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Foto: Luis Paulo Ferraz

A jornalista brasileira Cristina Serra indica cinco obras de repórteres que descobrem e contam histórias relevantes. Ela participa da edição de 2019 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que ocorre entre 10 e 14 de julho

Sou uma repórter apaixonada pelo ofício e adoro conhecer o trabalho de outros repórteres. Por isso mesmo, os livros-reportagem e livros sobre jornalismo estão entre os meus preferidos. Aprendo muito com eles e, sobretudo, reflito sobre essa profissão em constante transformação.

Nas décadas recentes, sobretudo, o jornalismo passou por mudanças radicais, provocadas pela tecnologia digital. Contudo, considero que a essência do jornalismo, aquilo que torna essa profissão tão fascinante, que é a capacidade de descobrir e contar boas histórias, jamais vai mudar. Precisará sempre de um repórter inquieto e disposto a gastar muita sola de sapato para trazê-las ao público. É isso que vejo nos cinco livros que indico a seguir e que recomendo não só para jornalistas e estudantes de jornalismo, mas a todos os que veem nesse ofício um dos pilares da democracia.

Hiroshima

John Hersey, Companhia das Letras, 2002

O jornalista norte-americano contou a história do ataque nuclear dos Estados Unidos à cidade de Hiroshima, no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial, por meio das histórias de seis sobreviventes. Ele os entrevistou um ano depois do ataque para uma reportagem na revista The New Yorker. Quarenta anos depois, voltou ao Japão para reencontrá-los e contar o que havia acontecido com eles. O livro é um achado do ponto de vista formal e de conteúdo. Com elementos literários, os dramas vividos por cada um expõem os horrores da destruição nuclear muito mais do que qualquer livro de história porque as vítimas têm nome, idade, sexo, profissão, família. Com sua acentuada visão humanista, Hersey escreveu o clássico dos clássicos do livro-reportagem. Para muitos, é considerada a melhor reportagem do século 20. Não discordo.

Vozes de Tchernóbil

Svetlana Aleksievitch, Companhia das Letras, 2016

A escritora e jornalista bielorrussa dá voz às vítimas do maior acidente nuclear da história, ocorrido em 1986, na Ucrânia. São relatos em primeira pessoa, que expressam todo o horror dos efeitos devastadores da radiação nuclear nos corpos e nas vidas das vítimas. É uma leitura difícil, porque dilacerante, mas essencial. Considero Svetlana da mesma linhagem de Hersey, pois também mescla elementos literários à sua apuração jornalística. Ao mesmo tempo, se distingue com uma técnica narrativa originalíssima. Ela tem outros livros e o conjunto da obra lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2015, mas “Vozes de Tchernóbil”, para mim, é o mais importante deles e deveria ser estudo obrigatório nas faculdades de jornalismo.

Repórter

Seymour Hersh, Todavia, 2019

Este livro traz as memórias do jornalista norte-americano Seymour Hersh, um dos mais importantes do mundo. É um livro de memórias diferente da maioria. Hersh fala o essencial sobre sua vida pessoal. O mais importante é o relato de sua vida profissional. É uma aula sobre a prática cotidiana da profissão e os dilemas éticos com os quais um jornalista se depara ao longo da carreira. Foi Hersh que revelou as atrocidades cometidas por soldados dos Estados Unidos contra civis desarmados, na aldeia de My Lai, durante a guerra do Vietnã. Mais recentemente, outro furo sensacional: os abusos cometidos contra prisioneiros na prisão de Abu Ghraib, durante a ocupação norte-americana no Iraque. Hersh tem a virtude mais importante dos grandes repórteres: não dá sossego aos poderosos.

Holocausto brasileiro

Daniela Arbex, Geração Editorial, 2013

Com uma sensibilidade aguçada, a repórter reconstitui o funcionamento do manicômio Colônia, em Barbacena (MG), e resgata histórias de ex-internos dessa masmorra. Entre o começo do século 20 e 1980, 60 mil pessoas morreram nesse manicômio, que funcionou como um campo de extermínio, daí o título do livro. São histórias quase inacreditáveis de tão absurdas: internações indevidas, abandono de parentes, tortura, maus-tratos, enfim, uma coleção de atrocidades que me levou às lágrimas em vários momentos. O livro devolve aos personagens (alguns já mortos e outros sobreviventes), por meio das palavras, a humanidade que lhes foi negada durante quase a vida inteira.

Mulheres que foram à luta armada

Luiz Maklouf Carvalho, Globo, 1998

O paraense Maklouf, meu conterrâneo, é um repórter de mão cheia e neste livro traz à luz o papel importante — e até então quase desconhecido — de muitas mulheres no combate à ditadura no Brasil, nos anos 1960-70. É impressionante como o repórter conseguiu relatos tão íntimos e, por meio deles, conseguimos ter a narrativa feminina da oposição armada ao regime. Coisa rara, já que, até então, os livros e relatos sobre o assunto eram, predominantemente, masculinos. O livro é, praticamente, um roteiro de cinema. Pena que não tenha alcançado o sucesso devido. Merece uma segunda edição.

Cristina Serra é jornalista, formada na Universidade Federal Fluminense. Aos 19 anos, ainda no início de sua carreira, colaborou com o jornal Resistência, publicação da Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos. Mais tarde, foi repórter no Jornal do Brasil, na revista Veja e na Rede Globo, onde trabalhou como correspondente em Nova York. Hoje, é colaboradora do portal de notícias Metrópoles. Em 2018, lançou o livro de estreia “Tragédia em Mariana: a história do maior desastre ambiental do Brasil (Record)”.

 

 

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