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Foto: Robson Maia

A nova colunista do ‘Nexo’ Giovana Xavier indica 5 livros para refletir sobre os ativismos feministas no Brasil

O que é feminismo? É possível defini-lo de uma só forma? Quem são as vozes autorizadas a narrá-lo? Quando nos distanciamos da história única, feminismo relaciona-se à luta por igualdade entre as pessoas. Uma categoria que deve ser pensada no plural porque parte de sujeitos e experiências distintas, que demonstram a impossibilidade de pensar mulher como conceito universal. Isso fica evidenciado pelas narrativas dos feminismos negros, dos transfeminismos, dos ecofeminismos, entre outros.

Em meio a tantas variáveis, deparo-me com a difícil tarefa de chegar a uma lista de cinco livros. Após algumas noites em claro, visitas constantes às estantes físicas, virtuais e alguns exercícios de escavação da memória, cheguei a um resultado. Sua configuração fez-me pensar o quão importante é aprofundarmos o entendimento de que escolher não significa necessariamente preterir. Escolher também diz respeito a iluminar aspectos, temas, características que consideramos mais importantes em determinado momento histórico, em certo período de nossas vidas.

Assim, para dar vida ao meu registro, perguntei-me: como contar a história do ativismos feministas a partir de narrativas variadas que não se restrinjam aos trabalhos acadêmicos? A noção de práticas feministas contribuiu na definição dos seguintes critérios: autoria de mulheres, com diferentes sexualidades, gerações, provenientes de estados e campos de atuação diversos (academia, literatura, movimentos sociais). Em termos de mercado editorial, tema quente quando o assunto é machismo e inviabilização da produção feminina, considerei em meu repertório escritoras que tenham publicado em selos editoriais pequenos, médios, universitários.

Além disso, transgredi o protocolo e inclui uma dissertação de mestrado que espero, em breve, torne-se livro. Em atenção a esses critérios, operei com um recorte temporal de 1985 a 2017, tomando como marcos o fortalecimento dos Estudos Feministas no Brasil na década de 1980 (pós promulgação da Constituição de 1988) e a emergência de políticas públicas e programas sociais para mulheres nos anos 2000, o que impactou diretamente na construção de novas práticas, ferramentas e linguagens do “ser feminista”. Por mais e mais listas…

#Meu amigo secreto: feminismo além das redes

Bruna de Lara, Bruna Rangel, Gabriela Moura, Paola Barioni, Thaysa Malaquias 

Assinado por cinco autoras do Coletivo Não Me Kahlo, com formações distintas, este livro visibiliza o papel do ativismo virtual na reconfiguração dos movimentos feministas e de suas pautas nos anos 2000. Visitando a história da campanha #meuamigosecreto, por meio da qual mulheres foram encorajadas a denunciar casos de violência de gênero com depoimentos escritos, a obra evidencia o papel das redes sociais como espaço de ativismo contra o machismo e de enfrentamento à realidade de medo e não direito ao espaço público. Um grande diferencial é que não se trata especificamente de um livro que conta a história da campanha que viralizou na internet. Em vez disso, tal campanha é fio condutor, inspiração para reflexões mais profundas, desenvolvidas em textos inéditos, oriundos de pesquisas e dados estatísticos (censos demográficos, mapas da violência e investigações quali-quantitativas). O material nos instiga a pensar o quanto o mundo virtual é real (a ponto de uma campanha tornar-se livro), permitindo-nos conhecer mais sobre temas como aborto, cultura do estupro e misoginia de um lado, maternidade e empoderamento de outro, tendo como referência pontos de vista de jovens feministas, estudiosas e com trabalho de grande impacto nas redes sociais.

Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis

Jarid Arraes

Você já ouviu falar da deputada federal Antonieta de Barros? Da escritora Carolina Maria de Jesus? Da fundadora do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas Laudelina Campos de Melo? Da princesa africana Aqualtune? Não? Como assim? Já passa da hora de conhecê-las. E ter Jarid Arraes como apresentadora fará toda diferença. Cearense de Juazeiro do Norte, a escritora tornou-se conhecida pela autoria de cordéis, que ela própria confecciona e que trazem como personagens mulheres negras com destacado papel na história do Brasil. Por mais que o conceito de “heroína” seja questionável no sentido de essencializar determinadas trajetórias, ele também é extremamente válido e politicamente necessário para reposicionar as mulheres negras no imaginário nacional, tendo como referência suas experiências de afirmação, luta, trabalho. Afinal, existe algo mais feminista do que valorizar protagonismos, saberes ancestrais e “resgatar a memória de quem somos”? “Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis” responde.

