'Cabo de guerra' - entre a traição e a sobrevivência


O ‘Nexo’ traz um trecho inédito do novo livro de Ivone Benedetti, um romance contado durante a ditadura militar brasileira

Eu era um forasteiro em São Paulo. Nessa situação, só as incertezas ganham consistência. Desculpas, desculpas… Outros forasteiros tinham certezas. Estes, por alguma razão, não devem ter sentido aqui a vertigem do esfarelamento, como eu senti. Arrancado do mundo estável de Nazaré, eu guardava da segurança uma lembrança vaga, embalos de infância, só. Aqui sempre fui exilado. Imagine-se um sujeito como eu metido numa guerra que não lhe pertence. Entrei nela sem fazer nada e nada fiz para sair. Foi tudo por via de empurrões. Quero dizer que quem faz guerras sempre se guia por algum tipo de trilho ou bitola. Eu não tinha nenhum. Os meus tinham ficado em Nazaré, debaixo de um trem preguiçoso, sem fôlego para a ladeira. No chão de São Paulo nunca achei nenhum, e os que via arrancados e jogados avenida da Liberdade acima me pareciam a verdadeira metáfora desta cidade. E de mim nela.

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