Foto: Kate Griffin

O professor, doutor em linguística e tradutor Caetano Galindo indica 5 livros com traduções exemplares para o português

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

O leitor brasileiro vive hoje uma era extremamente privilegiada no que se refere à tradução literária. Não é arriscado dizer que 90% dos maiores tradutores de toda a história do Brasil estejam ativos agora. Mitos como Augusto de Campos, a geração prodigiosa de Paulo Henriques Britto, Rubens Figueiredo, Denise Bottman, Mamede Jarouche, Rosa Freire d’Aguiar e tanta gente mais, chegando a um pessoalzinho muito mais jovem e já assustadoramente competente como Sara Grünhagen, Daniel Dago e Adriano Scandolara, os tradutores literários de hoje tendem a ser mais qualificados, mais profissionais e mais criativos (porque mais libertos).

Escolher traduções cuja mera existência já é um luxo, portanto, é tarefa das mais simples. Até por isso, quis complicar um pouco o jogo (além da dificuldade brutal de ter que escolher SÓ cinco!), tentando variar as línguas de origem e os tipos de projeto. Mas cada um dos livros abaixo (além de literalmente centenas dos que saíram da mão dos tradutores que acabei de citar), é uma “coisa de beleza e uma alegria para sempre”, pra mal(?) traduzir um versinho de Keats.

Gilgámesh (ele que o abismo viu)

Sin-léqi-unníni, em tradução de Jacyntho Lins Brandão

O livro acabou de sair. Eu li correndo. Trata-se, sem hipérbole, de um monumento. Um prodígio. Um professor de literatura grega que não precisava de mais nada no currículo decide aprender uma língua semítica extinta (o acádio) para traduzir o primeiro de todos os épicos. O texto que ele gera é lindo, e o aparato crítico que integra a edição…! Notas, comentários, introdução… Duvido que haja hoje, no mundo, leitor mais capacitado que o brasileiro para encarar a experiência profundamente transformadora que é a leitura de “Ele que o abismo viu”.

Alice: edição comentada e anotada

Lewis Carroll, em tradução de Maria Luiza X. de A. Borges

Os dois livros de Alice (“No país das maravilhas” e “Através do espelho”), mais um episódio inédito. Mais as clássicas ilustrações de John Tenniel. Mais as anotações exaustivas e divertidíssimas de Martin Gardner (matemático como Carroll). O projeto editorial, bravissimamente encarado por Maria Luiza Borges, já era impressionante. Mas a tradução dela entra aqui por seus próprios méritos, e por um “pequeno detalhe”, sua versão hilariante, perfeita, do poema “Pargarávio”, em que ela não fugiu de lutar com três monstros: o Jabberwock do original, a poesia alucinada de Carroll e a sombra do mais-que-clássico “Jaguadarte” de Augusto de Campos, tão famoso que tende a simplesmente ser citado a cada nova tradução. Mas não aqui!

A anatomia da melancolia

Robert Burton, em tradução de Guilherme Gontijo Flores

Quando a edição em paperback do livro de Burton saiu, o jornal inglês The Guardian declarou que era simplesmente o maior lançamento do século. “A anatomia da melancolia” é um livro único, vertiginoso, em que ao longo de mais de duas mil páginas um médico pra lá de literato investiga tudo que possa derivar do seu tema. Da literatura à teoria dos humores. O trabalho do Guilherme, que ainda não tinha 30 anos quando terminou, é maravilhoso. Além de tudo, ele é professor de latim, e o leitor brasileiro acaba ficando mais preparado que um inglês dos dias de hoje pra enfrentar o citacionismo e o multilinguismo do doidíssimo Burton.

Äxel

Villiers de L’Isle-Adam, em tradução de Sandra M. Stroparo

Típico trabalho que até não muito tempo atrás apenas uma editora universitária encararia. A wagneriana e desbundada obra trágica simbolista que deu nome ao mais famoso dos livros sobre a origem do modernismo literário (“O castelo de Äxel”, de Edmund Wilson) provavelmente nem existiria até hoje no Brasil se não fosse a tradutora, que apresentou o projeto e gerou uma lapidadíssima versão de um texto raro, estranho e fascinante. A tradutora como agente cultural, além de escritora, a revelação de um clássico citado, lembrado, mas praticamente não lido: outra das maneiras de a tradução se transformar num privilégio.

Número Zero

Umberto Eco, em tradução de Ivone Benedetti

Eu li todos os romances de Eco. Este “Número Zero” eu li correndo, assim que saiu. E imediatamente pensei que gostaria de traduzir. Poucos meses depois, num simpósio acadêmico, conheci Ivone Benedetti, que neste meio-tempo tinha produzido uma versão supimpa de um livro difícil a dar com o pau (um dos personagens é obcecado por jogos de palavras). Ivone talvez ilustre o maior dos privilégios do leitor brasileiro de hoje, no campo da tradução: a possibilidade de contar com versões profissionais, absurdamente bem realizadas, e realizadas em pouco tempo, do que de mais interessante se publica em várias línguas do mundo. Fiquei foi com inveja!

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que o nome do livro de Umberto Eco é "Ano Zero", quando na verdade é "Número Zero". A correção foi feita no dia 5 de dezemebro, às 13h02.

Caetano Galindo é professor da Universidade Federal do Paraná, doutor em linguística e tradutor. É autor de versões para o português de livros como "Ulysses", de James Joyce, e "Graça Infinita", de David Foster Wallace.

*Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos do Nexo, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo. Por favor, considere também assinar o Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.