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Foto: Gabriela Biló

A jornalista Patrícia Ferraz trabalha há 20 anos com gastronomia. Autora de um livro de crônicas e receitas, ela recomenda 5 obras para quem gosta de comer — e de ler

Escolhi pelo sabor da leitura, com o perdão do trocadilho. Nem gastronomia para pensar e nem livro de receita: pensei nos livros que me ensinaram sobre comida e bebida de uma maneira agradável. Minha seleção começa com a única indicação que está mais para papo-cabeça gastronômico do que para diversão, mas que considero uma obra fundamental nesses tempos em que a gente precisa descomplicar a maneira de comer e de cozinhar.

Regras da comida

Michael Pollan 

Michael Pollan é um jornalista americano que resolveu investigar a fundo o universo da comida e acabou virando um ativista na luta para mudar a maneira como o mundo come e produz alimentos. “Regras da Comida” é um manual de sabedoria alimentar, como diz o próprio subtítulo. Pollan estabeleceu 64 regras para responder a uma única pergunta: o que devemos comer? São conselhos simples, fundamentais, escritos de modo leve e bem-humorado. Talvez o espírito do livro possa ser resumido na regra número 2: não coma nada que sua avó não reconheceria como comida. Professor de jornalismo na Universidade de Berkeley, na Califórnia, ele é autor de outros best-sellers, como  “Em defesa da comida”, “O dilema do onívoro” e “Cozinhar: Uma História Natural da Transformação”, que deu origem à série Cooked, na Netflix.

Lições de francês - Aventuras de garfo, faca e saca-rolhas

Peter Mayle

Este é para degustar devagar, garfada a garfada, torcendo para que demore a acabar. Imagine o que acontece quando um escritor de texto leve e envolvente que cita “almoçar” entre seus hobbies resolve viajar pela França em busca de boas histórias de comida. Pois o escritor inglês Peter Mayle, que vive na Provença, se embrenhou pelo interior do país. Foi à missa — de sagração das trufas negras, em Richerenches; acompanhou a eleição da dona das melhores coxas, a  Miss Grenouille — eleita entre centenas de rãs pelos integrantes de uma confraria; entendeu as razões da nobreza do aristocrata de pé azul — o frango de Bresse, entre dezenas de outras aventuras pela gastronomia francesa. Tudo contado com graça, humor, estilo.

Chocolate - Uma saga agridoce preta e branca

Mort Rosenblum

O endereço do jornalista americano Mort Rosenblum dá boa pista sobre seu estilo: ele vive num barco de madeira no Rio Sena. Mort foi correspondente de guerra, editor, trabalhou por anos na agência de notícias Associated Press, mas o que gosta mesmo é de plantar azeitonas, na Provença, onde mantém sua segunda casa, e escrever sobre comida. Chocolate, lançado em 2005, é uma obra fundamental para entender o universo do chocolate, muito além de história e das lendas com que já nos acostumamos. Ele desvenda transformações e técnicas que mudaram o chocolate, os conflitos que envolvem a produção de cacau e seu comércio na África, visita os grandes produtores mundiais, os melhores chocolatiers… Com talento e bela narrativa, Mort Rosenblum faz uma grande investigação jornalística do chocolate “from bean to bar” (para usar o termo da moda no mundo do chocolate).

O homem que comeu de tudo 


Jeffrey Steingarten

Quem gosta de comer tem de ler Jeffrey Steingarten, o crítico da Vogue, invejado por jornalistas de gastronomia do mundo todo pelo talento na escrita, pela obsessão pela informação, pelas verbas disponíveis para fazer suas experiências e viagens, pela capacidade de escrever 15 páginas (interessantíssimas) sobre batatas fritas. Advogado formado em Harvard, cursou MIT antes de escrever sobre comida.

Para fazer o capítulo “Tortas do Paraíso,” ele preparou e experimentou 100 tortas de maçã, depois de passar semanas às voltas com a literatura científica sobre a massa e de ler e avaliar mais de 100 receitas. A preparação para escrever “Truques de Garçom” seguiu o caminho mais trabalhoso: tirar o diploma de maître na escola profissionalizante de Nova York.

Steingarten vai às últimas consequências para entender métodos, produtos, pratos. Não sei se gosto mais de “O Homem que Comeu de Tudo” ou de “Deve ter sido alguma coisa que eu comi”.  Acho as histórias do segundo mais divertidas, mas sugiro a leitura dos dois, começando pelo primeiro.

Alho e safiras - A vida secreta de uma crítica de gastronomia

Ruth Reichl

Ela já trabalhou em restaurante, cozinhou para os amigos numa comunidade hippie em que vivia em São Francisco, foi a toda-poderosa crítica do The New York Times, e a última diretora da mais célebre revista de gastronomia dos Estados Unidos, a Gourmet, que fechou em 2009. Tudo isso a jornalista americana contou em livros que logo viraram best-sellers, com sua escrita viva, instigante, sagaz. A parte mais tenra, “Conforte-me com maçãs” e “Alho e Safiras”, em que ela conta a vida de crítica de restaurantes do jornal The New York Times de maneira impagável: as histórias incluem disfarces e personagens que criou para visitar restaurantes sem ser reconhecida. Imperdível.

 

Patrícia Ferraz é jornalista com pós-graduação em gastronomia e editora do Paladar, o suplemento de gastronomia de O Estado de S.Paulo. É autora do livro “Comida cheia de História - crônicas e receitas de uma jornalista de gastronomia” (Ed. Senac).

 

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