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Foto: Arquivo pessoal

O tradutor e professor de literatura Mamede Jarouche indica 5 obras para quem quer saber mais sobre a história e os textos árabes

Quando o assunto é a milenar cultura árabe, salta aos olhos a conspícua deficiência da bibliografia em português, ao menos se comparada com a existente em inglês, francês ou espanhol, para ficar somente nessas línguas, o que obriga os eventuais interessados daqui a buscarem socorro nesses outros acervos. Carecemos tanto de traduções de textos árabes clássicos e modernos como de obras de crítica e análise contemporâneas, sejam elas de arabistas ou de árabes propriamente ditos, muito embora já contemos com vários trabalhos de inegável qualidade. No atual momento brasileiro, em que todo e qualquer assunto tem se tornado objeto de uma até agora desconhecida polarização/radicalização, a cultura árabe, por fatores históricos bem conhecidos, é e será um dos objetos preferenciais dessa discussão. E neste assunto, como em qualquer outro, é sempre bom, útil e belo que se procure estudá-lo antes de se manifestar, pois ninguém em sã consciência pode pretender, mediante meia dúzia de frases, dar a palavra final sobre uma civilização tão antiga e multifacetada. Sugiro os seguintes livros:

Ornamento do Mundo

Rosa Maria Menocal, editora Record, 2004

Ex-professora de espanhol em Yale, morta em 2012, a autora nos apresenta neste excelente trabalho um panorama da Península Ibérica durante o período medieval, as marchas e contramarchas da convivência entre as três religiões monoteístas. Ela procura evidenciar como, para os termos da época, a convivência — ou “cultura da tolerância”, como consta do subtítulo do livro — entre essas confissões foi marcada pela consciência da pluralidade e respeito pela alteridade, para além das lutas políticas e militares que culminaram, no final do século 15 e no início do século 17, na expulsão, respectivamente, de judeus e de muçulmanos pelos conquistadores cristãos.

O Compassivo Ilimitado

Stephen Hirtenstein, Fissus Editora, 2006

Estudo muito acessível da obra do grande místico (sufi) muçulmano Ibn Arabi (1165-1240), nascido em Múrcia, na Península Ibérica, e que morreu em Damasco. Conhecido como al-Sheikh al-Akbar (o mestre maior), Ibn Arabi, segundo o autor, é um dos pensadores mais originais da humanidade, tendo imprimido em seus trabalhos a marca da universalidade e da amplitude, com “uma surpreendente penetração nas questões centrais da experiência humana”. Considerada herética nos meios ortodoxos muçulmanos, a obra de Ibn Arabi defende a transformação interior por meio de uma religiosidade que, embora muçulmana em princípio, está aberta às demais religiões, entre elas o cristianismo e o judaísmo. Ibn Arabi é proibido na Arábia Saudita, fato que, sem dúvida, consiste no maior elogio que qualquer obra pode receber: um atestado de qualidade concedido, em negativo, pela miséria mental e moral vigente no reino das trevas.

O Jesus Muçulmano

Tarif Khalidi, Imago Editora, 2001

Celebrado professor do King’s College, de Cambridge, e membro de renomadas instituições de pesquisa, o historiador palestino Tarif Khalidi realiza um exaustivo levantamento dos provérbios atribuídos a Jesus no legado cultural muçulmano, mapeando-os nas suas mais variadas fontes. Além de referência importantíssima no texto canônico por excelência do islã, o Alcorão, Jesus faz parte do imaginário cultural muçulmano como exemplo de bondade, despojamento e sabedoria. Livro agradabilíssimo e instrutivo.

O Mundo Falava Árabe

Beatriz Bissio, Editora Civilização Brasileira, 2012

Originalmente tese de doutorado defendida pela autora na UFF (Universidade Federal Fluminense), trata-se de uma pesquisa que procura destacar, por meio das obras do historiador Ibn Khaldun (1332-1406) e do viajante Ibn Battuta (1304-1377), a originalidade da cultura árabe-islâmica durante a Idade Média, com seus aportes fundamentais para a cultura humana nos campos da filosofia, da história e das ciências. Os autores escolhidos como representativos desse percurso foram, cada qual a seu modo, inovadores nas áreas em que atuaram, autênticos fundadores de discursividade.

O Enigma de Qaf

Alberto Mussa, Editora Record, 2013

Em seu segundo romance, o autor escolheu, decerto inspirado por suas experiências tradutórias com a poesia árabe antiga, o universo pré-islâmico, ou seja, a vastidão desértica da Península Arábica, e seus inúmeros poetas. Dividido em 28 capítulos, com excursos e paradigmas, o romance lança mão do farto anedotário a respeito dos poetas árabes pré-islâmicos, transformando-o em literatura de altíssima qualidade. Trata-se de uma obra ímpar na história da literatura brasileira, e, se por mais não fosse, mereceria leitura pela sua inegável originalidade.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que o "O Enigma de Qaf" era o primeiro romance de Alberto Mussa. Na verdade, é o segundo. O primeiro é "O Trono da Rainha Jinga". A correção foi feita às 18h21 de 9 de janeiro de 2019.

Mamede Jarouche é tradutor e professor titular de língua e literatura árabe na USP, onde leciona desde 1992. Fez pós-doutorado no Cairo. Entre outros, traduziu o Livro das Mil e Uma Noites ao português e Raduan Nassar ao árabe.

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