Foto: Irina Sarmatz

Leandro Sarmatz, jornalista e escritor, indica 5 obras para ajudar o leitor a aceitar o ano de 2016

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Algumas épocas desabam sobre nossas cabeças. 2016, “annus horribilis”, foi (tem sido) assim. Uma coleção de crises, golpes - de Estado e na nossa autoestima -, a ascensão de escroques aqui e alhures, muita imundice. Gente morta a rodo. Aleppo e a Chape. E Bowie, Prince, Leonard Cohen, uma longa e tenebrosa lista de baixas. Os catastrofistas, que, assim como os paranoicos, às vezes de fato têm razão para suas suspeitas, confirmaram sua visão de mundo ao longo dos últimos 12 meses. O que esperar do ano que se aproxima? Torcer para que seja um pouco melhorzinho. E começar a processar o turbilhão que foi 2016. Aceitá-lo, se não no coração pelo menos no campo das ideias e da sensibilidade. Como nos cinco livros indicados a seguir, que tentam entender momentos decisivos na vida pessoal, política, cultural. Foi um ano ruim sim, mas não estamos sozinhos.

Japanese death poems

Organizado por Yoel Hoffmann

O “jisei”, ou poema escrito à beira da morte, é uma tradição nipônica. Compostos por monges e poetas velhinhos, os textos breves, geralmente na forma clássica do haicai, são delicados (e por vezes bem-humorados) ao abordarem a consciência da morte. Zero drama ou lamentação. Ao falarem do fim inevitável de todos nós, os poemas são a última aposta na sensibilidade e na memória, momentos antes de as luzes se apagarem. Celebram a vida, enfim.

 

Caderno de memórias coloniais

Isabela Figueiredo

Um livro assombroso, mistura de “Carta ao pai” com “Infância”. O acerto de contas com o pai e o colonialismo português (no caso, Moçambique), vistos aqui num mesmo constructo. O pai, sexualizado ao extremo, desprezando até a morte os africanos, é como se fosse Portugal numa casca de noz. Em 1975, com 12 anos, a autora foi despachada para a metrópole para nunca mais voltar. Seu pai seguiu logo depois, amaldiçoando até a morte o 25 de abril e culpando a democracia pelo esfacelamento do colonialismo.

 

Grand Hotel Abyss: The Lives of the Frankfurt School

Stuart Jeffries

Ser intelectual, vir de uma família com posses e ter origem judaica às vésperas da ascensão de Hitler: eis uma receita para a catástrofe pessoal. Pois as trajetórias (por vezes trágicas) de Theodor Adorno, Walter Benjamin, Max Horkheimer e Herbert Marcuse, fundadores daquela que ficaria conhecida como Escola de Frankfurt, são aqui desbastadas no campo biográfico e teórico, com pegada narrativa e escopo intelectual. Jeffries, que trabalhou décadas no “The Guardian”, fez aqui o seu “Chega de Saudade” sobre o melhor pensamento crítico para tempos sombrios.

 

O ano do pensamento mágico

Joan Didion

Num intervalo de uma semana, no final de 2003, Joan Didion - a melhor narradora do “new journalism” - viu sua filha posta em coma induzido depois de um choque séptico e seu marido morrer em consequência de um infarto. Tudo isso assim, em questão de dias. Para articular esses acontecimentos e tentar entender a falta de sentido da vida, Didion fez um livro de “alta-ajuda”, uma breve joia narrativa para compreender a perda, o luto e o absurdo.

 

Enclausurado

Ian McEwan

Só mesmo em 2016 o melhor livro do ano seria narrado por alguém que ainda não nasceu. Um feto hamletiano, com uma linguagem carnal e prodigiosa à Bellow, boia entre perorações sobre a vida aqui fora e a macabra conspiração armada contra seu pai, um poeta e editor. Ao mesmo tempo tão próximo e distante do mundo quanto alguém que está morrendo, o narrador desse breve romance encara a vida com um humor quase convulsivo. Sabe que nosso caminho é o nada.

Leandro Sarmatz é jornalista, autor dos livros “Logocausto” (Editora da Casa) e “Uma fome” (Editora Record) e foi editor da Companhia das Letras.

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