Foto: Alon Siga

A escritora israelense Ayelet Gundar-Goshen indica cinco romances com histórias de amor que se passam durante conflitos armados. Ela participa da edição de 2019 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que ocorre entre 10 e 14 de julho.

Meu romance “Uma noite, Markovitch” começa na véspera da Segunda Guerra Mundial, quando dois homens são enviados para a Europa para entrar em casamentos fraudulentos com mulheres judias e tirá-las de lá antes que seja tarde demais. Romances que combinam amor e guerra colocam dois eternos rivais no campo de batalha: Eros e Tânatos. A capacidade do ser humano para o amor, a compaixão e a criação se choca com a habilidade da humanidade de destruir, esmagar e matar. É da luta sangrenta entre Eros e Tânatos — ou do coito suado entre esses dois — que a literatura nasce.

Odisseia

Homero (Várias edições)

Vamos começar com os clássicos, aqueles que todos nós conhecemos, mas nunca nos preocupamos em ler. Para ser honesta, foi só depois da mais recente tradução para o hebraico que comecei a entender a beleza dessa obra-prima intimidante. Ela conta a história da viagem de Odisseu, rei de Ítaca, de volta à sua esposa Penélope, após o fim da Guerra de Troia. Um homem retorna para casa depois de muitas batalhas, apenas para descobrir que a casa não é a que ele deixou, e a esposa não é a que ele deixou, e o próprio homem não é o mesmo que foi embora. Normalmente, quando falamos sobre o custo da guerra, falamos sobre os mortos. Mas aqui vemos o preço pago pelos vivos: uma mulher não consegue reconhecer seu próprio marido. Um filho não consegue reconhecer o próprio pai.

Por quem os sinos dobram

Ernest Hemingway (Várias edições)

O americano Robert Jordan se junta a guerrilheiros antifascistas durante a guerra civil espanhola. É somente no meio de uma guerra que ele redescobre sua paixão pela vida, por meio de seu relacionamento com Maria, uma jovem espanhola. Este é um romance de guerra clássico, baseado na própria experiência de Hemingway como repórter durante o conflito. Você pode encontrar aqui os sinais de alerta da própria carnificina interna de Hemingway, a guerra psicológica que terminou com seu suicídio. Mas você também pode encontrar um desejo pela vida, com toda a sua dor e beleza.

Amada

Toni Morrison (Várias edições)

Alguns historiadores nos contam que a guerra civil americana terminou em 1865. Mas, só porque eles dizem que a guerra acabou naquele momento (isso não ocorreu, nem oficialmente, até agosto seguinte), não significa que tenha acabado nas mentes das pessoas que passaram por ela. “Amada”, colocado pelos prêmios Pulitzer e Nobel no panteão de livros modernos, é um romance ambientado nos anos posteriores à assinatura do presidente Andrew Johnson da “Proclamação – Declarando que a paz, a ordem, a tranquilidade e a autoridade civil agora existem em todo o território dos Estados Unidos da América” (1866). Sethe, uma escrava fugida, tenta construir a vida como uma mulher livre. Quando a possibilidade do amor surge, o passado volta para assombrá-la. Morrison sugere que, para algumas pessoas, a guerra nunca termina e analisa se, em tais casos, o amor tem alguma chance.

A mulher foge

David Grossman, Companhia das Letras, 2009

Uma mãe israelense leva seu filho a uma base das Forças Armadas e retorna a uma casa vazia. Assombrada por visões de oficiais do Exército batendo em sua porta com as mais terríveis notícias, “a mulher foge” para o fim da terra. Essa jornada surreal é acompanhada por um ex-soldado: um velho amigo — ou amante — que sofre de transtorno de estresse pós-traumático. Um dos melhores romances já escritos em hebraico.

Suíte francesa

Irène Némirovsky, Companhia das Letras, 2006

Quando Grossman começou a escrever “A mulher foge”, ele não tinha como saber que perderia um de seus filhos em uma guerra antes de terminar de escrevê-lo. Quando Némirovsky começou a escrever “Suíte francesa”, em 1940, ela não sabia que não viveria para ver uma cópia impressa do livro. Némirovsky foi assassinada em Auschwitz em 1942 e o manuscrito foi encontrado 60 anos depois. Enquanto Hemingway escreve sobre a guerra pelos olhos dos combatentes na frente de batalha, Némirovsky se concentra naqueles que ficaram para trás. Seu retrato de uma aldeia francesa durante a ocupação nazista inclui a história de amor de um oficial nazista e uma mulher francesa cujo marido é um prisioneiro de guerra.

Ayelet Gundar-Goshen nasceu em Israel, em 1982. Ela é escritora, roteirista e psicóloga. “Uma noite, Markovitch” (Todavia, 2018), seu primeiro romance, recebeu o prêmio Sapir de literatura israelense para melhor estreia e já foi traduzido para 14 idiomas. A autora é mestre em psicologia pela Universidade de Tel Aviv e roteirista premiada de cinema e televisão. Publicou outros dois romances, “Walking Lions” e “The Liar”, ainda sem tradução para o português. 

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