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A bióloga Natalia Pasternak indica 5 obras que a fizeram seguir caminho na ciência

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Cinco livros para encantar-se com ciência e pensamento crítico, e que me levaram a ser cientista. Cada um teve uma influência específica no meu modo de ver o mundo, o que é afinal, o que define um cientista: a capacidade de olhar o mundo com encantamento e curiosidade, sem apelar para o sobrenatural para tentar explicá-lo ou para justificar crenças e condutas.

O Mundo assombrado pelos demônios

Carl Sagan

Creio que não existe livro melhor para entender – e se encantar – com o pensamento cético. Se este livro fosse leitura obrigatória nas escolas e universidades, não teríamos tantos cidadãos acreditando em pseudociências e pensamento mágico. Sagan nos conduz pela construção do pensamento crítico e desmistifica várias pseudociências como discos voadores, curas milagrosas, crenças no sobrenatural, astrologia e medicina alternativa. O relato da história do “grande Carlos” na Austrália é imperdível. A explicação de por que astrologia é uma pseudociência das mais manjadas, e como é fácil provar isso, também é imperdível. Sagan mostra um experimento clássico onde grande parte das pessoas se reconhece perfeitamente em um mapa astral traçado para um serial killer francês… É impossível passar ileso pelo livro.

Eu, Robô

Isaac Asimov

Asimov é certamente o papa da ficção científica, e qualquer um de seus livros é rico em conceitos científicos, humor e boas histórias. “Eu, Robô”, em particular, foi o primeiro livro de Asimov que eu li quando era adolescente. As histórias da “robopsicóloga” doutora Susan Calvin certamente deixaram sua marca. Que menina adolescente não iria se inspirar em uma mulher brilhante, cientista, especialista em resolver problemas de robôs que escapavam do controle usando apenas sua inteligência e lógica? As três leis da robótica criadas por Asimov levam o leitor para um universo de lógica impecável, e são um convite ao pensamento racional. A ficção científica bem escrita consegue explorar a ciência já existente, ao mesmo tempo em que nos permite contemplar o que a ciência seria capaz de fazer em cem, duzentos, mihares de anos. As predições obviamente talvez não se cumpram, mas o encantamento pela ciência dura uma vida.

O gene egoísta

Richard Dawkins

No prefácio da primeira edição, de 1976, Dawkins deixa claro que “O gene egoísta” é um livro de ficção científica, mas também é ciência. É ciência contada como história, ciência feita para encantar e para atrair o leitor para um novo modo de pensar e de olhar o mundo. É a maneira poética e precisa de Dawkins de explicar a teoria da evolução, sempre tão contestada e diminuída ao clichê de ser “somente uma teoria”, precisamente por aqueles que não entendem o que é de fato um teoria científica. Dawkins explica que escreve para três tipos de leitor: o leigo, o especialista, e o estudante de biologia, meio caminho entre um e outro. Eu li a primeira vez como estudante de biologia, curso em que ingressei disposta a estudar, justamente, a especialidade de Dawkins, comportamento animal. Talvez eu o tenha decepcionado após trair minha vocação inicial e migrar para a genética, mas sempre achei que o próprio Dawkins tinha culpa nessa escolha, que deve ter suas raízes em “O gene egoísta”.

Truque ou Tratamento

Edzard Ernst e Simon Singh

Os autores são extremamente precisos ao desmistificar a medicina alternativa, explicando minuciosamente todos os motivos que levaram essas práticas a serem tão populares, ainda que sua eficácia nunca tenha sido comprovada pela ciência e suas teorias para mecanismo de ação sejam absolutamente implausíveis do ponto de vista da ciência moderna e de todo o conhecimento que temos sobre física, química e medicina. Edzard Ernst pode ser considerado hoje o maior especialista do mundo em medicina alternativa. “Truque ou Tratamento” foi apenas o primeiro de seus livros a ficar conhecido, mas todos os seguintes são igualmente fantásticos e precisos, escritos com muito bom humor e excelente didática, e levam o leitor para um passeio no mundo da medicina alternativa, do qual ele sai munido com espírito crítico, racionalidade e ceticismo, e com a certeza de que nunca mais será enganado por falsas promessas de curas milagrosas.

Por que pessoas acreditam em coisas estranhas

Michael Shermer

Shermer também não é autor para pararmos no primeiro livro. Neste, o autor nos mostra por que o cérebro humano foi programado para buscar padrões que expliquem o mundo, ainda que eles não expliquem nada. Existe uma razão evolutiva que torna mais fácil acreditarmos em padrões formados por correlações e observações pontuais do que em um método investigativo que procura obter relações de causa e efeito. O método científico não é intuitivo e precisa ser aprendido. Quando lemos Shermer, conseguimos compreender por que é tão difícil ensinar esse novo modo de pensar e encarar o mundo. O autor explica também por que o método científico foi o único que conseguiu desenvolver a ciência e a tecnologia da qual desfrutamos hoje em nosso dia a dia. E conseguimos ainda entender por que um número tão grande de pessoas são adeptas de medicina alternativa, negacionismo do Holocausto, negacionismo de mudanças climáticas, experiências paranormais e criacionismo.

 

Natalia Pasternak é bióloga, doutora com pós-doutorado em microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP na área de genética molecular de bactérias. Atua também na área de divulgação e educação científica, coordena no Brasil o festival internacional Pint of Science, que leva o cientista para a mesa do bar, o projeto Cientistas Explicam, que oferece oficinas e palestras para escolas, é colunista da revista Saúde, membro de Teaching Fellowship da Sociedade Americana de Microbiologia, diretora-presidente do Instituto Questão de Ciência e publisher da revista Questão de Ciência.

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