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Foto: Arquivo pessoal

A poeta, tradutora e editora Sofia Mariutti passa a escrever semanalmente na seção 'Léxico' no 'Nexo'. Ela indica 5 obras para refletir sobre os sentidos do nosso idioma

Nunca acabamos de aprender uma língua. Isso fica claro quando estudamos um idioma estrangeiro, mas nosso conhecimento da língua materna também tende a se acomodar e limitar às expressões que usamos no dia a dia. Para mim, escrever, traduzir e editar são atividades de resistência ao marasmo, que me obrigam a buscar formas novas e melhores de dizer as coisas. Aqui vão cinco títulos para conhecer usos, ritmos e sentidos da língua portuguesa.

“Viva a língua brasileira”

Sérgio Rodrigues

Esse já nasceu clássico pra quem acompanha há mais de uma década as colunas e os blogs do autor. Rodrigues passa confiança ao leitor, tratando a norma culta com responsabilidade e, ao mesmo tempo, jogo de cintura. Mesmo quando fala das questões normativas mais tediosas, sentimos o sabor da boa literatura — o autor combina um amplo repertório cultural com a inventividade do ficcionista.

“O pai dos burros: dicionário de lugares-comuns e frases feitas”

Humberto Werneck

Werneck nos ajuda a desconfiar das expressões que surgem automaticamente na nossa fala e escrita, pois, como ele diz na apresentação, “Se escrever vale a pena, deve ser para enunciar algo que se pretende novo”. Ao mesmo tempo, é uma bela coleção que inclui lugares nem tão comuns assim, alguns deles em risco de extinção: “pena de talião”, “a mais alta curul”, “sepulcros caiados”, alguém aí já usou? Folheando esse livro, descobri que as palavras que mais geram lugares-comuns são partes do corpo: pé, mão, olho, coração, cabeça. Talvez porque sejam lugares que todos habitamos, assim como as duas palavras que competem com elas: “tempo” e “vida” — esta última vencedora inconteste como maior geradora de frases feitas.

“Dicionário analógico: ideias afins/ thesaurus”

Francisco Ferreira dos Santos Azevedo

Eis um lugar-comum pra quem trabalha com a língua. Depois do elogio afetivo de Chico Buarque que vem como apresentação a esse livro, fica difícil dizer qualquer coisa sobre ele. Diferente dos dicionários de sinônimos, que listam palavras equivalentes e da mesma classe gramatical, o dicionário analógico ajuda a encontrar uma palavra ou expressão dentro de um campo semântico. Assim, a partir do substantivo “livro” chegamos ao adjetivo “gráfico” e ao verbo “copidescar”. Para quem já busca as redes de analogias no Caldas Aulete digital, que é gratuito e mais prático, o livro ainda vale pelo inspirado texto do Chico.

“A técnica do verso em português”

Leodegário Amarante Azevedo Filho

Para os poetas, tradutores e apreciadores de poesia, ou para quem quer saber mais sobre a nossa prosódia, esse livro ensina que o português tem versos ímpares como nativos — daí a abundância de redondilhas maiores e menores — e pares como importados; que os hexassílabos costumam apresentar ritmo iâmbico e os eneassílabos, anapéstico. Azevedo Filho ensina também o que essas palavras estranhas querem dizer, entre tantas outras lições de versificação.

 “Machado de A a X: um dicionário de citações”

Lucia Leite Ribeiro Prado Lopes.

Com a minuciosa organização alfabética de Lopes, por temas, descobrimos com facilidade o que Machado de Assis pensava em 1864 sobre a “democracia”, por exemplo: “A democracia, sinceramente praticada — tem os seus Gracos e os seus Franklins; quando degenera em outra coisa, tem os seus Quixotes e os seus Panças, Quixotes no sentido da bravata, Panças no sentido do grotesco”. São cerca de duas mil frases, recolhidas entre todos os escritos de um dos maiores ficcionistas de todos os tempos.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas "A orca no avião", seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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