Foto: Arquivo pessoal

Florence Curimbaba, da editora Temporal, recomenda cinco obras de dramaturgia para quem quer se aventurar na leitura de peças teatrais

Sempre tive grande interesse pelo universo teatral e, nos últimos 20 anos, frequento, a cada edição, o Festival de Teatro de Avignon, na França. A partir dessa experiência, combinada à minha formação nas áreas de recursos humanos e psicanálise, pude ver como estar imerso em uma cidade que mantém vivo o teatro – são mais de mil espetáculos no período de um mês – ajuda-nos a pensar a realidade e as questões humanas com maior facilidade.

A dramaturgia, o texto teatral, por seu caráter dialógico e direto, facilita pensarmos, questionarmos e refletirmos a sociedade em que vivemos. Não à toa, o teatro é, em geral, o primeiro segmento cultural a ser censurado em épocas obscuras. A lista a seguir é um breve convite à leitura de dramaturgia, este gênero surpreendente que às vezes passa desapercebido até pelos leitores mais vorazes.   

A saída do teatro: depois da representação de uma nova comédia

Em Teatro completo, Nikolai Gógol, editora 34, 2009. Tradução de Arlete Cavaliere

Nikolai Gógol, célebre escritor russo, bastante conhecido pelo romance “Almas mortas” e pela novela “O capote”, era um dramaturgo igualmente genial. Entre tantas peças transformadoras do gênero e da linguagem teatral publicadas na Rússia, como é o caso de “O inspetor geral”, “A saída do teatro” pode até passar despercebida. Mas nela há um elemento interessante: a curiosidade do autor quanto à recepção de seus textos. Na peça, ele se mistura aos personagens, tornando-se um deles, e assim escuta os comentários daqueles que saem do espetáculo e conversam entre si. É uma comédia questionadora do próprio ambiente crítico e artístico da época. Divertido e atual, o texto é ótimo para sentir um pouco do clima da sociedade russa do século 19, período em que viveu Gógol. Para saber mais, vale a pena ler os comentários feitos pela organizadora e tradutora Arlete Cavaliere na introdução à edição. 

Electra(s)

Sófocles/Eurípedes, Ateliê editorial, 2018. Tradução de Trajano Vieira

São muitas as motivações para ler – e reler – os clássicos da tragédia grega. Em releituras contemporâneas, seja nos textos de teatro, nas montagens clássicas ou, ainda, em óperas, os personagens inscritos nessa tradição voltam à cena, ressignificados. Ter, portanto, o conhecimento de quem foram esses personagens da mitologia, símbolos da cultura ocidental, em nosso repertório, auxilia enormemente a compreender e apreciar a cena contemporânea. A história pode, assim, ser vista como uma sequência de transformações que dialogam com aquilo que passou e com o que ainda está por vir. É interessante notar os diferentes caminhos que traçam os autores, mesmo em obras próximas no tempo: Sófocles, mais fiel ao mito original, escreve e conta sua Electra a partir da tensão que envolve a obsessão em punir a mãe; já Eurípedes, em tom mais despojado, retoma o mesmo tema ao fazer uma comédia, numa digressão ética sobre a vingança. Seja qual for a peça que o leitor prefira, ler “Electra” é sempre um prazer!      

Counting the Ways

Edward Albee, Overloook Press, 1975

Lamentavelmente este soneto teatral cheio de vida ainda não foi traduzido para o português. Vencedor dos prêmios Pulitzer e Tony, Edward Albee é considerado um dos maiores dramaturgos estadunidenses. Mais conhecido por sua obra “Quem tem medo de Virginia Woolf”, ele se inspirou nos chamados “Sonetos portugueses” (1850), de Elizabeth Browning para escrever “Counting the Ways”. Trata-se de uma peça curta, elíptica, cheia de humor, e sobre um tópico único: como o amor entre dois personagens – Ele e Ela – se esvai, desbota, perde o brilho, enquanto ambos envelhecem. A sagacidade de Albee ao construir os diálogos que se desenvolvem ao longo da peça faz-nos entrar em contato com um tema complexo com bastante leveza. 

Fala baixo senão eu grito

Leilah Assumpção, Onze peças de Leilah Assumpção, Casa da Palavra, 2010

Quando se fala em dramaturgia brasileira contemporânea, muitas vezes a conversa se restringe àqueles autores que tiveram suas peças adaptadas para o cinema e a televisão – Nelson Rodrigues, Gianfrancesco Guarnieri, Dias Gomes, entre outros. Porém, diversos outros expoentes do teatro nacional tiveram papel fundamental na resistência ao regime ditatorial – seus trabalhos enfrentaram, inclusive, a censura – e na construção de uma cultura popular brasileira durante o período da redemocratização. A partir de 1969, houve um crescimento da participação das mulheres na dramaturgia, como expressão de resistência. Entre elas estava Leilah Assumpção. Nascida em 1943, Assumpção é dramaturga e pedagoga. Sua obra trabalha, essencialmente, a situação da mulher na sociedade. O drama “Fala baixo senão eu grito” recebeu, no ano de sua estreia (1969), os prêmios Molière e APCA. Vale lembrar que, ainda que a peça não tenha sido censurada, abordar temas como a insubmissão da mulher e, por consequência, ecoar a falta de liberdade política vivida na época era uma proposta ousada, já que as discussões de gênero e do próprio feminismo eram campos bastante novos no Brasil e no mundo.

As regras do bem viver na sociedade moderna

Jean-Luc Lagarce, Cotovia, 2004 [edição portuguesa; Coleção Livrinhos de Teatro]. Tradução de Alexandra Moreira da Silva

Este monólogo cômico, escrito apenas um ano antes da morte prematura de Jean-Luc Lagarce, soa como um balanço do passado dos indivíduos e do contato que estes travam com a sociedade. Ele retrata o desencontro entre os padrões de comportamento impostos pelas convenções sociais e o absurdo que esses modelos engendram na vida de cada um e na sociedade como um todo. Lagarce nos mostra o que incomoda e onde realmente nos toca essa falta de sintonia entre a realidade e o eu interior, tudo isso com uma boa dose de humor. O texto “Estava em casa e esperava que a chuva viesse”, também de Lagarce, foi a escolha do célebre Antunes Filho para o último espetáculo que dirigiu antes de sua morte. A apresentação estreou em 2018 e voltou ao Sesc Consolação este ano.

Florence Curimbaba é fundadora e editora-chefe da Temporal. A editora, que estreou em novembro de 2018, tem o projeto inicial de publicar obras da dramaturgia contemporânea, trazendo ao público brasileiro títulos importantes, inéditos ou esgotados, do teatro nacional e estrangeiro, além de textos teóricos e críticos que ajudem a refletir sobre as obras ficcionais desse gênero.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: