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Foto: Iago Batista-Seppia

A cofundadora do canal ~dibradoras Roberta Nina indica cinco obras que contam a história da inclusão das mulheres no universo esportivo

A oitava edição da Copa do Mundo de futebol feminino acontece entre junho e julho de 2019. Mas muita gente só ficou sabendo disso há poucos meses. Enquanto a seleção brasileira masculina é pentacampeã e disputa o torneio desde 1930, as mulheres perseguem o título inédito desde 1991.

Todo esse atraso é resultado de proibições que durante os períodos autoritários da história brasileira  – tanto na ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) como na ditadura militar (1964-1985) –, jogar bola virou caso de polícia para elas.

As mulheres passaram quatro décadas proibidas de praticar futebol e outros esportes considerados "inadequados para o corpo feminino”, como o halterofilismo, o beisebol e as lutas de qualquer natureza. O decreto lei número 3.199 de 14 de abril de 1941 dizia: "Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”

A inclusão feminina no esporte aconteceu graças a muita luta e resistência delas em toda parte do mundo – e em alguns lugares as mulheres seguem brigando pelo seu direito de torcer ou de jogar.

Minhas escolhas têm como objetivo destacar obras escritas por mulheres ou que falem sobre a participação delas no esporte.

Atletas Olímpicos Brasileiros

Katia Rubio

A professora Katia Rubio passou mais de 15 anos pesquisando e entrevistando os atletas olímpicos do Brasil e reuniu neste livro a história de vida e trajetória no esporte das 1.796 pessoas que representaram o país em edições de Jogos Olímpicos da Era Moderna.

Na primeira parte, a autora faz um panorama sobre a competição, os principais fatos históricos do século 20 que acompanharam o renascimento dos Jogos Olímpicos e a transformação dessa competição no maior evento sociocultural do planeta. Na leitura, é possível compreender melhor como a inclusão das mulheres em algumas modalidades esportivas aconteceu de maneira tardia, como o vôlei, judô e o futebol. E na segunda parte, estão registradas as histórias de todos os atletas (contadas por eles ou pelos familiares), mostrando as dificuldades que cada um enfrentou para representar o país em uma Olimpíada. No caso das mulheres, as histórias contam também com situações de machismo, preconceito e até mesmo assédio.

O dia em que mulheres viraram a cabeça dos homens

René Simões

Quando René Simões assumiu a seleção feminina em 2004, ele recebeu da própria CBF (Confederação Brasileira de Futebol) a lista de jogadoras que deveria convocar. Técnico acostumado a atuar no futebol masculino, René não acompanhava nada do cenário no feminino e, quando chegou, talvez soubesse nomear apenas duas ou três jogadoras – Marta, Cristiane e Formiga. Mas o técnico entrou disposto a mergulhar no universo do futebol feminino, entender as dificuldades e a luta daquelas jogadoras, o preconceito que enfrentavam e construir uma equipe forte que deixasse para trás aquele estigma de “coitadinhas”. Nesse livro, ele conta a trajetória da conquista da medalha de prata histórica em 2004 com todos os bastidores das brigas com a CBF para garantir melhores condições de treinamento para as atletas. É um livro escrito de maneira “caseira” pelo próprio Renê Simões, mas é um conteúdo essencial para entender a luta da modalidade até aqui.

Pelada: uma volta ao mundo pelo prazer de jogar futebol

Gwendolyn Oxenham

Uma ex-jogadora universitária que viajou os cinco continentes registrando o futebol como fenômeno mundial de todas as classes, de todas as cores e religiões. Gwendolyn Oxenham relata aqui a viagem que fez por 25 países ao longo de três anos contando as histórias ocultas  nas peladas disputadas em campos de várzea, na rua, na madrugada, e até mesmo na prisão. O Brasil foi um dos destinos visitados pela autora americana, que chegou a jogar pelo Santos e voltou à cidade para contar a história de senhores de 70 e até 80 anos que batiam uma bolinha na praia na alvorada de domingo. O futebol foi até mesmo capaz de vencer a rivalidade política e religiosa em Jerusalém, onde Gwendolyn jogou entre judeus e árabes. Na Bolívia, o desafio foi entrar em um presídio e ver como o futebol era o respiro de liberdade que os presos tinham no tempo e cárcere.

Girls with Balls: The Secret History of Women’s football


Tim Tate

Este livro ainda não tem tradução para o português, mas é uma relíquia importantíssima sobre a história do futebol feminino. Ele traz detalhes sobre como as mulheres começaram a jogar na Inglaterra ainda no final do século 19. Na época, a modalidade ficou tão popular, que a Federação Inglesa baniu partidas de futebol feminino dos campos profissionais por temer que elas “roubariam” a atenção – e o dinheiro – do futebol masculino. O livro ainda é difícil e caro de se encontrar no Brasil, mas a Livraria Cultura vende por encomenda.

Toque de Gênio


Katia Rubio e Rodrigo Grilo

A biografia de Hélia Pinto – mais conhecida como Fofão – conta a trajetória da maior vencedora da história do vôlei feminino brasileiro.

Filha de um sapateiro e de uma dona de casa de Lauzane Paulista, Fofão começou a jogar vôlei profissionalmente com 15 anos. De poucas palavras e de um comportamento exemplar, a craque da camisa 7 foi líder de uma geração vitoriosa, mas precisou enfrentar muitas barreiras para chegar ao topo. O livro conta passagens de sua infância humilde, sobre o desejo de se tornar freira, suas técnicas como levantadora, a briga por posição com Fernanda Venturini e claro, sobre a origem do apelido tão famoso.

Roberta Nina Cardoso é formada em comunicação social com ênfase em jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu e pós-graduada em gestão e marketing esportivo pela Trevisan Escola de Negócios. É cofundadora do canal ~dibradoras que confere maior espaço e visibilidade para as mulheres no esporte.

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