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Foto: Arquivo pessoal

O convidado da seção ‘Favoritos’ é Reinaldo José Lopes, jornalista e pesquisador da obra de J. R. R. Tolkien. Ele recomenda cinco obras para quem quer se iniciar em livros de fantasia

J.R.R. Tolkien (1892-1973), o autor de “O Senhor dos Anéis”, definia a fantasia como a arte da “subcriação” de um Mundo Secundário — um mundo ficcional cheio de encantamento pelo qual as mentes do público podem viajar e que, com sorte e engenho, chega a soar quase tão crível quanto o mundo real. Raros são os autores de fantasia que chegam perto da complexidade do Mundo Secundário tolkieniano, mas muitos de seus seguidores (e adversários) conseguem usar artifícios literários similares aos dele para deleitar seus leitores e lançar luzes insuspeitas sobre a condição humana (mesmo quando estão falando de elfos) e a natureza da realidade por meio desses outros universos possíveis. Abaixo, alguns dos livros mais instigantes do gênero segundo este escriba, vários dos quais ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros.

Trilogia Terramar

Ursula K. Le Guin

No mundo-arquipélago da história (daí o nome Terramar), predominam os seres humanos de tez acobreada ou negra (os brancos são bárbaros), e a filosofia dos magos da saga é influenciada pelo taoísmo. Le Guin recria tradições orais com habilidade no pano de fundo das histórias. Da trilogia original, temos edições brasileiras recentes dos livros um e dois, “O Feiticeiro de Terramar” e “As Tumbas de Atuan” — ainda falta sair “The Farthest Shore” (A Costa Mais Distante).

The once and future king

T.H.White

A história começa de modo a lembrar uma releitura infanto-juvenil da lenda do rei Arthur, mas se transforma aos poucos numa meditação comovente sobre a natureza da violência e do poder e o lugar do ser humano na natureza, com diálogos entre o jovem Arthur e diferentes espécies de animais. Talvez seja a única versão das histórias arturianas nas quais o cavaleiro Lancelot, mais famoso dos guerreiros da Távola Redonda, é feioso e luta contra suas próprias tendências à psicopatia. Atenção: a obra completa contém cinco livros, às vezes lançados em volumes separados.

Estação Perdido

China Miéville

Sexo entre humanos e mulheres-besouros, intrigas trabalhistas e um clima de pesadelo pseudovitoriano fazem deste romance britânico uma experiência visceral e assustadora. A menção a “trabalhismo” se explica, em parte, pelos pendores políticos de Miéville, um dos poucos escritores de fantasia a se engajar diretamente na política pelo lado da esquerda — ele chegou a fundar um partido no Reino Unido e escreveu ainda um livro de não ficção sobre a Revolução Russa.

Summerland

Michael Chabon

Um menino que odeia beisebol e seus amigos precisam aprender a dominar uma versão mágica do jogo para salvar o pai dele e todo o Cosmos do Apocalipse. Lírico e bem-humorado, o livro cativa até quem, como eu, não faz ideia das regras do beisebol. Chabon também escreve ficção realista, mas mesmo suas obras não fantásticas sempre trazem referências, ainda que oblíquas, oriundas do mundo dos quadrinhos de super-heróis e da cultura pop.

Ferreiro de Bosque Grande

J.R.R.Tolkien

Pouco maior que um conto, a história se passa na Inglaterra medieval, e não na Terra-Média. Seu protagonista descobre a glória e a tristeza de vislumbrar a magia que está além dos olhos mortais ao ganhar, ainda criança, uma estrela de prata que lhe serve de passaporte para Feéria, o Reino das Fadas. É o último livro publicado por Tolkien ainda em vida, em 1967, que ele descrevia como “a obra de um homem idoso, cheia de presságios de luto”.

Reinaldo José Lopes é jornalista de ciência do jornal Folha de S.Paulo, autor de oito livros e tradutor de três obras de J.R.R.Tolkien: “A queda de Gondolin”, “O Silmarillion” e “O Hobbit”. Tem títulos de mestre e doutor pela Universidade de São Paulo por estudos sobre a obra de Tolkien.

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