Foto: Layla Braz

O crítico e curador Heitor Augusto recomenda 5 obras e textos para pensar sobre o cinema negro

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Esta é uma lista incompleta, evidentemente. Muitos outros livros mereceriam indicações de leituras. Mas dado o recorte proposto pela edição de cinco obras, decidi priorizar trabalhos que não apenas falam da presença negra em tela, mas, sim, da construção de imagens por pessoas negras. Sabemos, mas nunca é demais repetir: especialmente no Brasil, preto foi muitas vezes visto pelo cinema como objeto. Um corpo a ser observado. O que percebemos nas movimentações mais recentes – e que certamente se conectam com os gestos pioneiros do passado – é essa virada: imagens pretas.

Percebe-se também na minha lista uma preponderância de obras escritas por pesquisadores estrangeiros. Isso poderia ser explicado por uma idiossincrasia da minha formação e pesquisa, que está em diálogo (ou tensão) constante com autores e filmes especialmente norte-americanos. Mas vai além: ainda é preciso afirmar, em 2018, a dificuldade de pessoas negras publicarem como acadêmicos ou pesquisadores, deixarem suas ideias impressas em livros, em documentos que permitam mais facilmente a pesquisa. Basta observarmos que três nomes indispensáveis como Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Thereza Santos publicaram muito menos do que poderiam na forma-livro.

Para driblar a inviabilização, tomei de forma mais maleável o convite à recomendação de livros – e incluí outros tipos de texto.

Black American Cinema (1993)

Manthia Diawara (org.)

Manthia Diawara, pesquisador, professor e realizador malinês radicado nos EUA, constrói com esse livro – ainda inédito no Brasil – uma reflexão sobre dois pilares: estéticas negras e espectorialidade negra. No primeiro, parte-se para uma investigação ampla sobre a agência do olhar na realização, indo desde um pioneiro como Oscar Micheaux (“Dentro de nossas portas”, 1920) a obras redescobertas pelo público contemporâneo, como “Filhas do pó” (1991), de Julie Dash. Na segunda, o foco está sobre o ato de assistir: onde e como se posiciona uma pessoa negra ao assistir a um filme. De autoria do próprio Diawara, o ensaio mais famoso desse trecho é “Black spectatorship: Problems of identification and resistance” que, de tão central para o(s) olhar(es) negro(s), me motivou a traduzi-lo. A versão em português pode ser lida aqui. É possível também consultar um PDF do livro original aqui. Vale ressaltar que Diawara esteve no Brasil, a convite do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe, para ministrar uma masterclass. A íntegra do encontro pode ser lida nesta transcrição aqui.

Black looks: Race and representation (1992)

bell hooks

Não seria exagero afirmar que bell hooks não apenas é uma das mais prolíficas pensadoras norte-americanas, mas também uma referência incontestável para toda uma geração de negras e negros ao redor do mundo e um dos pilares do feminismo negro contemporâneo. Se eu não tivesse me imposto o desafio de incluir apenas uma obra por autor, certamente essa lista seria recheada de publicações de hooks. Em “Black looks” – inédito no Brasil –, a autora nos entrega 12 artigos que passam por diversos assuntos, filmes e obras. O mais famoso é certamente “The Oppositional Gaze”, onde ela analisa o que constitui o específico do ato espectatorial da mulher negra, dialogando e, eventualmente, discordando do que Diawara propôs acerca da resistência. Para a mulher negra, argumenta hooks, as camadas de resistência e proposição são muitas. Felizmente o artigo está disponível em português em duas versões: tanto no Catálogo do Festival de Curtas de Belo Horizonte (ler tópico abaixo), na tradução de Carla Italiano e Luís Flores, como na tradução de Maria Carolina Moraes para o blog Fora de Quadro, disponível para leitura aqui.

Carta ao Heitor (ou Desculpe a bagunça ou Ao mesmo tempo)

Juliano Gomes

Reflexões realizadas no tempo presente sempre me interessam. Afinal, é um lugar potente, ainda que pouco confortável, estar mergulhado nas tensões e disputas do nosso tempo, engajado na forja de um devir. Esse é um dos aspectos que mais me tocam nesse texto do crítico, professor e realizador Juliano Gomes, publicado na revista eletrônica Cinética. Em forma de carta, Gomes apresenta 26 pontos de reflexão – alguns mais diretos, outros que convidam a uma leitura mais pausada. São abordadas questões centrais para a presença de pessoas negras no contexto cinematográfico brasileiro contemporâneo. Falam-se das ideias, das infinitas possibilidades de criação, mas também das relações estabelecidas entre corpos negros e também com corpos brancos desde que Cinema Negro tornou-se uma matéria menos ausente das discussões de audiovisual. O texto de Gomes pode ser lido aqui.

Catálogo do Festival de Curtas de Belo Horizonte (2018)

Ana Siqueira, Bruno Hilário, Glaura Cardoso Vale, Heitor Augusto e Matheus Pereira (org.)

Um dos mais tradicionais do Brasil no formato, o Festival de Curtas deste ano abrigou a mostra Cinema Negro: Capítulos de uma História Fragmentada, da qual fui o curador. A retrospectiva – composta de 25 curtas, seminário e debate – foi acompanhada de uma publicação impressa, onde estão reunidos diversos artigos organizados em três eixos: Genealogia(s) do Cinema Negro, Política do Olhar e Manifestos. Alguns dos pesquisadores e pesquisadoras com textos reproduzidos no catálogo são bell hooks Janaína Oliveira, Kênia Freitas, Noel dos Santos Carvalho, Petrônio Domingues, além de textos históricos dos realizadores David Neves, Zózimo Bulbul e Orlando Senna. Dispensando a falsa modéstia, o catálogo é incontornável para qualquer estudo tanto sobre representação quanto representatividade negra no cinema – ontem, hoje e amanhã. A versão em PDF do catálogo pode ser consultada aqui.

O Atlântico negro: Modernidade e dupla consciência (2012)

Paul Gilroy

O cinema está longe de constituir um objeto de estudo do professor, escritor e pesquisador Paul Gilroy que, ao falar de arte, debruça-se especialmente sobre a música. Contudo, as questões trazidas pelo seminal livro do britânico se mostram fundamentais para pensar, entre outras coisas, a autoria negra. Gilroy questiona noções essencialistas e fronteiras como fatores de agrupamento em si, abrindo as portas para um abraçamento completo da ideia de trânsito por esse território físico e simbólico que é o Atlântico Negro. Ideias como enraizamento e política de autenticidade são complexificadas ao limite por um autor que não teme apresentar ideias que nem sempre se encaixam com os desejos do campo. Nesse sentido, Gilroy e Stuart Hall com “Da diáspora” são fundamentais para ampliar o horizonte.

 

Heitor Augusto é crítico de cinema, curador, professor e tradutor. Curador da mostra Cinema Negro: Capítulos de uma História Fragmentada, realizada durante o Festival de Curtas de Belo Horizonte em 2018, e um dos curadores do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro nos anos de 2017 e 2018. Tem textos publicados em revistas de crítica, catálogos de mostras e coletâneas. Ministrou os cursos O negro no cinema brasileiro: uma história em construção (Masp), Blaxploitation e o cinema americano (Sesc), Spike Lee: raça, identidade e cinema (Cine Humberto Mauro), além de ter coordenado oficinas de crítica em festivais de cinema. Mantém o site Urso de Lata, onde exercita uma escrita que habita as intersecções entre raça, estética e política. Fale comigo em heitoraugustod@gmail.com.

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