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Foto: Carlos Fausto

A antropóloga brasileira Aparecida Vilaça indica cinco autobiografias que influenciaram a escrita de seu próprio livro de memórias. Ela participa da edição de 2019 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que ocorre entre 10 e 14 de julho

Embora meu livro “Paletó e eu. Memórias de meu pai indígena” (Todavia) gire em torno da vida de um homem indígena da etnia Wari’ (Rondônia), não se trata somente de um livro “sobre índios”, mas da história da construção de uma relação entre pessoas de culturas muito diferentes. O livro narra, algumas vezes em paralelo e outras em intenso cruzamento, duas vidas, a minha e de Paletó, que não se cruzariam se não fosse por contingências históricas muito específicas. Eu, jovem antropóloga, encontro-me, em Rondônia, no ano de 1986, com Paletó, homem que até cerca de 20 anos antes jamais tinha tido contato direto com um branco, não usava roupas e não comia nada além do que se retirava da floresta. Nos nossos 30 anos de convívio, tornei-me mestre e doutora, casei-me mais de uma vez e tive dois filhos, que levei até eles. No mesmo período, Paletó conheceu a cidade grande, o metrô, o Corcovado, o Pão de Açúcar e o mar. Teve vários netos e bisnetos, conheceu a fotografia, o cinema e o Skype. O livro, duplamente biográfico, é o relato desse período que passamos a nos olhar um ao outro.

Os livros que me serviram de inspiração são todos autobiográficos, alguns sobre a temática indígena e outros não.

Tristes Trópicos

Claude Lévi-Strauss, Companhia das Letras, 1996

Trata-se de um dos mais belos livros de memória já escritos. Nele, o antropólogo Claude Lévi-Strauss narra as suas viagens pelo interior do Brasil, especialmente as suas estadias entre os índios Bororo, Nambikwara, Kadiwéu e Tupi-Kawahib. Destacam-se as descrições detalhadas, quase fotográficas, de cenas do Brasil dos anos 1930 e da vida indígena de então, permeadas por observações agudas e pessoais do antropólogo.

“Quando cheguei ao Brasil para participar dessa fundação [da USP], julguei – lembro-me ainda – a condição humilhante de meus colegas locais com uma compaixão um pouco arrogante. Ao ver aqueles professores miseravelmente pagos, obrigados, para comer, a fazer obscuros trabalhos, senti o orgulho de pertencer a um país de velha cultura onde o exercício de uma profissão liberal era cercado de garantias e de prestígio.” (São Paulo, “Tristes Trópicos”)

“Quando quer que lhes catem piolhos, a criança – ou o marido – repousa a cabeça sobre os joelhos da mulher, apresentando sucessivamente os dois lados da cabeça. A operadora procede dividindo a cabeleira em repartidos ou olhando as mechas contra a claridade. O piolho catado é comido no mesmo instante...” (Nambiquara, “Tristes Trópicos”)

A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami

Davi Kopenawa e Bruce Albert, Companhia das Letras, 2019

O livro é o resultado de uma parceria de décadas entre um antropólogo francês, Bruce Albert, e um xamã yanomami, Davi Kopenawa. Entretanto, no livro essas experiências só estão entrelaçadas em seu início e fim (além das extensas notas), pois ele é focado exclusivamente na fala de Davi Kopenawa, que tematiza a sua infância, a iniciação no xamanismo, as relações com os espíritos e as experiências com os brancos. Trata-se de uma fala clara e poderosa, dirigida sobretudo a nós, não-indígenas, traduzida diretamente do yanomami por Bruce Albert.

“Foi nessa época que vi os espíritos pela primeira vez. Era noite, e o calor do fogo me adormecia aos poucos na rede de minha mãe. Passado algum tempo, as imagens dos xapiri começaram a descer em minha direção. Faziam com que eu me tornasse fantasma e me enviavam o sonho. Um caminho de luz se estendia então diante dos meus olhos, e seres desconhecidos vinham ao meu encontro. Pareciam surgir de muito longe, mas eu conseguia enxergá-los. Pareciam humanos minúsculos, com os cabelos cobertos de penugem branca e uma faixa de rabo de macaco cuxiú-negro amarrada ao redor da testa”.

