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Foto: Divulgação

Crítico literário e fundador do portal Resenha de Bolso, Mateus Baldi indica cinco obras da ficção para pensar a realidade do Rio de Janeiro ao fim da década

Se textos clássicos como “Lapa, de Luis Martins, e “A alma encantadora das ruas, de João do Rio, ajudaram a formular um entendimento sobre o espírito da cidade maravilhosa, produções dos anos 2010 conseguiram recuperar algumas das principais características de um balneário que chega ao fim da década afundado em recordes de corrupção e violência. Os livros a seguir, sem a pretensão de serem definitivos, foram selecionados seguindo um único critério: ser um bom ponto de partida para compreender, pela ficção, o Rio de Janeiro às vésperas dos anos 2020 – e seus possíveis futuros.

A vista particular

Ricardo Lísias (Companhia das Letras, selo Alfaguara, 2016)

Talvez o livro que conseguiu da melhor forma diagnosticar o surto coletivo que se abateu sobre o Rio de Janeiro às custas do projeto Rio-2016, “A vista particular” narra o encontro de José de Arariboia, um artista plástico relativamente famoso, com o chefe do tráfico do morro Pavão-Pavãozinho, um youtuber, para criar uma intervenção artística na comunidade. Entre as obras, “Lugar onde a polícia pega a parte dela” e “Depósito de armas (algumas de uso exclusivo do Exército)”. Delirante, o livro do escritor paulista vai da truculência policial à falência de um projeto de Estado, enquanto faz gargalhar pela certeza de que entramos num beco sem saída.

Ferrugem

Marcelo Moutinho (Editora Record, 2017)

Vencedor do prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, esse livro traz uma gama de personagens inesquecíveis – da trocadora de ônibus ao cover de Roberto Carlos, todos parecem exigir um olhar mais afetuoso para a construção daquilo que o acadêmico Antônio Torres chamou de “suíte para o homem comum”. Lidando com temas como perda da inocência e HIV, Marcelo Moutinho criou uma obra que trata com gentileza – nunca piedade – aquilo que o Rio de Janeiro tem de melhor: sua gente.

O amor dos homens avulsos

Victor Heringer (Companhia das Letras, 2016)

No fictício bairro do Queím, Camilo recorda sua juventude e como a perda de um amor deu fim à inocência. Adolescente, viu outro menino, Cosme, ser levado para casa, apadrinhado por seu pai. Dessa faísca, brota uma relação impregnada de ternura em meio à brutalidade da ditadura militar. Último romance de Heringer, “O amor dos homens avulsos” retrata em tons machadianos não só o Rio de Janeiro físico, com suas mudanças estruturais ao longo das décadas, mas também um certo Rio de Janeiro espiritual. Cheias de neologismos e hábil manejo da língua, suas páginas afogam os personagens na própria cólera enquanto buscam respostas para a barbárie.

Rio em shamas

Anderson França (Companhia das Letras, selo Objetiva, 2016)

Tão polêmico quanto engraçado, Anderson França alcançou milhões de leitores nas redes sociais. Com suas crônicas espirituosas sobre o cotidiano do subúrbio, “Rio em shamas” é um compilado da melhor produção do autor, hoje exilado em Portugal após ser ameaçado de morte. Um dos grandes leitores do Rio de Janeiro, França atira para todos os lados – igrejas neopentecostais, avenida Brasil e Leblon, por exemplo – neste que é um dos livros mais incômodos e divertidos da década.

Manual da demissão

Julia Wähmann (Editora Record, 2018)

Não bastasse a violência, o Rio do fim da década é assolado pela crise econômica. Surgindo como praga, as demissões acometem a população e provocam um exílio massivo a Portugal. J., a protagonista, é demitida dois dias depois de ser dispensada pelo ex-namorado. A esse desastre do destino, seus amigos A. e B. também se veem na mesma situação. Assombrados por uma atmosfera kafkiana, lhes resta viver o que sobrou da cidade. Algo despretensioso, sempre retornando ao mote “é a crise, você sabe”, “Manual da demissão” flui rápido e traz um olhar bem-humorado para o processo de contágio do horror num lugar que se esqueceu da salvação.

Mateus Baldi é escritor e crítico literário. Em 2016, criou a Resenha de Bolso, plataforma de críticas de literatura contemporânea. Colabora com veículos como Estado de S. Paulo e Época, entre outros.

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