Terra fértil

Jenyffer Silva do Nascimento

Nesta obra, ao longo dos 80 poemas de autoria da pernambucana que “nasceu em um dia quente de sol de 1984”, somos convidadas a revisitar a história das mulheres no Brasil, tendo como base as experiências femininas negras em linguagem poética, que, mesmo sem esta pretensão anunciada, questiona a escrita acadêmica como única voz autorizada a produzir conhecimentos válidos. O livro é fortemente comprometido em apresentar o cotidiano e as subjetividades femininas, conforme sugerem os títulos de poemas como “Olhos sobre ela”, “Identidade” e “Protagonista”. Entretanto, engana-se quem pensa que se trata de uma publicação exclusiva para quem tem a pele preta. “Terra fértil” é uma narrativa sobre a história de um “Brasil com P de puta”, que nos é apresentado de forma extremamente sensível e comprometida com questões relacionadas ao papel das identidades raciais, da ancestralidade, da musicalidade na nossa formação. Mas, acima de tudo, “Terra fértil” é um trabalho sobre o amor, expresso na importância que a palavra possui como arma para combater os silêncios impostos a determinados grupos sociais. E por falar em feminismos e estratégias políticas contra a invisibilidade, destaca-se o fato de a obra ter sido publicada pelo Mjiba, um coletivo de autoras negras, de São Paulo, que, além de publicações como esta e “Pretextos de Mulheres Negras”, promove dezenas de saraus literários e oficinas de escrita.

Condição feminina e formas de violência: mulheres pobres e ordem urbana (1890-1920)

Rachel Soihet

Defendido como tese de doutorado na USP em 1986, a pesquisa de Rachel Soihet, grande ativista dos movimentos feministas e professora de História do Brasil na Universidade Federal Fluminense, constitui-se em estudo pioneiro sobre as condições de vida das mulheres pobres no Rio de Janeiro entre 1890 e 1920. Lançando mão de fontes originais, como processos criminais envolvendo mulheres e teorias médicas higienistas do século 19, o livro, uma versão revista e ampliada da tese, é um dos maiores ícones da história social, corrente historiográfica pioneira em conferir visibilidade às trajetórias de mulheres, negros e indígenas na academia. Trata-se de uma leitura indispensável para pessoas interessadas em aprender mais sobre hábitos e estratégias construídas no cotidiano de trabalho, lazer, na vida afetiva, por mulheres das classes subalternas para driblar os limites impostos pelo patriarcado.

‘Flores horizontais’: sociabilidade, prostituição e travestilidade na zona do mangue (1960-1970)

Claudielle Pavão da Silva

Esta dissertação apresentada em 2016, ainda não publicada, é essencial para conhecermos mais sobre a história social da prostituição carioca. Ela se constitui em pesquisa inovadora porque confere visibilidade às mulheres cisgêneras e travestis, trabalhadoras do sexo na zona do Mangue, Rio de Janeiro. Com base em investigações sistemáticas em jornais, obras literárias e documentação policial (boletins de ocorrência) dos anos 1960 e 1970, a autora oferece um importante panorama sobre o cotidiano e as estratégias de luta dessas profissionais naquela que foi a principal região de baixo meretrício da cidade carioca. Pontos altos do trabalho encontram-se na reconstituição dos “tipos do Mangue” e no ineditismo do recorte temporal, uma vez que a maioria dos estudos na área concentra-se na virada do século 19 para o 20. Além disso, a historiadora usa os referenciais dos feminismos interseccionais, questionando concepções binárias de gênero (feminino e masculino) e evidenciando como as identidades raciais delimitam experiências profissionais desiguais entre trabalhadoras brancas e negras.

Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil. Ela passa a escrever no Nexo quinzenalmente às terças-feiras.

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