“Os brancos se dizem inteligentes. Não o somos menos. Nossos pensamentos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e muitas. Elas vêm de nossos antepassados. Porém, não precisamos, como os brancos, de peles de imagens para impedi-las de fugir da nossa mente. Não temos de desenhá-as, como eles fazem com as suas” (“A queda do céu”)

Só Garotos

Patti Smith, Companhia das Letras, 2010

Neste livro a poetisa, cantora, fotógrafa e artista plástica norte-americana, Patti Smith, detalha a construção de sua relação de muitos anos com o fotógrafo e artista Robert Mapplethorpe, na Nova York dos anos 1960. As descobertas dos dois jovens sobre amor e sexo, em meio à luta pela sobrevivência na grande cidade, entrelaçam-se com cenas da contracultura nova-iorquina e do rock’n’roll americano, com personagens como Jane Joplins, Jimi Hendrix e Andy Warhol.  Relato biográfico fascinante sobre uma relação e seu contexto, o livro surge com a promessa feita por ela a Robert, já doente, de que contaria a história deles dois. A epígrafe de “Paletó e eu” é retirada de um comentário de Patti Smith sobre o significado deste livro para ela.

“Embora estivesse preparada para dormir em bancos, metrôs e cemitérios, até arranjar um emprego, não estava preparada para a fome constante que me consumia. Eu era uma coisinha magricela com um metabolismo acelerado e um grande apetite. O romantismo não conseguia saciar minha necessidade de comida. Até mesmo Baudelaire precisou comer. Suas cartas traziam muitos gritos desesperados de desejo de carne e cerveja”. (“Só Garotos”)

Linha M

Patti Smith, Companhia das Letras, 2016

Embora não tenha sido concebido como uma continuação de “Só Garotos”, “Linha M” segue o estilo despojado, confessional e poético da autora. Este livro autobiográfico trata de sua vida após a morte de seu companheiro de longa data, Robert Mapplethorpe, associando-a a duas outras grandes perdas: a de seu marido, o músico Fred “Sonic” Smith, e a de seu irmão, Todd, as duas últimas ocorridas quase ao mesmo tempo. No livro, Patti fala de sua dor de um modo nada dramático, focada no seu amor pelas miudezas do dia a dia, especialmente sua paixão pelo café, que serve de motor para levá-la de volta à vida, às relações e ao processo criativo.

“O Café ‘Ino está vazio, a não ser pelo cozinheiro mexicano e por um garoto chamado Zak, que atende meu pedido habitual de torrada de pão integral, um pratinho de azeite e café preto. Me instalo no meu canto, ainda de casaco e gorro. São nove da manhã. Sou a primeira a chegar. Bedford Street enquanto a cidade acorda. Minha mesa, ladeada pela máquina de café e pela vitrine, me proporciona uma sensação de privacidade, onde me recolho na minha atmosfera particular.” (“Linha M”)

Uma autobiografia

Rita Lee, Globo Livros, 2016

Rita Lee tem tido uma vida extraordinária e, por sorte dos leitores que não a conhecem pessoalmente, resolveu contá-la neste livro. Sua narrativa clara, com construções próximas à linguagem falada e um tom íntimo carregado de ironia e humor, nos traz para perto dela, como se fôssemos amigos de longa data. Com ela, passeamos pela cena do rock brasileiro dos anos 1960, 70 e 80, acompanhando, dentre outras coisas, a formação dos Mutantes e suas brigas, os bastidores dos festivais de música e a sua relação de amor e parceria com o músico Roberto de Carvalho.

“O corte ‘cuia diacuí’ me rendeu de Virgína o cruel apelido de “menino baiano”. Daí que virei tomboy de verdade e fui buscar minha turma com os moleques da rua. Dia seguinte, Rito, o menino baiano, entrou na igreja de branco por fora e de exú-tranca-rua por dentro. Entrei na fila, recebi e guardei o ‘corpo’ de Cristo na língua como aprendera com dona Lila, me ajoelhei e mordi a hóstia esperando o sangue de Jesus escorrer pela boca, me transformando na frente de todos na vingança da filha de Belzebu. Nada aconteceu, fui duplamente traída por Deus e por Belzebu. Ao menos o gosto de waffle da hóstia era delicioso, com patê ou doce de leite daria um quitute de primeira. Guardei a ideia.” (“Uma autobiografia”)

Aparecida Vilaça é carioca, doutora em antropologia social e professora do Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Escreveu diversos livros acadêmicos sobre os Wari’ e “Paletó e eu” (Todavia) é o primeiro relato pessoal sobre sua experiência.

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