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‘Por que fazemos o que fazemos?’


Para o escritor e professor Mario Sergio Cortella, boa parte do propósito da vida moderna está naquilo que fazemos durante a rotina. O trabalho, nesse sentido, seria uma atividade que busca o reconhecimento do homem com aquilo que ele faz

Uma vida pequena é aquela que nega a vibração da própria existência. O que é uma vida banal, uma vida venal? É quando se vive de maneira automática, robótica, sem uma reflexão sobre o fato de existirmos e sem consciência das razões pelas quais fazemos o que fazemos.

Algumas religiões, entre elas a judaico-cristã, nos falam sobre o Juízo Final, o momento em que uma divindade virá fazer as grandes perguntas para julgar a nossa vida, se ela foi uma vida que valeu ou não valeu a pena. As perguntas da divindade supostamente seriam:

“O que fez, fez por quê?”

“O que não fez, não fez por quê?”

“O que fez e não deveria ter feito, por que o fez?”

“O que não fez e deveria ter feito, por que não o fez?”

Essas perguntas são sobre a percepção dos sentidos, aqui usados na dupla acepção, tanto de significado quanto de direção.

Ainda que não se considere nenhuma crença de natureza religiosa, mesmo que nos atenhamos à concepção científica de que temos apenas uma existência, esta não pode ser desperdiçada. Como dizia o jornalista gaúcho Aparício Torelli, grande frasista que ficou conhecido como Barão de Itararé: “A única coisa que você leva da vida é a vida que você leva”.

Qual o propósito que coloco adiante de mim? A palavra “propósito”, em latim, carrega o significado de “aquilo que eu coloco adiante”. O que estou buscando. Uma vida com propósito é aquela em que eu entenda as razões pelas quais faço o que faço e pelas quais claramente deixo de fazer o que não faço.

Atualmente, no âmbito do mundo do trabalho, a pergunta sobre o propósito vem ganhando crescente relevância. Boa parte das pessoas hoje deseja encontrar no emprego algo que ultrapasse o mero ganho salarial. Há uma busca por ser reconhecido, por ser valorizado pelo que se faz. Não quero que meu esforço seja desperdiçado ou inútil. Tampouco que seja mal-intencionado, se sou uma pessoa de boa intenção.

Essa questão sobre os propósitos foi vindo à tona gradativamente. Até algum tempo atrás, a vida era muito menos complexa e a intenção principal era sobreviver. Isto é, obter recursos para montar uma família e ter um patrimônio que se pudesse deixar de herança. Como a sociedade hoje é mais focada no indivíduo, a ideia de propósito está marcada por um conceito que já existiu e voltou com força: o da realização. E a palavra “realizar” em suas leituras no latim e inglês indica, respectivamente, realizar no sentido de “tornar real”, mostrar a mim mesmo o que sou a partir daquilo que faço, e “to realise”, na acepção de “dar-me conta”. Isso significa a minha consciência.

Tanto que muita gente hoje se recusa a atuar em algumas atividades que sejam danosas à vida coletiva. A dinâmica da relação muda: não é só um emprego onde faço o que me mandam. Preciso saber para o que serve o que estou fazendo. Não quero ser apenas um inocente útil. Desejo que a minha atividade seja consciente.

A ideia de vida com propósito retoma um princípio do pensador alemão Karl Marx, do século XIX: a recusa à alienação. Alienado é aquele que não pertence a si mesmo. Em latim eram usadas duas expressões para falar do não eu. O eu é ego. E o não-eu pode ser alter, que é “o outro”, ou alius, que é “o estranho”, de onde vêm “alienígena”, “alheio”, “alienação”.

O conceito de alienação – elaborado originalmente na Modernidade pelo filósofo alemão Hegel – se refere a tudo aquilo que eu produzo, mas não compreendo a razão. Isto é, sou apenas uma ferramenta para que as coisas aconteçam, mas não decido sobre o destino das minhas ações. Esse é um conceito forte, uma vez que o trabalho alienado provoca uma série de desconfortos nas pessoas. Eu, trabalhador, colaborador, funcionário, quero ter clareza daquilo que faço, porque isso dá mais sentido a mim mesmo.

Reconhecimento é uma questão-chave nessa busca por sentido. Eu preciso me reconhecer nas atividades que exerço, usando um termo de Hegel, isto é, devo objetivar a minha subjetividade. Hegel dizia que fazíamos as coisas para nos objetivarmos. Eu sou uma subjetividade, mas eu não sei o que sou a não ser naquilo que faço. Porque quando faço algo, eu me “re-conheço”, isto é, eu conheço a mim mesmo de novo.

