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Os vegetais têm muito a ensinar aos seres humanos, segundo o botânico Stefano Mancuso. Em livros de divulgação científica, o pesquisador italiano mostra como a observação deles pode ajudar na resolução de problemas e questões estruturais da vida em sociedade

Stefano Mancuso é um italiano apaixonado por plantas. Ele é botânico e afirma que estudá-las é fundamental para se entender mais sobre a vida humana. “Se uma nave extraterrestre chegar ao planeta Terra, a tripulação seguramente se dirigiria às plantas, já que elas constituem 81,8% do nosso planeta”, disse Mancuso ao jornal The New York Times em junho de 2019.

Além de pesquisar sobre as plantas, Mancuso tem como missão divulgar os estudos do mundo vegetal para o grande público. Em 2013, lançou “Verde brilhante”, que já foi traduzido para 21 línguas. No livro, apresenta o conceito da neurobiologia vegetal – o estudo do comportamento das plantas a partir de suas funções celulares.

Considerado o primeiro cientista a se aprofundar nesse campo de estudo, Mancuso lançou em 2017 o livro “A revolução das plantas”, publicado no Brasil em 2019 pela Ubu Editora. Na obra, o botânico apresenta mecanismos presentes nas mais diversas plantas, e que poderiam de alguma forma serem incorporados à vida humana, seja para o avanço tecnológico, seja para uma convivência social mais saudável.

“Dos materiais à autonomia energética, da resistência às estratégias adaptativas, as plantas encontraram desde tempos imemoriais as melhores soluções para a maioria dos problemas que afligem a humanidade. Basta saber como e onde procurar”, Mancuso escreve no prefácio de “A revolução das plantas”.

O autor aponta que cerca de 2.000 espécies de plantas são descobertas anualmente, desde vegetais microscópicos a árvores de mais de 40 metros, como é o caso da Gilbertiodendron maximum, presente nas florestas do Gabão. Para ele, estudar as propriedades de todas essas plantas pode ajudar a moldar o futuro da humanidade.

Em seu livro mais recente, Mancuso explica algumas propriedades das plantas – que usualmente não associaríamos aos vegetais. O botânico mostra que plantas podem ter memória. Podem se movimentar. Têm uma espécie de visão. E ainda uma forma de comunicação.

Ele nota que muitas das características de sobrevivência e convivência das plantas são opostas àquelas presentes nos animais: enquanto indivíduos do reino Animalia tomam decisões para solução de problemas a partir de mudanças, os espécimes do reino Plantae resolvem seus dilemas a partir de adaptação, aumentando suas chances de sobrevivência.

“As plantas são a representação viva de como a solidez e a flexibilidade podem ser combinadas”, segundo Mancuso.

Tal fenômeno, segundo o autor, pode ser explicado pelo fato de que as plantas não têm um órgão central como o cérebro animal – o que permite a elas uma percepção mais abrangente do ambiente que as rodeia. “Qualquer função que nos animais é confiada a órgãos específicos, nas plantas é espalhada por todo o corpo”, escreve Mancuso.

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A memória sem cérebro

As plantas lembram. E a ideia de uma memória vegetal não é nova. Um dos pais da biologia moderna, o naturalista francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, mais conhecido como cavaleiro de Lamarck (1744-1829), começou a estudar o mecanismo que permite às plantas da espécie Mimosa pudica, a planta dormideira, se fechem ao menor contato de sujeito externo.

Lamarck conduziu diversos experimentos com a Mimosa pudica. E notou que, depois de determinado ponto, as folhas da planta paravam de fechar. Em um primeiro momento, o biólogo imaginou que tal fato se dava pelo cansaço das plantas, o esgotamento total de reservas energéticas.

Porém, depois, ele notou que, em outros experimentos, as folhas paravam de fechar antecipadamente, logo nos primeiros testes. Lamarck passou a trabalhar com a hipótese de que as plantas se acostumaram com os toques, e, por isso, pararam de fechar.

A hipótese de Lamarck foi apoiada em um experimento realizado pelo botânico francês René Desfontaines (1750-1833). O cientista havia mandado um de seus estudantes levar consigo alguns vasos de Mimosa pudica em uma carruagem, que andaria pelas ruas de Paris.

O estudante, que não teve seu nome registrado, notou que as folhas da dormideira fechavam à menor trepidação da carruagem. Mas depois de algumas voltas pelas ruas, todas elas retornaram ao seu estado natural. Ou seja: tinham se acostumado à situação. Desfontaines e Lamarck não conseguiram ir muito além no entendimento desse fenômeno.

Um estudo aprofundado dos mecanismos da Mimosa pudica só foi feito em 2013, quando Monica Gagliano, pesquisadora da Universidade do Noroeste da Austrália, se transferiu para o laboratório de Mancuso e passou a pesquisar a espécie.

Gagliano e Mancuso preparam um experimento no qual derrubavam vasos de Mimosa pudica de uma altura de dez centímetros. Eles notaram que, após a sétima ou oitava interação, as plantas pararam de fechar suas folhas.

O resultado foi publicado na revista alemã Oecologia, e Gagliano concluiu que a memória da Mimosa pudica dura por volta de 40 dias, um tempo superior ao da memória de muitos insetos, e semelhante ao de animais maiores.

