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Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

A artista, professora e pesquisadora Renata Felinto indica 5 livros para se aprofundar na arte feita por pessoas negras

Precisamos repensar a palavra “lugar”. Considerando os estudos cada vez mais profundos sobre decolonialidade, ideia em que está intrínseca a discussão sobre territorialidade, o emprego da palavra “lugar” para se referir ao protagonismo de pessoas negras  na participação e construção da história das artes visuais no Brasil descortina a agudeza da questão racial.

Estamos ainda pensando em lugares específicos a serem ocupados por pessoas negras que fazem arte? Se sim, assumimos que o racismo impede pessoas negras que produzem arte de estarem em quaisquer lugares? Se não, artistas visuais negras e negros podem estar em qualquer lugar? Se a arte como área de conhecimento e de criação inerente ao ser humano é livre, isso significa que a pessoa negra que faz arte também o é? Como já denunciava Frantz Fanon em “Peles negras, Máscaras brancas” (1952), existe o homem e existe o homem negro, de forma que existe a arte, e existe a arte negra. Isso é fato e é preciso observar essa realidade com a maturidade de entendermos que a obra reflete a pessoa que a cria e que se circunscreve num contexto histórico, social, regional e também étnico-racial.

Pois bem, é indissociável a história da pessoa negra que produz arte e o processo de elaboração de sua obra. Há, sim, artistas que possuem toda uma trajetória sem que a questão de sua identidade, negritude e consciência de si num contexto diaspórico se materialize em suas obras de arte. Mas seria essa pessoa alienada de sua condição no mundo e, nesse caso, especificamente, no Brasil?

Assim, pensar sobre obras que tratem do suposto lugar do negro na arte também é pensar sobre as abordagens da ciência, da antropologia, da sociologia, da história, da psicologia, entre outras áreas do conhecimento, do ser pessoa negra no Brasil. E são inúmeros autores e autoras que se debruçaram sobre o tema. Focando nas artes visuais podemos mencionar, sem juízo de valor, Raymundo Nina Rodrigues, Manuel Querino, Marianno Carneiro da Cunha, Abdias Nascimento, Emanoel Araújo, Maria Heloisa Leuba Salum, Kabengele Munanga, só para ficar na tradição. Ou seja, autores e autoras, por vezes também artistas, como nos casos de Querino e Araújo, que buscaram criar uma narrativa coerente sobre arte realizada por pessoas negras a partir de uma linearidade e sucessão de acontecimentos.

Muitos desses escritos são artigos e alguns foram realizados  especialmente para catálogos de exposições, o que aponta para a escassez de publicações mais específicas sobre esse recorte. O que não significa que existam hoje poucos estudos. Ao contrário, nunca se estudou tanto arte realizada por pessoas negras. Precisamos de editoras que se proponham a publicar esses escritos.

Indico abaixo algumas publicações que demarcam essa importância nas primeiras décadas do século 21 e ressalto que o lugar do negro (e da negra) nas artes visuais do Brasil é em todos os lugares.

Arte africana e afro-brasileira


Dilma de Melo Silva e Maria Cecília Félix Calaça. Editora Terceira Margem, 2006

A professora da Escola de Comunicação e Artes da USP Dilma de Melo Silva e a pesquisadora em educação Maria Cecília Félix Calaça reúnem conhecimentos de suas pesquisas no mestrado e no doutorado para a elaboração deste breve livro que tem um caráter introdutório sobre o que vem a ser a arte africana e afro-brasileira. Iniciam a publicação apresentando parte pouco conhecida por leitores e leitoras do Brasil e que deveria ser ensinada na educação básica: os grandes reinos africanos antes do contato e destruição por parte de europeus. A partir disso, trazem informações sobre a arte tradicional realizada pelas populações desses reinos, principalmente no que se refere ao caráter conceitual dessas obras. Apontam para os primeiros estudos realizados sobre essa produção de arte fora do Brasil e analisam como essa estética tem uma continuidade no Brasil a partir de artistas que se dedicaram à escultura. Por fim, há preciosas dicas de como trabalhar o tema em sala de aula.

 

A mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica

 
Emanoel Araújo (org.). Imprensa Oficial do estado de São Paulo. Segunda edição revista e ampliada, 2010

A primeira edição desta fundamental obra para se entender a importância da população africana e de sua descendência para a construção do Brasil foi publicada em 1988 em comemoração aos 100 anos do fim formal da escravidão. Artes visuais, música, dança, literatura e a cultura cotidiana brasileira são abordadas nesta obra que, em sua segunda edição, de 2010, é dividida em dois volumes. O segundo volume é dedicado totalmente às artes da modernidade à contemporaneidade, com destaque para as artes visuais considerando que se amplia significativamente a quantidade de artistas visuais considerados contemporâneos. A produção artística que poderia demarcar um modernismo negro é analisada pela  curadora e crítica de arte Aracy Amaral. Já Emanoel Araújo reflete sobre a o negro brasileiro e sua relação com as artes visuais no Brasil para, em seguida apresenta um conjunto de novos artistas nascidos a partir de 1950. Uma das marcas curatoriais de Araújo que é o diálogo e o trânsito de artistas negros e negras entre espaços hegemônicos e não hegemônicos, entre o erudito e o popular, se faz presente nas escolhas das pessoas apresentadas bem como de suas produções.  É uma publicação pioneira  que extrapola os limites das artes visuais, pois que tem a inteligência do povo negro a serviço da criação como sua centralidade.

