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Foto: Arquivo pessoal

A historiadora Ynaê Lopes indica 5 obras para quem quer começar a entender a complexidade da história escravista brasileira

A escravidão foi uma das instituições mais longevas da história brasileira. A forma por meio da qual ela foi implementada no período colonial e reforçada ao longo da formação do Estado nacional brasileiro demonstra o caráter estruturante da escravidão não só em termos econômicos, mas também sociais, políticos e culturais. A complexidade que marcou a história da escravidão (e do seu legado) tem sido tema de importantes pesquisas de autores e autoras (brasileiros e brasilianistas), que há muito se debruçam sobre o assunto a partir da análise de um variado corpus documental, bem como de perspectivas teórico-metodológicas distintas. Como esse é um campo vasto e importante na historiografia brasileira, seria possível indicar dezenas de livros. Justamente por isso, minhas cinco sugestões foram feitas tomando como base não só a complexidade do tema, como a salutar variedade de exames sobre ele.

Liberdade por um Fio. História dos Quilombos no Brasil

João José Reis e Flávio Gomes (Orgs.)

Escrito por importantes historiadores brasileiros e brasilianistas, esse livro examina um aspecto crucial na história da escravidão no Brasil: a resistência escrava, mais especificamente, a formação de quilombos em diferentes localidades e épocas. Além do famoso e importante caso do Quilombo dos Palmares, os capítulos desse livro também analisam a formação de quilombos em outras regiões do Brasil, como em Minas Gerais, Bahia, Goiás, Rio de Janeiro. Tais análises demonstram a pluralidade de arranjos escravos que permitiram a formação de quilombos, sublinhando assim a complexidade que marcou a vida nas comunidades quilombolas, organizações que tiveram um papel crucial na resistência imposta pelos escravos durante a vigência da instituição escravista no Brasil.

O Trato dos Viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII

Luiz Felipe de Alencastro

Esse livro é fundamental para os estudos sobre escravidão no Brasil por demonstrar, por meio de uma contundente análise documental, a necessidade em estudar a história do Brasil escravista articulada às histórias das regiões africanas das quais muitos dos africanos escravizados eram originários. Tomando o tráfico transatlântico entre os séculos 16 e 17 como tema central, o livro aponta como a formação do Brasil (uma sociedade marcada e estruturada pela escravidão) precisa ser examinada a partir das relações estabelecidas além do território da América portuguesa, o que vale dizer, examinar as dinâmicas estabelecidas pelos sujeitos históricos que viveram no então Brasil colônia, na metrópole portuguesa (em menor medida), e nas diferentes localidades da África Centro-Ocidental.

Escravidão e Política. Brasil e Cuba, 1790-1850

Marcia Berbel, Rafael Marquese e Tâmis Parron

Justamente por tomar a escravidão em Cuba como um contraponto analítico, o livro permite um exame sobre as escolhas políticas feitas pelos dirigentes do Brasil - entre final do século 18 e a primeira metade do século 19 - que viabilizaram a manutenção da escravidão, num momento em que a instituição estava sendo questionada em diferentes localidades do Mundo Atlântico. Um livro importante para entender o caráter estruturante que a escravidão ganhou ao longo do século 19 na e para a sociedade brasileira (a chamada segunda escravidão), mas que também chama atenção para estudos que ultrapassem as fronteiras nacionais, e examinem a escravidão em perspectiva transatlântica.

Fragmentos Setecentistas. Escravidão, Cultura e Poder na América Portuguesa

Silvia Lara

Nessa obra, o caráter estruturante da escravidão no período colonial é apresentado por meio de uma análise minuciosa de um variado corpus documental com enfoque nas cidades do Rio de Janeiro e Salvador, ressaltando a importância da escravidão urbana na dinâmica sócio-política da história do Brasil. Ao examinar as formas por meio das quais as autoridades coloniais lidaram com a massa cada vez maior de africanos e africanas escravizados e seus descendentes, a autora evidencia a capacidade de articulação e de ressignificação das relações sociais de escravos e libertos (dando especial destaque para o exame das Irmandades Negras), demonstrando assim o quão complexo era o cotidiano escravista nesse período, e como ele foi formativo da cultura e das vivências raciais no Brasil.

Na Senzala, uma Flor -  esperanças e recordações na formação da família escrava: Brasil Sudeste, século XIX

Robert Slenes

A partir de análises demográficas, esse livro examina a formação de famílias escravas na região sudeste do Brasil oitocentista, justamente o período marcado pelo desenvolvimento da produção cafeeira e, consequentemente, pelo incremento da escravidão na região. O exame cuidadoso dos dados coletados permite que o autor não só comprove a existência de famílias escravas nas senzalas brasileiras (o que durante muito tempo foi negado pela historiografia), mas também que ele demonstre como a formação dessas famílias esteve intimamente relacionada aos laços de afeto e solidariedade estabelecidos por africanos escravizados a partir de suas recordações e (re)leituras de mundo.

Ynaê Lopes dos Santos é mestre e doutora em história social pela USP, especialista em história da escravidão nas Américas. Atualmente é professora da Escola de Ciências Sociais CPDOC-FGV, coordenadora do Laboratório de Estudos Étnico Raciais FGV e autora dos livros “Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro” (Hucitec, 2010) e “História da África e do Brasil Afrodescendente” (2017, Pallas).

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