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Foto: Renato Parada

O escritor Sérgio Rodrigues recomenda cinco livros que revelam a centralidade do futebol na cultura brasileira

Apesar dos avanços inegáveis e de uns poucos momentos de calorosa epifania, chama atenção o modo como a cultura brasileira letrada sempre dá um jeito de permanecer, no íntimo, impermeável às correntes populares profundas de produção de sentido que fazem o Brasil ser o que é. Isso vale para muitas dimensões de nossa cultura popular, mas talvez não se revele em nenhuma delas com mais nitidez do que no futebol.

Dois fatos recentes e quase simultâneos voltaram a chamar minha atenção para o problema. No sábado (12), em sua entrevista coletiva após o jogo contra o Fluminense, o treinador do Bahia, Roger Machado, deu uma magnífica aula sobre o racismo estrutural brasileiro.

Tão breve quanto lúcida, é possível que aquela fala tenha sido uma das manifestações de maior alcance e peso de nossa história sobre a hipocrisia de um país que insiste, contra todas as evidências, em não se enxergar como racista. Mesmo assim, a resistência a tratar Roger como intelectual e seu pensamento como crítico é algo naturalizado entre nós.

No mesmo dia, no teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro, Fernanda Montenegro comemorou seus 90 anos com uma comovente leitura para convidados do monólogo “Nelson Rodrigues por ele mesmo”. A certa altura do espetáculo, falando pela voz da maior atriz brasileira, o grande dramaturgo e cronista que morreu em 1980 recorda o escândalo que envolveu a primeira encenação de sua peça "A falecida" no Rio de Janeiro, em 1953. Motivo: o protagonista da história falava o tempo todo sobre futebol, o que se acreditava conspurcar o nobre palco do Municipal do Rio.

Tanto tempo depois, a situação não mudou muito. Esses cinco livros são leitura recomendável a quem quiser entender por que, sem levar em conta a dimensão da paixão futebolística, toda reflexão sobre o que quer e o que pode este país grandalhão será sempre manca de uma perna.

 

O negro no futebol brasileiro

Mario Filho (Mauad, 5ª. edição, 2010)

É o maior de todos no gênero, um livro para ter na estante ao lado de clássicos da formação da nacionalidade como "Raízes do Brasil" e "Casa grande & senzala". O irmão de Nelson Rodrigues conta, em forma de causos saborosos, a epopeia da revolução promovida num esporte importado por aqueles que que a elite branca tentou deixar do lado de fora dos clubes.

O berro impresso das manchetes

Nelson Rodrigues (Agir, 2007)

Se for difícil encontrar essa edição, serve qualquer coletânea das crônicas esportivas do único gênio indiscutível que esse rico gênero literário-jornalístico brasileiro produziu. Nelson se permitia ignorar em grande parte o que ocorria nos gramados, pois estava empenhado em missão mais importante: lançar as bases e o vocabulário de toda uma mitologia. Conseguiu.

Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha

Ruy Castro (Companhia das Letras, 1995)

É a melhor biografia de um personagem do futebol brasileiro já escrita. A prosa de Ruy confere leveza, sem diminuir sua densidade, à história inverossímil – e no fim das contas trágica – do sujeito de pernas dramaticamente tortas que se tornou um dos gênios mais originais da história do esporte. 

Veneno remédio

José Miguel Wisnik (Companhia das Letras, 2008)

Esse longo ensaio mergulha em referências eruditas, pesquisa histórica séria e prosa poeticamente rebuscada, sem perder de vista o coração pop do tema, para dar corpo a uma reflexão que ilumina o passado e o presente – e o futuro, se futuro houver – do futebol como um dos nervos centrais da brasilidade. Não é leitura fácil, mas quem investe nela sai mais rico.

Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea

Luiz Antônio Simas (Mórula, 2017)

As divertidas crônicas de Simas, historiador por excelência daquilo que a cultura oficial brasileira se especializa em ignorar, trazem para a conversa personagens e causos que o futebol, já em si marginal diante da cultura letrada, também marginaliza. Acaba por nos lembrar, como Mario Filho já fizera, que é na várzea que começou essa história de amor de um povo por um jogo de bola.

Sérgio Rodrigues é um escritor e jornalista mineiro que vive no Rio. É autor, entre outros títulos, do romance “O drible” (Companhia das Letras), prêmio Portugal Telecom 2014 de livro do ano, que tem como pano de fundo uma história do futebol brasileiro. Lançou em 2019, também pela Companhia, “A visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (contos). Tem livros publicados na França, na Espanha, em Portugal e nos EUA. É colunista da Folha de S.Paulo e roteirista do programa Conversa com Bial.

 

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