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Foto: Renato Parada

O editor e escritor Tiago Ferro é o convidado da seção ‘Favoritos’ desta semana. Ele dá cinco recomendações para quem quer entrar em contato com o universo dos romances buarqueanos

Em 2019, Chico Buarque completou 75 anos em plena atividade artística. Foi agraciado com um dos mais importantes prêmios literários da língua portuguesa, o Camões, que já premiara Raduan Nassar, José Saramago, entre outros. Também em 2019, a peça “Roda Viva” voltou a ser encenada, numa reinterpretacão realizada por Zé Celso do Teatro Oficina. Há dois anos, Chico lançou o celebrado álbum ”Caravanas”, com o qual saiu em turnê.

Com a premiação, muito se falou no Chico letrista, mas pouco no romancista. Autor de cinco livros que integram a melhor produção contemporânea brasileira, não é nada natural que um exímio letrista se estabeleça com tanta naturalidade no terreno do romance.

Sugiro a seguir cinco opções – entre livros e filmes, já que o cinema é central no imaginário do Chico romancista, e três de seus livros receberam importantes adaptações para as telas – para se entrar em contato com o universo do Chico Buarque romancista.  

Estorvo

Chico Buarque, Companhia das Letras, 1991

Em seu trabalho de estreia, Chico explora livremente as possibilidades oferecidas pela forma romance para tocar questões profundas de um país periférico que procurava (uma vez mais) entrar na nova ordem mundial. Entrada essa que o texto flagra como destinada ao fracasso, muito antes de qualquer importante análise social. Narrado em primeira pessoa, tem na paranoia e na consequente falta de limites claros entre sonho e realidade o andamento principal da trama. História circular que gira entre um quarto e sala, uma mansão e uma fazenda decadente ocupada por marginais, o personagem-narrador se desloca diversas vezes entre esses locais, sem muita certeza do por quê, mergulhando mais e mais numa realidade atravessada de cima a baixo pela delinquência. Feiura, grotesco e cordialidade estão presentes neste livro-chave para se entender o Chico pós-redemocratização e o país lido (e escrito) por ele.

Leite derramado

Chico Buarque, Companhia das Letras, 2009

Fortemente machadiano, Chico assume a visão da elite para escancarar os preconceitos e a desfaçatez da classe dirigente de um país historicamente marcado pela escravidão e seus efeitos: racismo, desigualdade e violência. Um homem com mais de 100 anos narra a própria vida em um leito de hospital decadente. Em meio a delírios de grandeza e franqueza constrangedora, conta as glórias e os desgostos de sua vida, a decadência da família rica que sempre esteve ligada a negócios ilegais com o Estado. A sem-cerimônia com que revela o que deveria ser motivo de vergonha, é também traço dessa mesma elite que se formou distante da assinatura do contrato social da modernidade. O nó do livro e da formação do Brasil está bem atado na figura da mulher do narrador, a bela de “pele acastanhada” Matilde, misteriosamente desaparecida.

O irmão alemão

Chico Buarque, Companhia das Letras, 2014

Quem procurar a vida do próprio Chico em seu livro mais autobiográfico vai encontrar muito mais que isso. Ao inserir explicitamente segredos familiares no tecido ficcional, ele cria um pacto de veracidade com o leitor para o quadro histórico armado: um rico, delicioso e melancólico romance de formação da intelectualidade paulistana durante as décadas de 1960 e 70. A Alemanha nazista toca a ditadura militar pós-golpe de 1964 na busca de Chico por seu desconhecido irmão alemão e por seu conhecido e desaparecido irmão brasileiro. Verdade e ficção, porões da ditadura e campos de concentração, cultura erudita e festivais de música popular na TV, literatura e cartas burocráticas, revolução comportamental e restrições das liberdades civis se misturam com sensibilidade e inteligência no romance mais realista do autor. 

Folha explica Chico Buarque

Fernando de Barros e Silva, Companhia das Letras, 2004

Livro-síntese que articula dados biográficos com análise de canções e dos romances, propondo um eixo organizador de toda a obra de Chico Buarque.

Adaptações para o cinema

“Estorvo”, “Benjamin” e “Budapeste” ganharam versões para a tela. Filmes de boa qualidade, valem a pena ser vistos antes ou depois da leitura dos livros correspondentes. Destaque para “Estorvo”, de 2000, dirigido por Ruy Guerra (parceiro de Chico na peça “Calabar”) que, segundo o crítico de cinema Luiz Zanin Oricchio, “aprofunda o tratamento já radical dado por Chico à distopia urbana brasileira”. Os outros dois foram dirigidos respectivamente por Monique Gardenberg (2004) e Walter Carvalho (2009).

Tiago Ferro nasceu em São Paulo em 1976. Editor e escritor, é um dos fundadores da editora de e-books e-galáxia e da revista de ensaios Peixe-elétrico. Colabora regularmente com textos sobre cultura para veículos como Piauí, Quatro Cinco Um, Cult e Suplemento Pernambuco. Mestre em história social pela USP (Universidade de São Paulo), atualmente pesquisa a obra do crítico literário Roberto Schwarz no programa de doutorado da mesma universidade. “O pai da menina morta” (Todavia, 2018) é seu romance de estreia.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto chamava de "O filho alemão" o romance que figura na terceira recomendação da lista. Na verdade, o livro se chama "O irmão alemão". A correção foi feita às 23h20 de 28 de julho de 2019.

 

 

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