Foto: Daniela Arrais

Chico Mattoso é o roteirista-chefe da série “Pico da Neblina”, que estreia pela HBO em agosto de 2019. Ele indica cinco obras para refletir sobre a escrita de roteiros e que não são manuais de dramaturgia, de Aristóteles a Hitchcock

Quando se fala em "livros sobre roteiro", a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas são aqueles velhos manuais cheios de soluções mais ou menos formulaicas para estruturar uma narrativa. Embora existam manuais competentes por aí, limitar-se a eles implica abordar a escrita do roteiro de fora para dentro, ignorando aspectos fundamentais para a criação de uma boa história. Os livros a seguir me ajudaram a entender melhor o ofício dramatúrgico e também a refletir sobre seus limites e possibilidades.

Três usos da faca

David Mamet, Civilização Brasileira, 2001

Mamet é um gênio da dramaturgia americana, autor de peças como “American Buffalo” e “Glengarry Glen Ross”, além de um bem-sucedido roteirista. Neste livrinho ele medita sobre “a natureza e a finalidade do drama” e, num estilo veloz e original, oferece reflexões sobre a condição humana e a função que as histórias têm em nossas vidas.

Poética

Aristóteles (Várias edições)

Estima-se que apenas uma fração da “Poética” de Aristóteles tenha chegado até nós, mas as páginas remanescentes exerceram influência fundamental sobre a dramaturgia dos últimos 2.000 anos — e, não por acaso, sobre a narrativa cinematográfica dos últimos cem. Boa parte das “regras” que encontramos em manuais de roteiro são versões normativas daquilo que Aristóteles sistematizou observando as peças de Ésquilo, Sófocles e companhia. Vale ir direto à fonte, que segue brilhante e inspiradora.

Filosofia da composição

Edgar Allan Poe (Várias edições)

Poe morreu algumas décadas antes da invenção do cinema, mas teria dado um ótimo roteirista. A prova está não só em seus contos, repletos de achados imagéticos e viradas inesperadas, mas também neste pequeno ensaio em que o autor tenta racionalizar o processo de escrita de seu poema “O corvo”. Desconfio que ninguém sairá melhor poeta depois da leitura, mas as reflexões de Poe sobre estrutura, concisão e unidade farão a alegria de qualquer interessado por dramaturgia.

Making movies

Sidney Lumet, Vintage Books, 1995

Não bastasse ter sido um dos maiores cineastas da história, Sidney Lumet também escrevia bem pacas. Nesta introdução ao processo de criação de um filme, Lumet lança seu olhar honesto e generoso para um ofício que mistura arte e comércio, invenção e engenharia — e ajuda o roteirista iniciante a entender qual é o seu lugar na longa cadeia colaborativa que envolve a criação de uma obra audiovisual.

Hitchcock / Truffaut : Entrevistas

François Truffaut, Companhia das Letras, 2004

Ninguém entendeu melhor do que Alfred Hitchcock como se conta uma história por meio de imagens. Nesta série de conversas com François Truffaut, o cineasta inglês oferece ao leitor uma visão privilegiada para a própria obra e também para uma certa maneira de pensar a dramaturgia e a linguagem visual. Combinado com um box de blu-rays (ou algumas contas de streaming), este livro equivale a um curso avançado em narrativa cinematográfica. Imperdível.

Chico Mattoso é autor dos romances “Longe de Ramiro” (Editora 34) e “Nunca vai embora” (Companhia das Letras). Mestre em escrita dramática pela Northwestern University (EUA), foi um dos criadores da série “Pais de Primeira” (Globo) e roteirista-chefe de “Pico da Neblina”, que estreia em agosto de 2019 na HBO.

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