Foto: Arquivo pessoal

A jornalista Isabela Reis indica cinco obras para entender melhor as religiões de matriz africana e mergulhar nessa parte pouco conhecida da história e da cultura do Brasil

O candomblé é uma religião brasileira. A afirmação pode soar estranha para quem está acostumado a ouvir que apenas a umbanda detém esse título. As tradições religiosas dos africanos que foram trazidos escravizados ao Brasil precisaram ser adaptadas. Ainda que sem sincretismo com o catolicismo, do lado de cá do Atlântico, tudo é diferente: ervas, alimentos, bebidas. Os rituais precisaram ser adaptados ao que havia disponível na mata atlântica, caatinga e cerrado, biomas muito distintos das savanas africanas.

Apesar da presença no imaginário popular — as roupas e flores brancas no ano novo, o banho de sal grosso, a rezadeira conhecida da família — as religiões de matriz africana ainda são terreno desconhecido aos brasileiros. A ignorância produz intolerância. Nos últimos anos, os ataques contra os seguidores dessas religiões aumentaram. Segundo dados do Disque 100, canal que concentra denúncias de discriminação e violação de direitos, foram feitas 152 notificações de intolerância religiosa a matrizes africanas de janeiro a dezembro de 2018.

Tendo fé ou não nos orixás, conhecer o candomblé é mergulhar na história do Brasil. A trajetória dessa religião em solo sul-americano anda de mãos dadas e dedos entrelaçados com a escravidão, o colonialismo, a catequização da Igreja Católica, a abolição e a resistência negra. Ser brasileiro, conhecer o cristianismo, o judaísmo, o budismo, mas ignorar o candomblé é desprezar a própria origem.

O candomblé bem explicado

Odé Kileuy e Vera de Oxaguiã, Pallas, 2009

Sempre minha indicação número um aos totalmente leigos. O formato do livro em perguntas e respostas resolve todos os questionamentos mais básicos sobre os candomblés bantos, fon e iorubá, as três principais nações cultuadas no Brasil. O que são as nações? Africanos escravizados vieram de várias regiões da África, portanto, falavam diferentes idiomas e as formas como praticavam suas religiões eram distintas, apesar de essencialmente similares. O candomblé brasileiro se divide nas nações Ketu, Jejê/Fon e Banto/Angola. Cada uma nomeia seus deuses de uma maneira, de acordo com seus idiomas: em Ketu, falante de iorubá, orixás; em Jejê, falante de fon, voduns; no Banto/Angola, falante do idioma banto, inquices. Tudo isso e muito mais é detalhadamente explicado nesta obra.

Meu tempo é agora

Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, 2010

Uma das maiores ialorixás do Brasil fala sobre o papel dos filhos de santo e seus cargos, explica os rituais e como os frequentadores de terreiros devem se comportar. Além disso, conta a trajetória do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de candomblé de Salvador, fundado em 1910, um dos principais do país. Mãe Stella deixou este plano aos 93 anos, no último dia 27 de dezembro. Seu legado de nove livros publicados é uma mina de ouro aos interessados na religião.

Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africano

Nei Lopes, Senac-SP, 2005

Em “Kitábu”, Nei Lopes escreve sobre as origens das religiões de matriz africana ainda na África. O livro não se restringe ao candomblé, fala também como se organizava o islamismo e outras práticas religiosas africanas. Na segunda parte, os cultos em diáspora. Além das diferentes nações do candomblé, Nei escreve sobre umbanda, quimbanda, candombe, omolocô e até mesmo sobre o catolicismo. As religiões de matriz africana praticadas no Caribe hispânico, francês e britânico e até nos Estados Unidos também têm espaço na enciclopédia de Nei Lopes.

Mitologia dos Orixás

Reginaldo Prandi, Companhia das Letras, 2000

Segundo a mitologia africana, nós estamos apenas reencenando tudo que já foi vivido pelos orixás. Por isso, os itans — como são chamados os mitos, em iorubá — falam de violência, assassinato, agressão, morte, aborto, incesto, estupro, rivalidade, amor, paixão, encantamento, família, lesbianidade, traição. O candomblé abraça todas as possibilidades de expressão porque compreende que tudo que sentimos já é parte do mundo antes de nós. A mitologia ajuda a compreender a personalidade, danças e comportamento dos orixás e ensinam lições aos que leem.

Orixás

Pierre Verger, 2018

Concordando ou não com a divulgação mundial das imagens que revelam segredos, Pierre Fatumbi Verger, babalaô de Ifá, outra religião de matriz africana, foi autorizado a participar e registrar os ritos. As imagens espalhadas pelas mais de 300 páginas do livro mostram a adoração aos orixás na África e no Brasil, os rituais de iniciação, festas e danças. Aos curiosos para ver o que acontece dentro de um terreiro: Verger.

Isabela Reis é ativista e jornalista formada na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Com passagens pela TV Globo e textos publicados na BBC Brasil e no jornal O Globo, escreve e fala sobre feminismo, questões raciais e candomblé em seu perfil do Instagram @belareis.

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