Ir direto ao conteúdo

Foto: David Pattinson

O músico e escritor angolano Kalaf Epalanga indica cinco obras sobre deslocamentos espontâneos ou forçados. Ele participa da edição de 2019 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que ocorre entre 10 e 14 de julho.

Interesso-me por livros que me fazem pensar sobre migrações, voluntárias e involuntárias. Sem julgamentos, apenas com o simples propósito de informar-me e reconhecer o outro. Os livros que aqui trago pertencem a essa categoria e nas palavras do poeta angolano António Jacinto: “Toda literatura tem algo de proveito e exemplo, esta também tem”. Saiba-se, então, colher o exemplo que esta nos dá.

Signs Preceding the End of the World

Yuri Herrera, Consortium Book Sale, 2015

Esta não é uma típica narconovela. Embora contenha todos ingredientes do gênero, a prosa poética que Herrera nos oferece consegue, e com distinção, evitar o léxico esgotado que marca a literatura de fronteira. As palavras “narcotráfico”, “cartel”, “México” ou “Estados Unidos” foram excluídas da narrativa. Makina, uma jovem trilíngue — fluente em ameríndio, castelhano e inglês, idioma designado por “língua nova” ou “anglo” — é a super-heroína deste romance. Ela tem como missão levar um apelo de sua mãe para o irmão, que migrou para o norte três anos antes, e um pacote suspeito, que lhe foi confiado por um borrão do submundo do crime para ser entregue do outro lado da fronteira. Aqui essa palavra carrega um desígnio maior do que a função que lhe atribuímos na divisão entre duas zonas geográficas distintas. Neste romance, fronteira é mais do que uma simples separação entre dois países, é a linha que se ergue entre a realidade e o mito.

Passagem para o Ocidente

Mohsin Hamid, Companhia das Letras, 2018

O livro abre com uma das histórias de amor igual a tantas outras. Menino conhece menina numa sala de aula. Os dois são atraentes. Ele chama-se Saeed, trabalha em uma agência de publicidade, é pragmático, filho de um professor universitário. Ela, Nádia, é mais intrigante. Trabalha para uma seguradora. Anda de moto, veste-se de preto, mora sozinha, consome alucinogênicos, coleciona discos de vinil e não reza numa sociedade que vive sob o manto da fé religiosa. Esse é o tipo de elemento necessário para um romance arrebatador a Hollywood, só que o amor furtivo entre Nádia e Saeed nasce numa cidade sem nome à beira do colapso, cheia de postos de controle e de bombas a deflagrar a todo momento. À medida que a violência aumenta, os dois amantes sabem que têm de deixar para trás a vida que sempre conheceram, embarcando numa viagem vertiginosa sem regresso que os leva a Míconos, Londres e São Francisco. Misturando diferentes linguagens literárias com uma boa dose de realismo mágico o autor nos serve um surpreendente romance sobre refugiados, a história de uma guerra civil e a consequência dela na vida de pessoas comuns que descobrem a existência de portas clandestinas que levam a outros países.

The Leavers

Lisa Ko, Little Brown UK II, 2018

Em linhas gerais, poderíamos afirmar que se trata de uma história sobre migração, deportação e a tentativa de regularização de documentos que garantam o estatuto de cidadania. Mas este romance, que nos traz a história sombria e devastadora de um menino abandonado nos Estados Unidos pela sua mãe chinesa, nos faz refletir sobre muitos mais assuntos: o que significa a ideia de lar, o que é pertencer a uma comunidade, os sentimentos e os desafios de inserção numa outra tribo, o peso da separação física entre pessoas que nutrem afetos entre si. É quase impossível não sentir uma ligação imediata com os narradores Deming, o menino de 11 anos, e a sua mãe Polly, uma manicure que luta para dar uma vida melhor ao seu filho. A constante e perturbante pergunta — onde sua mãe terá ido, que razão a levou a abandonar-lhe? — atormenta-nos ao longo deste romance de estreia, impressionantemente bem escrito, que merece todo o reconhecimento que teve.

Luanda, Lisboa, Paraíso

Djaimilia Pereira de Almeida, Companhia das Letras, 2018

A forma ternurenta e delicada com que a escritora aborda a vida destes personagens é extremamente comovente. São pessoas que nada têm além de memórias. Esta história de Cartola e Aquiles, pai e filho oriundos de Angola, é igual a de muitos outros imigrantes oriundos das antigas colônias europeias em busca de um tratamento médico ou de melhores condições de vida. Em Angola, Cartola era alguém, parteiro no maior hospital de Luanda; em Lisboa, passou a ser uma sombra de si mesmo e vivia de trabalhos precários na construção civil. Aquiles, que chegara a Portugal adolescente e tinha o pai como herói, foi se transformando naquilo que é o pesadelo de muitos imigrantes que chegam jovens ao país de acolhimento. Vivem condenados ao limbo de não pertencer a nenhuma nação e isso o consome mesmo com o pai dizendo-lhe que “Aqui nessa terra ninguém sabe quem és, por isso podes ser toda a gente.” Um sonho concretizável, porém só faltava o dinheiro e o saber por onde começar.

The Moor’s Account

Laila Lalami (Várias editoras)

Tenho um enorme fascínio por romances históricos. Este livro é uma ficção inspirada num período histórico trágico para as pessoas de pele escura, o século 16. Narrada por uma voz que fora omitida da história, nos é dado a conhecer a vida de Mustafa al-Zamori, um homem árabe que sacrifica-se para salvar a família da miséria, vendendo-se a si próprio como escravo. Acompanhamos a sua travessia do Atlântico até o Mundo Novo, já com um novo nome, Estebanico, uma vez que na condição de escravo lhe foi retirado o direito a sua identidade. Assim como a sua fascinante luta pela liberdade e os oito anos de um caminhada rocambolesca entre Tampa, Flórida, até a Cidade do México, ao lado de Álvaro Núñez Cabeza de Vaca, Alonso del Castillo Maldonado, Andrés Dorantes de Carranza, o seu proprietário. Eles foram os únicos quatro sobreviventes de uma expedição de 300 homens enviada pelo navegador Pánfilo de Narváez em busca de ouro para a Coroa Espanhola.

Kalaf Epalanga é músico e escritor. Nasceu em Benguela, Angola, em 1978. É membro da banda Buraka Som Sistema, foi cronista da revista digital Rede Angola e do jornal português O Público e escreve para a revista GQ Portugal. Publicou o romance “Também os Brancos Sabem Dançar” e os livros de crônicas “O angolano que comprou Lisboa (por metade do preço)” e “Estórias de amor para meninos de cor”.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!