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Foto: Arquivo pessoal

O antropólogo e jornalista Spensy Pimentel indica 5 obras que ajudam a refletir sobre a situação dos indígenas no Brasil

A Constituição de 1988 estabeleceu o marco para uma refundação das relações do Brasil com os 305 povos originários – segundo o Censo de 2010 – que aqui resistem há 518 anos ao projeto colonial europeu, lutando para manter suas culturas, autonomia e territórios.

O problema é que a grandiosidade do que se projetou no papel não correspondeu a um impulso efetivo para que os povos indígenas sejam conhecidos, respeitados e valorizados pela população brasileira. A lei 11.645/2008 estabeleceu a recomendação de que o ensino de história e culturas indígenas seja levado às escolas, mas, na prática, ainda resta muito a fazer.

Após alguns anos de experiência com cursos de extensão na Universidade de São Paulo, escrevi o livro “O índio que mora na nossa cabeça – sobre as dificuldades dos brasileiros para entender os povos indígenas”, que busca entender os obstáculos que ainda temos para relacionar-nos com a diversidade cultural do mundo indígena. Aqui vão algumas indicações de obras e autores que podem ajudar a enfrentar esse desafio.

O Caráter Educativo do Movimento Indígena Brasileiro 1970-1990

Daniel Munduruku 

Poderia indicar qualquer um dos mais de 40 livros desse que é o autor indígena brasileiro que mais publicou, principalmente literatura infantil. Suas obras ganharam prêmios, estão nas bibliotecas de todo o país, são traduzidas no exterior. Daniel é um ícone, portanto, para que se reconheça a imensa capacidade intelectual dos povos indígenas. Mas esse livro, em particular, fruto de sua tese de doutorado, aponta para algo especialmente importante: a redemocratização do país foi construída também pelo movimento indígena, uma história ainda pouco conhecida.

A queda do céu – Palavras de um xamã yanomami

Davi Kopenawa e Bruce Albert

O livro registra a vida e os pensamentos do líder e xamã yanomami que é uma das personalidades indígenas brasileiras mais conhecidas no mundo hoje. Kopenawa tem sido um porta-voz dos povos da Amazônia que lutam contra as novas invasões coloniais representadas pela mineração, a extração de madeira, o agronegócio e as grandes hidrelétricas. Ao mesmo tempo, desde que começaram a ser transcritas e publicadas pelo parceiro Albert, há quase 30 anos, as palavras do líder indígena têm servido como poderosa inspiração para autores como Eduardo Viveiros de Castro, que assina o prefácio do livro.

Direitos dos Povos Indígenas em Disputa


Manuela Carneiro da Cunha & Samuel Barbosa (org.)

Os direitos indígenas estiveram no nascedouro da atual crise política. As iniciativas para demarcar áreas em regiões onde historicamente há um passivo no reconhecimento das terras indígenas foram decisivas na mobilização conservadora da bancada ruralista, desde o segundo governo Lula. Este livro, resultado de uma ação ampla de juristas e antropólogos, enfrenta esse debate, em particular uma das maiores ameaças atuais às demarcações, a tese do “marco temporal”, segundo a qual só poderiam ser reconhecidas pelo Estado as áreas ocupadas em 1988 – o que excluiria indígenas removidos de suas terras no período da ditadura, por exemplo.

Arqueologia da Amazônia

Eduardo Góes Neves

O Brasil passou por um boom nas pesquisas arqueológicas desde os anos 1990, de tal modo que se alteraram significativamente os dados disponíveis para imaginarmos como viviam os povos indígenas antes da chegada dos europeus. Hoje, sabemos que nem de longe é real a imagem de que aqui só haveria comunidades pequenas ou grupos isolados, afastando diversos mitos ainda vigentes no senso comum. Neves foi um ator fundamental nesse movimento. O livro é uma síntese acessível ao grande público dessas pesquisas.

O Povo Brasileiro

Darcy Ribeiro

Uma obra que já tem mais de 20 anos, mas que aqui incluo por motivos pessoais. Foi o livro que alterou de forma definitiva meu olhar sobre a região onde nasci e cresci, o sul de Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai – área de ocupação tradicional dos Guarani-Kaiowa e com uma história riquíssima, mas que nunca me havia sido devidamente apresentada na escola ou na mídia. Em um texto envolvente, Darcy dá sua versão apaixonada sobre a história do país e faz seu discurso final sobre nosso potencial como povo, como “humanidade nova” forjada na América Latina.

Spensy Pimentel é antropólogo e jornalista. Trabalha na Universidade Federal do Sul da Bahia e é pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios (Cesta-USP), dedicando-se nos últimos anos a ajudar grupos de artistas, jornalistas e outros profissionais a tecer relações com os povos indígenas. Em 2017, realizou, com parceiros, o documentário “Monocultura da fé”, sobre as agressões de grupos pentecostais aos xamãs do povo guarani-kaiowa, junto ao qual atua há 20 anos. É fundador e integrante do Fórum sobre Violações dos Direitos dos Povos Indígenas.

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