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O escritor Braulio Tavares indica 5 obras de ficção científica que evocam a ideia do simulacro. Ele participa da edição de 2019 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que ocorre entre 10 e 14 de julho

O simulacro é um tema constante na moderna literatura da ficção científica. Nas últimas décadas tem rivalizado com temas mais antigos, como a viagem interplanetária, o encontro com o alienígena ou a viagem no tempo. No mundo real fora da literatura, somos cada vez mais capazes de produzir seres artificiais ou realidades virtuais. É uma corrida em que a ficção imaginativa vai à frente, seguida de perto pela tecnologia, que constrói, e pela filosofia, que problematiza.

A invenção de Morel 

Adolfo Bioy Casares, 1940, Biblioteca Azul

Nesta história, talvez a melhor novela de ficção científica da literatura latino-americana, Bioy Casares conta a história de um fugitivo que vai parar numa ilha aparentemente deserta, com edifícios em ruínas, que a intervalos irregulares aparenta estar habitada e próspera. É uma sátira mordaz à pequena-burguesia argentina, uma meditação sobre o cinema, e uma história de amor clássica entre duas pessoas de universos que se excluem mutuamente.

Simulacron-3

Daniel F. Galouye, 1964, Bantam Books

A “Hipótese da Simulação” (a suposição de que nosso universo é um “videogame” de uma espécie superior), discutida por Rizwan Virk, Nick Bostrom e muitos outros, dá um verniz tecnológico (e materialista) à existência de um mundo sobrenatural povoado por deuses que nos comandam. O livro de Galouye gerou o filme “O 13º Andar” (Josef Rusnak, 1999), inspirou a trilogia “Matrix”, e ajudou a popularizar a noção de que se o nosso mundo é capaz de criar uma realidade virtual, pode ser também a criação de um mundo mais complexo. Como dizia Fernando Pessoa, “Deus é o Homem de outro Deus maior”.

O tempo desconjuntado

Philip K. Dick, 1959, Companhia das Letras

Um dos melhores romances de ficção científica da época da Guerra Fria. Um homem, numa pacífica cidadezinha do interior dos EUA, nos anos 1950, começa a ter surtos paranoicos onde vê descontinuidades e rupturas na realidade aparente. Ele acaba descobrindo que o “mundo real” é uma simulação, e que ele vive de fato no futuro, numa época em que a Terra está em guerra com a Lua, e a sorte da civilização terrestre depende dele. Uma história na zona limítrofe entre um mundo “mainstream” e um mundo de ficção científica, e uma vindicação da paranoia.

Trilogia “Comando Sul”

Jeff VanderMeer, 2014, Intrínseca

A trilogia é composta pelos livros  “Aniquilação”, “Autoridade” e “Aceitação”. Uma aparente invasão alienígena ocupa e isola uma região no sul dos EUA, onde passa a produzir transformações bizarras e mortes violentas, alterando biologicamente pessoas e animais. Os três livros narram as expedições a essa “Área X”, na tentativa de desvendar o processo pelo qual esse trecho do espaço terrestre está sendo reconstituído em outro ponto do espaço, inclusive com a criação de simulacros que têm plena consciência de serem as pessoas originais, e não simples cópias.

Solaris

Stanislaw Lem, 1961, Editora Aleph

Cientistas terrestres pesquisam há séculos Solaris, um planeta-oceano aparentemente inteligente, capaz de corrigir sua própria órbita em torno de uma estrela dupla. Os tripulantes da estação espacial recebem visitas de pessoas que são projeções físicas geradas pelo planeta. O livro levanta (entre muitas outras questões) o problema da identidade, onde a réplica contém grande parte das memórias do original e sente-se igualmente verdadeira. Stanislaw Lem foi chamado “o Borges polonês”, e sua obra tem sido pouco traduzida no Brasil.

 

Braulio Tavares é escritor e pesquisador de literatura. Durante 13 anos manteve uma coluna diária no Jornal da Paraíba, hoje continuada em seu blog, Mundo Fantasmo. Publicou mais de dez livros, dois dos quais, pela Editora 34. São romances seguindo a fórmula tradicional do cordel em sextilhas. Fanfic (Patuá, 2019), publicação de contos, é seu título mais recente. É também roteirista, tradutor e dramaturgo.  

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