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Foto: Junior Mantovani

Idealizadora do Clube de Leitura Quindim, de assinatura de livros infantis, indica 5 obras que ajudam a refletir sobre a literatura voltada para crianças nos dias atuais

Pensar em literatura infantil como livrinhos para criancinhas revela um posicionamento ultrapassado, que não dialoga com a infância do século 21. A criança que tem acesso a todo tipo de informação não vive mais aquela infância ingênua, protegida, que precisa ser guiada pelos adultos para criar um futuro melhor.

O autoritarismo dessa atitude, de um adulto que acredita saber o que é e como fazer um futuro melhor, não acompanha a velocidade das transformações da era da informação. Geralmente ela se baseia em memórias de uma infância que não existe mais. Por isso, hoje, essa hierarquia tradicional entre infância e fase adulta se suaviza. A censura, com a disseminação dos celulares conectados, é estéril e acreditar que se pode manter a criança protegida em uma redoma de vidro é ingenuidade do próprio adulto.

Listei aqui cinco livros para repensarmos o lugar da literatura infantil na contemporaneidade, a partir de diferentes facetas: (1) considerando que estamos pressupondo um leitor, e com isso o modo como olhamos para ele vai influenciar nossa leitura da obra; (2) entendendo que essa obra tem particularidades intrínsecas que a diferem da literatura adulta, como as ilustrações sempre presentes que, atualmente, estão com frequência em uma relação não hierárquica com o texto; (3) e percebendo que a literatura infantil é, muito frequentemente, lida em voz alta, seja pelo adulto por meio da leitura compartilhada, seja pela criança que ainda precisa ouvir a própria voz para compreender a leitura. Nesse sentido, não se podem ignorar novos olhares sobre a performance de leitura e a importância que a presença, o corpo e a voz possuem na literatura infantil.

Infância. Entre educação e filosofia

Walter Kohan

Esta obra traz como tema principal a infância e a analisa por meio da educação e da filosofia. Apresenta um olhar histórico sobre a criação do mito da infância e propõe uma nova concepção sobre ela. Não como idade cronológica – e que deve ser superada –, mas como uma intensidade criativa presente em todos nós. Uma metáfora sobre um modo de pensar bastante alinhado com uma política da infância aberta e consoante com a contemporaneidade. 

After the death of childhood: growing up in the age of electronic media

David Buckingham

Esta obra traz uma reflexão fundamental sobre o lugar da infância hoje. Diferentemente de teóricos como Neil Postman, que assumem uma postura apocalíptica sobre a infância na era da imagem (vide seu livro “O desaparecimento da infância”), Buckingham ressalta as mudanças de paradigmas em uma infância que tem acesso a qualquer informação, com abertura e sem apego a um passado que não existe mais.

Crítica, teoria e literatura infantil

Peter Hunt

Peter Hunt é considerado um dos maiores críticos de literatura infantil da atualidade. Nesta obra, abandona questões bastante recorrentes na crítica especializada (como aplicações práticas sobre o papel dos livros para crianças na socialização, a aquisição de habilidades de leitura e o modo como uma determinada obra pode ser ensinada) para tratar exclusivamente de teoria. Na literatura infantil, ela extrapola a teoria literária, uma vez que o livro traz outros elementos: ilustrações, a relação entre palavra e imagem e a própria criança em suas particularidades.

Para ler o livro ilustrado

Sophie van Der Linden

Apesar de a tradução ainda não se posicionar quanto a uma nomenclatura, a obra trata de modo bastante didático do álbum ilustrado (ou livro álbum, ou picturebook), um gênero característico da literatura infantil contemporânea. Nesse tipo de obra, as ilustrações não se submetem a uma relação hierárquica com o texto verbal, mas dialogam com ele, em uma espécie de dança. Considerando que a ilustração está presente em praticamente todo livro infantil, entender sua dinâmica de leitura em relação ao texto é fundamental para aqueles que refletem sobre o tema.

Performance, recepção, leitura

Paul Zumthor

Esta obra não trata de literatura infantil, mas da forte conexão entre performance e poesia. Considerando, porém, que na literatura infantil grande parte das leituras são realizadas em voz alta, seja por meio da leitura compartilhada, seja pela criança que precisa ouvir a própria voz para compreender o texto, enxergar a performance como linguagem e o importante papel que a presença, a voz e o corpo desempenham na leitura é fundamental.

Renata Nakano é idealizadora e diretora-geral do Clube de Leitura Quindim, de assinatura de livros infantis. É também professora em programas de pós-graduação, jurada de prêmios literários e consultora para diferentes casas editoriais. É mestre em literatura, cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), possui MBA em gestão de negócios pelo Ibmec e é bacharel em comunicação social pela Universidade Anhembi-Morumbi. Atua há 18 anos no mercado editorial.

 

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