Foto: Fabiano Accorsi

André Viana é jornalista e idealizador da Livros de Família, editora especializada em biografias familiares. A seguir, ele recomenda 5 obras sobre o tema

Felizes ou não, trágicas, divertidas, politicamente incorretas ou apenas entediantes, as famílias são cada uma à sua maneira. Mas todas têm seu valor na construção de quem nos tornamos. Listei abaixo cinco histórias de famílias pra tia Carmela nenhuma botar defeito.

Léxico familiar

Natalia Ginzburg (Companhia das Letras, tradução de Homero Freitas de Andrade)

A advertência, no texto de apresentação, é bem clara: "Neste livro, lugares, fatos e pessoas são reais. Não inventei nada". Publicado em 1963, quando Natalia Ginzburg tinha 47 anos, "Léxico familiar" reconstrói, a partir das lembranças de uma das principais autoras italianas do século 20, o cotidiano dos Levi, uma família burguesa de poucos recursos que tinha duas questões incontornáveis aos olhos do regime de Mussolini: era judia e socialista. Com maestria, Ginzburg nos faz olhar pelo buraco da fechadura de sua intimidade doméstica pra revelar a tragédia de uma sociedade violentada pelo fascismo. Um livro sobre afeto e política, em tudo o que essas duas palavras têm de similar e de contraditório.

A cena interior

Marcel Cohen (Editora 34, tradução de Samuel Titan Jr.)

Na manhã de 14 de agosto de 1943, o pequeno Marcel saiu com sua babá Annette para um passeio perto de casa, em Paris. Na volta, a zeladora do prédio os impediu de subir: os nazistas estavam naquele exato momento prendendo seus pais. Marcel Cohen tinha 5 anos e meio e viu, da calçada oposta da rua, toda a família subir no caminhão para ser deportada. Neste livro tão pungente quanto breve, o escritor judeu de origem turca reuniu tudo o que lembrava e tudo o que conseguiu pesquisar sobre os oito membros de sua família  — pais, irmã, avós paternos, tios e uma tia-avó — mortos em Auschwitz. Fatos, gestos, objetos vão saltando das linhas como se Cohen passasse uma lupa sobre fotos antigas, nos revelando detalhes cheios de significados de uma família que poderia ter sido e não foi.

O tempo e o vento

Erico Verissimo

Daqueles livros monumentais que definem a vida em antes e depois. Difícil não atravessar as mais de 4.000 páginas dessa saga familiar gaúcha sem criar algum tipo de parentesco afetivo com personagens como Ana Terra e Pedro Missioneiro, Bibiana e um certo capitão Rodrigo, Luzia e Bolívar, Alice e Licurgo, Rodrigo e Flora. Erico Verissimo levou 13 anos para escrever as três partes — "O Continente" (1949), "O Retrato" (1951) e "O Arquipélago" (1962) — dessa obra-prima que conta a história de sete gerações dos Terra Cambará, tendo como pano de fundo os conflitos que levaram à formação política e social do Rio Grande do Sul. Uma providencial árvore genealógica nos conduz mão na mão por essa aventura literária inesquecível.

Laços

Domenico Starnone (Todavia, tradução de Maurício Santana Dias)

O amor é só "um recipiente no qual enfiamos tudo", diz a certa altura Vanda, personagem desse pequeno e contundente romance. Publicado originalmente em 2014, "Laços" é o primeiro livro do escritor italiano lançado no Brasil. A tradução literal do título — "Lacci" — é cadarços, que surgem na trama como um elemento a amarrar a pequena família composta por Aldo, Vanda e seus dois filhos, Sandro e Anna. Construído a partir de três pontos de vista, a maior parte do livro é narrada por Aldo, que relembra a época em que abandonou mulher e filhos para viver com Lidia, bem mais jovem que Vanda. Em suas breves páginas, Starnone nos presenteia com uma bela reflexão sobre casamento, pais e filhos, mágoas e amor, não necessariamente nesta ordem.

Lavoura arcaica

Raduan Nassar

"Só através da família é que cada um em casa há de aumentar sua existência, é se entregando a ela que cada um em casa há de sossegar os próprios problemas, é preservando sua união que cada um em casa há de fruir as mais sublimes recompensas." Difícil pensar em literatura de família e não lembrar dos sermões proferidos à mesa pelo pai desse pequeno livro sublime lançado em 1975 e imediatamente alçado à categoria de clássico. No centro da trama está André, que abandona sua casa para fugir de um amor incestuoso pela irmã, Ana. Nesse livro lírico, vertiginoso e cheio de simbolismos, descobrimos que a paixão, segundo Raduan Nassar, também é feita de tabus e totens familiares.

André Viana é jornalista e idealizador da Livros de Família, editora especializada em biografias familiares.

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