Foto: Roberto Ikeda

A dramaturga e jornalista Silvia Gomez indica 5 peças de teatro para serem lidas

Tenho uma alegria secreta e solitária de ficar olhando as lombadas das prateleiras da minha estante dedicada ao teatro (sim, amo o papel). Infelizmente, a publicação desse gênero aqui no Brasil é relativamente pequena, salvo o belo trabalho de algumas editoras, como a Cobogó. Que venham mais, para que a gente possa ler dos clássicos aos contemporâneos, dos nacionais aos lá de fora. Aqui, fiz uma seleção das cinco peças que me fizeram amar ler dramaturgia – e nunca mais parar. (Claro, há muitas outras, mas a seleção pedia cinco! Isso, sim, foi um real drama!)  

Vestido de Noiva

Nelson Rodrigues

Sou muito afeita ao delírio e às dramaturgias que não fogem dele como tentativa de diálogo com o mundo. Marco da nossa literatura, “Vestido de Noiva” estreou em 1943. Nelson Rodrigues (1912-1980) divide a peça em três planos: realidade, alucinação e memória, camadas que se entrelaçam para contar a história de Alaíde. Após ser atropelada, ela relembra no hospital o conflito com a irmã, de quem tomou o namorado. A escrita de Nelson é uma aula de estilo, caligrafia própria, drama, obsessão. Um olhar singular para a condição trágica da existência humana. Nosso farol, nosso mestre dos magos.

Esperando Godot

Samuel Beckett

Lembro do meu espanto quando li “Esperando Godot” pela primeira vez. Começava a estudar teatro e já escrevia alguma coisa, quando me vi diante daquele texto cheio de perguntas numa linguagem absolutamente revolucionária. Recordo de ter pensado: “mas pode-se escrever assim?”. Criada no pós-guerra, essa peça em que nada acontece parece fazer tudo acontecer dentro da gente, acordando os pensamentos mais subterrâneos sobre a perplexidade de existir. A guerra esfacela as palavras, mutila o sentido. Samuel Beckett (1906-1989) nos ajuda a descompreender tudo com seus personagens Estragon e Vladimir e seu teatro do absurdo. Já grifei tantas frases da minha publicação adorada da Cosac Naify que a própria ideia de grifar para destacar partes que a gente ama deixou de fazer sentido.

Nossa Cidade

Thorton Wilder

Eu confesso! Nunca consegui ler um certo trecho desta peça sem chorar, mais especificamente uma fala grande da personagem Emily, que termina assim: “Pode alguma criatura humana compreender a vida, enquanto vive?” Escrito em 1938, o texto rendeu um prêmio Pulitzer a Thorton Wilder (1897-1975) e tornou-se um dos mais encenados no mundo. Sobre ele, Thorton afirmou: “não mostra a vida numa pequena cidade de New Hampshire... É uma tentativa de encontrar um valor inestimável para os menores acontecimentos de nossa vida cotidiana.” A minha versão – capa dura e vermelhinha – é parte daquela joia que foi a coleção Teatro Vivo, da Abril Cultural, que teve na equipe a maravilhosa dramaturga Maria Adelaide Amaral, uma referência para mim.

Volta ao lar

Harold Pinter

Mais um volume de sebo de capa dura e vermelhinha da coleção Teatro Vivo, da Abril Cultural. O britânico Harold Pinter (1930-2008) é um ícone e, nesta peça de 1964, ele subverte a lenda do filho pródigo num reencontro familiar absurdo e subterraneamente violento. Seu tradutor, Millôr Fernandes (1923-2012), escreveu: “todas as histórias precisam ser contadas de novo agora que, afinal!, começamos a ser sinceros.” Sob a aparência do real, o olhar de Pinter usa um diálogo irônico e situações sem saída para personagens cheios de contradições. “Uma forma de encarar a fala humana é a de considerá-la como um constante estratagema para cobrir a nossa nudez”, declarou o autor, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2005. No discurso de agradecimento, ele disse: “a verdade, no teatro, é sempre enganosa. Jamais conseguimos encontrá-la totalmente, mas a perseguimos de forma compulsiva.” 

A number

Caryl Churchill

Tenho um tipo de heroína (depois da minha avó Coeli, é claro) e seu nome é Caryl Churchill. O melhor: ela está viva e escrevendo muito, já nos seus quase 80 anos. Esta peça, de 2002, foi um choque estético. Quem me aplicou foi o meu mestre Antunes Filho, quando eu fazia parte do Centro de Pesquisas Teatrais, do Sesc, em meados dos anos 2000. Lembro de quando ele me entregou essa joia com a seguinte frase: “Leia. Esta é considerada a peça que inaugura o século 21”. Eu pirei muito com a história que investiga os limites éticos da clonagem humana por meio do pai Salter e seus inúmeros filhos-clones. O que faz uma pessoa? Genética, circunstâncias, alegrias, traumas? Mas o que mais me atordoa sobre Caryl é seu talento para manusear as palavras de forma livre, doida, singular. Uma deusa que também merecia o Nobel. Ah! Dá para encontrar a versão original A number) à venda na internet.

Silvia Gomez é dramaturga e jornalista. Já integrou o CPT (Centro de Pesquisa Teatral) e escreveu vários textos adaptados para o teatro. Em 2017 escreveu "Marte, Você está aí?", peça distópica sobre a política brasileira.

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