'Cabo de guerra' - entre a traição e a sobrevivência


O ‘Nexo’ traz um trecho inédito do novo livro de Ivone Benedetti, um romance contado durante a ditadura militar brasileira

Eu era um forasteiro em São Paulo. Nessa situação, só as incertezas ganham consistência. Desculpas, desculpas… Outros forasteiros tinham certezas. Estes, por alguma razão, não devem ter sentido aqui a vertigem do esfarelamento, como eu senti. Arrancado do mundo estável de Nazaré, eu guardava da segurança uma lembrança vaga, embalos de infância, só. Aqui sempre fui exilado. Imagine-se um sujeito como eu metido numa guerra que não lhe pertence. Entrei nela sem fazer nada e nada fiz para sair. Foi tudo por via de empurrões. Quero dizer que quem faz guerras sempre se guia por algum tipo de trilho ou bitola. Eu não tinha nenhum. Os meus tinham ficado em Nazaré, debaixo de um trem preguiçoso, sem fôlego para a ladeira. No chão de São Paulo nunca achei nenhum, e os que via arrancados e jogados avenida da Liberdade acima me pareciam a verdadeira metáfora desta cidade. E de mim nela.

Eu tinha um nome de guerra em cada um dos lados da guerra e atendia bem pelos dois. A diferença era que um dos lados conhecia meu rg, como se diz em São Paulo, e o outro não, o que me dava vantagem sobre este último. Estava claro que eu podia agir como bem entendesse com os que nada sabiam de mim, mas podia agir de um único modo com os que tudo sabiam: o modo que eles determinassem. Na prática, embora a decisão não tivesse sido minha, o meu compromisso era com estes. Ter muitos apelativos equivale a ser anônimo, a ser uma ficção. Era como me sentia, nem falso nem verdadeiro, invenção movida pelo controle remoto de seus inventores.

Pesar prós e contras do que fazia ou deixava de fazer é coisa que eu nunca soube. Sei explicar e escusar. Justificar, só depois, nunca antes. Quando eu tinha treze anos, numa de nossas raras conversas, meu pai me aconselhou a nunca pedir desculpas pelo que fizesse, e o melhor jeito para isso é não ter culpas. A primeira parte do conselho sempre me pareceu fácil seguir, a segunda ainda hoje é um mistério. Perdidos os trilhos, perdeu-se a bitola. Entrei naquele estado em que se aceita o inevitável por correto.

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