Foto: Arquivo pessoal

O economista Filipe Campante estreia em agosto como colunista do ‘Nexo’, mensalmente às quintas-feiras. Ele indica cinco obras das ciências sociais que ajudam a compreender o Brasil hoje

Selecionei alguns clássicos das ciências sociais que são extremamente relevantes para compreendermos o cenário político e institucional do Brasil contemporâneo. Eles nos ajudam a ver que muito do que observamos aqui e agora não são peculiaridades nossas, mas manifestações de fenômenos históricos e sociais mais abrangentes.

A lógica da ação coletiva: Benefícios públicos e uma teoria dos grupos sociais

Mancur Olson, Edusp, 2015

Difícil entender a política brasileira sem entender o papel dos variados grupos de interesse articulados – indústria, ruralistas, setor financeiro, sindicatos, etc. Este clássico mostra como compreender as ações desses grupos, partindo da premissa de que, a despeito de interesses em comum, são formados por indivíduos racionais, e ajuda a entender por que alguns grupos são mais efetivos ao influenciarem as políticas públicas.

Saída, voz e lealdade

Albert O. Hirschman, Perspectiva, 1973

Outro clássico que analisa como cidadãos (ou membros de qualquer organização) podem reagir à insatisfação com o funcionamento do sistema político de duas maneiras: tentando manifestar seu descontentamento dentro do sistema (“voz”) ou desengajando-se (“saída”). Esse insight é fundamental para entender como, dependendo do contexto, crises de confiança nas instituições, tal como a que vivemos, podem desencadear reações muito distintas.

Comunidades imaginadas

Benedict Anderson, Companhia das Letras, 2008

Em tempos de apelos nacionalistas, este livro mostra as raízes culturais da poderosa (e moderna) ideia da nação enquanto comunidade imaginada – “comunidade” por pressupor uma identidade comum, a despeito das diferenças e desigualdades, e “imaginada” por ir muito além do círculo de relações pessoais concretas. Mais ainda, mostra como, longe de ser mera importação europeia, ela tem sua origem também na América do Sul.

The Moral Basis of a Backward Society

Edward C. Banfield, Simon & Schuster, 1967

Infelizmente sem tradução ao português, o livro enfoca um vilarejo italiano para estabelecer um conceito universal: o “familismo amoral”, em que cada um busca maximizar as vantagens materiais da sua família ou clã, assumindo que todos fazem o mesmo. (Dito de outra maneira: “tem que ser filho de alguém, por que não meu?”) Banfield mostra como a prevalência dessa cultura dificulta o desenvolvimento institucional e econômico.

Economic Origins of Dictatorship and Democracy

Daron Acemoglu e James A. Robinson, Cambridge UK, 2005

Também sem tradução, e bastante mais técnico do que os anteriores, mas fazendo um ponto fundamental: como democracias distribuem o poder político de forma distinta de regimes não-democráticos, o mesmo vale para a distribuição dos recursos econômicos. Por conta dessa ligação, a economia também condiciona o sucesso da democracia. Uma sociedade desigual, em particular, a fragiliza: as elites têm mais a perder com a redistribuição do poder político e econômico.

Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Começa esta semana a escrever mensalmente no Nexo, às quintas-feiras.

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