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A cientista política Marta Arretche estreia em agosto como colunista do ‘Nexo’, mensalmente às sextas-feiras. Ela indica cinco obras que abordam a discussão contemporânea sobre concentração de renda e desenvolvimento, no Brasil e no mundo

Selecionei alguns livros que são leitura obrigatória para alguém interessado em entender o debate brasileiro e internacional sobre a desigualdade. Essa é uma discussão em aberto, para a qual ainda temos muito mais perguntas do que respostas. Mas parte importante do debate contemporâneo passa por desafios teóricos, normativos e empíricos levantados e parcialmente respondidos nestes livros. 

Desenvolvimento como liberdade

Amartya Sen, Companhia das Letras, 2000

Uma sociedade justa deveria permitir que os indivíduos exerçam suas capacidades fazendo ou sendo o que valorizam. A privação do exercício dessa liberdade é uma forma superior de observar a desigualdade do que a privação de renda, pois indivíduos com a mesma renda podem ter necessidades muito distintas. Por estarem submetidos a contextos muito diferentes de privação, os indivíduos têm métricas de satisfação muito distintas, razão pela qual a satisfação pessoal não pode ser a métrica de uma sociedade justa. A liberdade para vocalizar necessidades e fazer escolhas, mais do que o funcionamento formal da democracia, é condição necessária para o desenvolvimento. Não é necessário ter formação forte em matemática ou em filosofia para compreender os argumentos desse grande economista que é Amartya Sen.

Uma história de desigualdade. A concentração de renda entre os ricos no Brasil

Pedro Herculano Ferreira de Souza, Hucitec, 2018

Um estudo impressionante, por sua qualidade técnica e abrangência temporal, este livro revela a trajetória da concentração da renda no Brasil. O leitor interessado em conhecer as metodologias que devemos adotar para estudar a desigualdade de renda  encontrará aqui explicações muito precisas e didaticamente apresentadas. Mas também e principalmente encontrará a história de nove décadas de elevada apropriação da riqueza nacional pelos ricos, bem como suas associações com a trajetória política do país.

O capital no século XXI

Thomas Piketty, Intrínseca, 2014

Fenômeno de venda, este livro ainda é o estudo mais abrangente sobre a trajetória da desigualdade e da concentração de renda ao longo do século 20. Mobiliza uma massa de evidências para demonstrar que, ainda que a trajetória da desigualdade seja semelhante nas democracias ocidentais, pois caiu no entreguerras e cresceu a partir dos anos 1970, os níveis de desigualdade variam muito entre a Europa e os Estados Unidos. Por ter dado origem a uma nova agenda de estudos sobre as relações entre democracia e desigualdade de renda, este livro ainda é uma leitura obrigatória para os interessados no tema.

Unequal Democracy

Larry Bartels, Princeton University, 2016

O que pensam os eleitores americanos sobre a desigualdade? Por que o Partido Republicano ganha as eleições apesar de defender programas de corte nos impostos e redução dos gastos sociais, cujo resultado é o aumento da pobreza e da desigualdade? Este livro examina e contesta, com abundância de evidências empíricas, vários mitos sobre as preferências dos eleitores americanos. Argumenta que os republicanos ganham eleições porque são mais bem-sucedidos que os americanos em manipular os ciclos da economia e a miopia dos eleitores. Cada capítulo apresenta uma questão importante sobre o que pensam os eleitores americanos. Meu favorito é aquele em que Bartels demonstra que os radicais, sejam republicanos ou democratas, não buscam informação para formar sua opinião com base em evidências. Diferentemente, não aceitam fatos que não confirmem suas convicções prévias.

Democracy and the Left: Social Policy and Inequality in Latin America

Evelyne Huber e John Stephens, Chicago University, 2012

Por que a América Latina apresenta sistematicamente tão elevada desigualdade? Evelyne Huber e John Stephens atribuem esse fato à fraqueza dos partidos de esquerda na região, contrariamente à trajetória desses partidos na Europa. O limitado tamanho da classe operária, o limitado escopo da participação eleitoral e os sucessivos golpes de Estado são atributos particulares da América Latina que tornaram muito mais difícil que a agenda redistributiva dos partidos de esquerda deitasse raízes na região. Dessa combinação, emergiram sistemas de políticas sociais que mais produzem camadas superpostas de privilégios para as categorias mais organizadas do que políticas capazes de afetar de fato as desigualdades sociais.

Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Política da USP e diretora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da “Brazilian Political Science Review” (2012-2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016-7). É graduada em ciências sociais pela UFRGS, fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp, e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do Massachussets Institute of Technology, nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença.

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