Aceito o fato de que sou uma subjetividade enclausurada dentro de mim, mas, como isso é absolutamente abstrato, só sei o que sou quando me vejo fora de mim. E eu me vejo fora quando tenho minha obra feita. Então, me realizo. Sou o que eu faço. Se sou o que eu faço, e não o que eu penso de mim, aquilo que eu faço tem uma necessidade.

Desse ponto de vista, Hegel pode ser considerado um filósofo idealista, uma vez que para ele o ponto de partida do mundo é a ideia. A cultura, obra humana, vem porque eu preciso me realizar. Marx inverte isso. “Não, o que faz com que eu faça é a necessidade.” Ambos se diferenciam em relação ao ponto de partida. Para Hegel, eu faço o que faço porque preciso me ver fora de mim. Para Marx, eu faço o que faço porque preciso fazer e aí eu me reconheço. Repito, o que os diferencia é o ponto de partida. Qual o impulso original? Para Hegel, é o espírito que tem necessidade de se mostrar. Para Marx, é o corpo que tem de ser sustentado e, para isso, o espírito precisa se elaborar.

No campo da filosofia, existe uma formulação clássica segundo a qual o trabalho pode ser sintetizado como uma ação transformadora consciente. Todo animal tem ação, alguns têm ação transformadora, e nós, humanos, temos ação transformadora consciente. Nós sabemos por que fazemos algo. E não só fazemos porque queremos; muitas vezes, apesar de não querermos e sabermos disso, também sabemos porque estamos fazendo. Nesse sentido, a ideia de ação transformadora consciente nos distingue de outros animais em relação ao esforço para existir.

Para traduzir essa condição, os gregos usavam a expressão práxis. Não importa o que eu faça, tudo o que em mim não for impulso da natureza, mas uma decisão e intervenção da minha parte, é práxis. Até a atividade de coleta e armazenamento de alguns de nossos ancestrais é práxis. Enquanto a nossa espécie saía pelo mundo coletando e comendo no local, ela ainda estava num estágio da evolução pouco marcado pela ideia de práxis. Mas, no momento em que passa a guardar o resultado da coleta com a intenção de utilizar no futuro, esta passa a ser uma ação transformadora consciente. Por exemplo: quando começamos a trazer água em vez de nos deslocarmos até a fonte toda vez que sentíamos sede. Isso é uma ação transformadora consciente, portanto, trabalho.

Somos seres que têm de construir a própria realidade. E a noção de trabalho é tão forte entre nós que perpassa outras esferas da nossa vida. Até a noção que temos de saúde está ligada à ideia de trabalho. Você só se considera saudável quando pode voltar a trabalhar, não quando é capaz de passear, transar, cantar, dançar.

O propósito original do trabalho é que não nos deixemos morrer. Afinal de contas, somos seres de carência, de necessidade. Ou construímos o nosso mundo ou não há como existir.

Em relação a isso, foi feito um cálculo curioso. Somos hoje mais de 7 bilhões de humanos, mas, se fôssemos um animal que não trabalhasse, que não tivesse uma ação transformadora consciente e vivesse como os outros animais, apenas da natureza, stricto sensu, seríamos no máximo 10 milhões da nossa espécie. A começar pelo fato de que só poderíamos viver em regiões muito delimitadas do planeta. A região dos polos e a área temperada estariam excluídas, viveríamos numa faixa subsaariana onde seríamos capazes de encontrar um clima propício para a existência de coleta, sem predadores e com uma natureza que não fosse rarefeita. Nós, no entanto, só fomos além dos 7 bilhões porque, em vez de vivermos na natureza, vivemos com ela e dela.

Por incrível que pareça, a nossa ação no mundo é antinatural, é um enfrentamento da natureza, e, apesar disso não implicar um caráter destrutivo, é uma luta contra. Basta lembrar, por exemplo, de qual seria o caminho natural de uma inflamação aguda do apêndice ou um ferimento infeccionado. A septicemia e a morte sequente. Nós enfrentamos isso, lutando contra, por meio de uma cirurgia “antinatural” ou de medicamentos sintéticos, pois não são frutos da natureza. A natureza é algo que se opõe a nós e, ao se opor, nós a transformamos.

Essa transformação, do ponto de vista teórico, é chamada de trabalho.

Temos de trabalhar! Podemos fazê-lo para mera obtenção da sobrevivência ou também como um modo de marcar nossa presença no mundo!

Mario Sergio Cortella é filósofo, escritor, com mestrado e doutorado em educação e professor-titular da PUC-SP, com docência e pesquisa na Pós-Graduação em Educação. Foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo (1991-1992), tendo antes sido Assessor Especial e Chefe de Gabinete do prof. Paulo Freire. Comentarista da Rádio CBN nos programas Academia CBN e Escola da Vida.

 

 

Por que fazemos o que fazemos?

Mario Sergio CortellaEditora Planeta 176 páginas Lançamento previsto para julho de 2016

 

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