Foto: Branca Mattos

A historiadora Raquel Barreto indica 5 obras para quem quer saber mais sobre a teoria e a prática de ativistas negras no Brasil e no mundo

Recentemente, as discussões sobre feminismo negro têm despertado um maior interesse do público. Por isso, o tema pode parecer novo ou, ainda, importado dos Estados Unidos, o que não é verdade. O feminismo negro possui uma tradição brasileira, iniciada na década de 1970, no interior do movimento negro, pelas próprias mulheres negras militantes.

Vale mencionar que o feminismo negro é uma teoria descolonizadora que orienta a atuação política e a produção de saber. Pauta-se em experiências individuais e coletivas de mulheres negras, formadas a partir de uma vivência histórica comum de expropriação colonial, racismo, supremacia branca, patriarcado e exploração de classe. O feminismo negro propõe uma nova forma de pensar e estar no mundo em que mulheres negras são sujeitas e trilham caminhos coletivos para a justiça social e equidade de poder com base em valores negros-africanos.

Escolher cinco obras que pudessem dar uma visão da heterogeneidade desse pensamento foi tarefa difícil: a lista é, obviamente, incompleta. Foi inevitável citar publicações em inglês, pois infelizmente muitos títulos importantes ainda não foram traduzidos. Quanto à produção nacional, é importante enfatizar que as mulheres negras brasileiras, em função da militância real e cotidiana, tiveram pouco tempo para elaborar uma escrita sistemática de seu pensamento. Além disso, a cultura negra brasileira se caracteriza pela oralidade. É pela fala que mulheres negras brasileiras têm compartilhado seus conhecimentos. Por último, mas não menos importante, é preciso mencionar o papel do mercado editorial brasileiro, que, de forma geral, ignora as produções autorais negras, sintoma do nosso racismo epistemológico.

O livro da Saúde das Mulheres Negras: nossos passos vêm de longe

Jurema Werneck, Maísa Mendonça e Evelin. C.White (orgs). Editora Pallas, 2000

Este livro é uma publicação pioneira no Brasil, reúne narrativas bastante diversas, incluindo textos e depoimentos de mulheres negras brasileiras e estadunidenses. A saúde é definida de forma ampla e inclui a saúde física e mental, espiritualidade, sexualidade, autocuidado e cura. Na publicação, há depoimentos de mulheres negras brasileiras referências como Mãe Beata de Iemanjá, Benedita da Silva, Leci Brandão, Marina Silva e outras. E artigos escritos por intelectuais e ativistas negras como Alzira Rufino, Edna Roland, Fatima Oliveira, Jurema Werneck, Luiza Bairros, Sueli Carneiro e Vilma Reis. Jurema Werneck, uma das organizadoras da obra, apresenta um bela definição para a luta das mulheres negras: “muitas mulheres traçaram este caminho que hoje trilhamos. Aos qual damos prosseguimento. Mais adiante, outras mulheres caminharão por nós. São traços, sinais, ideias e passos que, sim, vêm de muito longe.”

Uma autobiografia

Angela Davis, Boitempo, 2019

Originalmente lançada em 1974, a autobiografia de Angela Y. Davis, filósofa e ativista, uma das principais teóricas do feminismo negro, é uma obra de referência, que apresenta os primeiros 28 anos da autora. A narrativa atravessa um período intenso e conturbado da história dos Estados Unidos, tendo como pano de fundo a segregação racial, a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, os movimentos de libertação nacional na África e na Ásia, a New Left e o Black Power, que cruzaram direta e indiretamente a trajetória da autora. O texto traz o olhar de uma mulher negra revolucionária que olha para si e para o mundo interessada em transformá-lo.

Primavera para as rosas negras

Lélia González. Editora Filhos da África, 2018

Este livro reúne artigos, entrevistas, depoimentos e ensaios escritos de Lélia Almeida González (1935-1994), antropóloga, militante e teórica pioneira no debate sobre o feminismo negro no Brasil, que atuou na retomada dos movimentos negro e feminista, ainda sob a ditadura militar. A produção de Lélia, que cobre as décadas de 1970 a 1990, dedicou-se à elaboração de um pensamento teórico próprio negro brasileiro. A autora desenvolveu reflexões bastante originais e singulares sobre a condição das mulheres negras no Brasil, retirando-as das margens para o centro da nação. Sua teoria ainda é bastante atual e relevante. O livro foi organizado postumamente, de forma independente e lançado pelo selo Filhos da África, da União dos Coletivos Pan Afrikanos, em 2018.

Sister, Outsider

Audre Lorde. Crossing Press, 1984

O livro é um obra clássica da escritora Audre Lorde (1934-1992), que se definia como negra, lésbica, feminista, poeta, ativista e mãe. A obra é composta por ensaios e discursos, elaborados entre os anos de 1976 a 1984. Há artigos fundamentais da autora em que ela analisa questões relacionadas à produção do conhecimento, o poder da linguagem, a sexualidade e a poesia. O livro tem previsão de ser lançado em português no primeiro semestre de 2019.

Seeking the Beloved Community: A Feminist Race Reader

Joy James. Suny Press, 2013.

O livro reúne artigos escritos durante duas década pela cientista política Joy James, que se diferencia pela forma como pensa a política, as estruturas de poder em conexão com a raça, gênero e classe. A autora é parte de uma tradição de intelectuais negros dissidentes, críticos internos ao sistema norte-americano. Joy James analisa o feminismo negro de um ponto de vista insurgente, abordando a contribuição de mulheres negras revolucionárias como Angela Davis e Assata Shakur. A autora aborda as tensões entre a academia e o ativismo. Apresenta um olhar distinto ao encarceramento, mostrando como se forjou uma tradição intelectual entre presos negros que teorizaram sobre suas experiências e elaboraram uma crítica ao sistema de punição estatal e sua relação com o racismo estrutural. O livro, infelizmente, não tem previsão de lançamento no Brasil.

Raquel Barreto é historiadora formada pela Universidade Federal Fluminense e pesquisadora. Desenvolveu estudo comparado sobre as trajetórias e produções intelectuais de Angela Davis e Lélia Gonzalez no mestrado na PUC-Rio. Desenvolve pesquisa a respeito do Partido dos Panteras Negras e as relações entre visualidade, política, raça e poder no doutorado em história na UFF.

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