas, fracassou. Fracassos retumbantes. Mas Shackleton acabou entrando para a história como o mais bem-sucedido explorador polar porque ele nunca perdeu um homem nas expedições dele. O que também não é totalmente verdade, porque em uma das expedições morreram três caras do outro lado da Antártida. O livro conta sua mais longa expedição, em que eles ficaram náufragos, durante a Primeira Guerra Mundial, por quase três anos e foram dados como desaparecidos pelo mundo. Ele teve que dividir o grupo de 28 homens em vários grupos para buscar socorro, porque o mundo já tinha esquecido deles. E foram escritos vários livros sobre essa história, inclusive o próprio Shackleton, que escrevia muito bem, fez um livro muito interessante contando da expedição. Só que o texto é uma espécie de agradecimento aos patrocinadores… E o Alfred Lansing, entre todos os autores que escreveram sobre esse acidente épico, em que os homens ficaram presos no gelo durante um ano e meio, andando sobre o mar, longe da terra e torcendo para que o frio aumentasse – porque senão eles morreriam, porque o mar derreteria – foi o mais bem sucedido nessa narrativa. E tem uma boa tradução em português.

O último lugar da terra

Roland Huntford

É um texto maravilhoso e extremamente polêmico. Ao final do livro, você acaba adquirindo um certo desprezo pelo modo como os ingleses reverenciavam a superioridade da raça, o poder britânico, a ideia de que o Império Britânico domina as ondas do mar e essas coisas. É engraçado que o livro foi escrito por um inglês que foi adido diplomático na Noruega. De todos os livros escritos sobre viagens, eu acho que esse é do que gosto mais. Ele conta a história da corrida para o Polo Sul a partir de dois vieses: o lado dos britânicos, que tinham o poder, os recursos, os meios, o conhecimento, a vontade, e o lado dos noruegueses. É mais ou menos como se fosse a corrida para a Lua nos anos 1970, em que os russos eram o lado pobre e desprotegido, e os americanos, o oposto. E o livro narra a corrida de um jeito muito interessante, por meio dos diários dos protagonistas de cada um dos países que se tornaram competidores: Noruega, que sempre quis alcançar o Polo Norte, que é o quintal da casa dela, e a Inglaterra, que já tinha experiência, tinha feito várias expedições. Os capítulos se alternam: um capítulo mostra a história do lado britânico, o seguinte mostra a história do norueguês. E no final os noruegueses vencem, como Davi vence Golias. É um livro magnético. O texto traduzido ficou muito bom. Você começa a ler e não consegue respirar até chegar ao fim.

Steve Jobs - A biografia

Walter Isaacson

Quis pôr uma biografia. Eu já li muitas biografias. E o próprio Huntford fez uma, “Nansen”, que é maravilhosa. Mas essa mais recente sobre o Steve Jobs é ótima. Não sou ligado em tecnologia, informática, essas coisas. Nem em livros de autoajuda. Mas a história dele é impressionante: um cara completamente despojado de preocupações materiais e que de certa maneira transformou o mundo, o modo como as pessoas vivem e se comunicam. E ela fica mais atual porque o livro foi escrito antes dessa febre de Whatsapp, de mídias de ultravelocidade… Passados esses poucos anos do período em que a biografia foi escrita, quando ele ainda estava vivo, ficou ainda mais atual.

Amyr Klink é um navegador brasileiro. É autor de diversos livros que relatam suas expedições marítimas. Entre eles, o best-seller “Cem dias entre céu e mar”, em que descreve a inédita travessia solitária a remo do Oceano Atlântico, realizada em 1984. Em 2016, lançou seu mais recente livro “Não há tempo a perder”, em depoimento a Isa Pessoa, no qual narra sua trajetória.

 

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