Territórios: artistas afrodescendentes no acervo da Pinacoteca

Tadeu Chiarelli (org. e curadoria). Pinacoteca do Estado, 2016

O historiador, crítico e curador de arte Tadeu Chiarelli, como diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo, realizou a exposição que dá nome ao catálogo acima mencionado. Ele revisitou a gestão curatorial (1992-2002) do já citado Emanoel Araújo, ao realizar a revisão da presença de obras de artistas visuais negros e negras no acervo da Pinacoteca.  Deu destaque a artistas que constam na coleção desde os primeiros anos, como Arthur Timótheo da Costa. Ao mesmo tempo, atualizou a coleção a partir de um projeto de aquisições de obras de nomes contemporâneos, como as pinturas em aquarela do precocemente falecido Sidney Amaral. O catálogo apresenta artigos que aprofundam de maneira mais crítica esse lugar que foi relegado ao artista visual negro a partir da noção de território e de territorialidade. Traz narrativas até então não escritas com contundência nos escritos do artista visual e curador Claudinei Roberto da Silva e da crítica e curadora Fabiana Lopes. É uma obra que aponta para o revisionismo da escrita da história da arte brasileira a partir da perspectiva de artistas visuais negros e negras que analisam mais criticamente a história do Brasil por meio de seus trabalhos, mas também demarca o pensamento de intelectuais negros sobre essas questões.

Negros Indícios: performance vídeo fotografia

Roberto Conduru (org.). Caixa Cultural, Espaço Donas Marcianas, 2017

O historiador, crítico, curador e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro realiza pesquisa sobre cultura e arte afro-brasileiras já há algumas décadas, inicialmente com forte tendência a tratar da temática afro-religiosa. Recentemente, observou a crescente produção de artistas visuais negros e negras que têm nas linguagens da fotografia, vídeo e performance o eixo central para materialização de suas ideias. Ao mesmo tempo, identifica que o espaço urbano abarca e projeta esses trabalhos que também anunciam e denunciam as urgências em tratar de determinados assuntos silenciados, como a história, existência e atuação do próprio segmento populacional negro que habita a cidade de São Paulo, local no qual a exposição foi realizada e que possui uma efervescente cena negra nas artes visuais. Este catálogo apresenta nomes contemporâneos e, como em poucas publicações, com uma grande presença de artistas visuais negras como a performer Michelle Mattiuzzi que foi uma das finalistas da edição de 2017 do Prêmio Pipa.

Histórias Afro-Atlânticas


Adriano Pedrosa, Ayrson Heráclito, Hélio Menezes, Lilia Schwarcz e Tomás Toledo. Masp e Instituto Tomie Ohtake, 2018

Identificada pelo jornal The New York Times como a melhor exposição de artes visuais de 2018, a mostra que ocupou dois grandes espaços expositivos de São Paulo, Masp e Instituto Tomie Ohtake corajosamente ousou tratar do lugar do artista visual negro não no Brasil, mas nos lugares que são afetados pelos comércio transatlântico de pessoas africanas escravizadas. Contando com uma equipe curatorial de reconhecimento inquestionável nas artes visuais – os críticos e curadores de arte Adriano Pedrosa e Tomás Toledo –, que se soma ao conhecimento antropológico, sociológico e da cultura brasileira e afro-diaspórica – os antropólogos, curadores e críticos de arte Lilia Schwarcz e Hélio Menezes, juntamente com o artista visual e curador Ayrson Heráclito –, o registro da exposição dá origem a dois catálogos. O primeiro apresenta a produção de artes visuais tendo como eixo conceitual e curatorial as diversas possibilidades da abordagem visual e estética da travessia do Oceano Atlântico, expondo assim tanto o trauma desse processo genocida como as reinvenções das populações negras que se constituem nas Américas. Este livro constitui um poderoso guia da iconografia, imaginário e resistência do e sobre o negro. O segundo volume é uma antologia que foca nos artigos produzidos em várias épocas sobre a diáspora negra, e demonstra os esforços da tradicional instituição Masp em se mostrar aberta a repensar esse lugar que o (não) negro ocupou, até então, em suas salas expositivas absolutamente embranquecidas.

 

Renata Felinto é doutora e mestra em artes visuais pelo Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e especialista em curadoria e educação em museus pelo Museu de Arte Contemporânea da USP. Artista visual e professora adjunta de teoria da arte da Urca (Universidade Regional do Cariri). Realizou trabalhos na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Itaú Cultural, Centro Cultural São Paulo, Sesc, Sesi/Fiesp, entre outros espaços. Coordenou o Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil. A arte produzida por mulheres e homens negrodescendentes tem sido principal tema de pesquisa.

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