Pouco se sabe como o mecanismo de memória das plantas funciona de forma precisa. Uma hipótese, levantada por pesquisadores liderados por Karissa Sanbonmatsu e publicada pela revista Cell Reports, demonstra que em algumas espécies de plantas existe uma sequência no RNA, a molécula que sintetiza as proteínas presentes nas células, que as permite desenvolver uma noção de tempo, para que possam florescer após o fim do inverno.

Mancuso argumenta que entender como funciona a memória das plantas pode ser peça-chave no aprofundamento das pesquisas que estudam a memória humana. Além disso, o entendimento desse mecanismo de funcionamento do mundo vegetal pode servir para aprimorar diversas tecnologias contemporâneas.

“Ao contrário do que se poderia pensar, a importância desses estudos vai além do interesse botânico puro, embora elevado: entender o funcionamento da memória em seres sem mente, além de resolver o mistério de como as plantas lembram, também serve para entender melhor a memória humana; quais mecanismos levam a suas alterações ou patologias e como formas particulares da memória podem ser localizadas mesmo fora do sistema nervoso. Além disso, qualquer descoberta sobre o funcionamento biológico da memória é valiosa para as aplicações tecnológicas. Em outras palavras, qualquer avanço na pesquisa sobre essas questões é de interesse geral e tem um potencial que atualmente não podemos imaginar”— MANCUSO, Stefano. “A revolução das plantas”, p.25

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A visão sem olhos

As plantas veem. E o terceiro capítulo de “A revolução das plantas” foca na mimese, a capacidade de um ser enviar um sinal (visual, olfativo, auditivo) para outro, a fim de influenciar seu comportamento, numa tentativa de aumentar suas chances de sobrevivência. O camaleão, a cobra coral falsa e a borboleta monarca são exemplos de animais com capacidades miméticas.

Por muito tempo acreditou-se que a mimese era característica exclusiva dos animais. O estudo do fenômeno na contemporaneidade se intensificou em 2013, quando o botânico italiano Ernesto Gianoli descobriu que a Boquila trifoliata, planta trepadeira comum no Chile e na Argentina, também apresentava esses mecanismos.

Gianoli percebeu o fenômeno ao andar por uma floresta no Chile. Lé ele viu que as folhas de um espécime da Boquila trifoliata estavam imitando as folhas da espécie na qual ele havia subido. O botânico seguiu estudando o fenômeno, e percebeu que a Boquila trifoliata tem a capacidade de imitar as plantas nas quais se abriga, alterando o formato, o tamanho e a cor de suas folhas várias vezes. O resultado da pesquisa de Gianoli foi publicado pela revista Current Biology , uma das mais importantes do mundo.

Embora os mecanismos que permitem a mimese nas plantas não tenham sido estudados de maneira aprofundada, Mancuso levanta a possibilidade de que isso aconteça por algo que ele chama de “visão das plantas”.

A ideia, que parece tirada de um filme de ficção científica (algo que o próprio autor admite), é fundamentada em um estudo feito pelo biólogo austríaco Gottlieb Haberlandt (1854-1945), o primeiro a pesquisar os tecidos formativos das plantas.

Haberlandt propôs que as plantas seriam capazes de perceber imagens, a partir de uma capacidade visual rudimentar presente em suas células epidermais, algo semelhante aos ocelos, olhos primitivos que se apresentam em diversos invertebrados. Embora Mancuso não consiga apresentar evidências que comprovem de forma definitiva sua hipótese, ele diz acreditar que ela seja bastante provável.

“Um organismo é um sistema aberto, no qual a informação flui para o ambiente e vice-versa. Em síntese, cada ser troca com o mundo que o rodeia os elementos que lhe permitem sobreviver. Essa é a razão pela qual a comunicação é uma característica essencial da vida. Sem ela, mesmo os organismos mais simples não teriam a possibilidade de manter o equilíbrio delicado que representa a própria vida. Portanto, reconhecer objetos, membros da própria espécie, perigos e assim por diante é uma necessidade à qual todo ser vivo deve responder a todo momento. A interação com outros organismos em certos momentos do ciclo de vida é, portanto, uma necessidade inexorável, que se manifesta por meio da emissão ou da recepção de mensagens”— MANCUSO, Stefano. “A revolução das plantas”, p.41

A visão das plantas e sua capacidade mimética são algo que pode ser explorado para fins agrícolas, de acordo com Mancuso.

Para ilustrar sua ideia, ele usa como exemplo o centeio, cereal consumido no mundo inteiro, e que originalmente era visto como uma praga nas plantações de trigo e de cevada. Porém, ao longo dos anos, passou a mimetizar características das outras duas plantas, e de praga se tornou forma de cultivo ao redor do mundo, há pelo menos 3.000 anos.

Para Mancuso, é importante estudar a capacidade mimética das plantas a fim de se descobrir como muitas delas podem se tornar alimento para os seres humanos, ampliando a variedade de vegetais que comemos.

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O movimento sem pernas

As plantas também se movem. E Mancuso trata disso no quarto capítulo de seu mais recente livro. O tema é estudado desde 1898, quando o botânico alemão Wilhelm Friedrich Philipp Pfeffer (1845-1920) produziu um filme usando a técnica do time lapse (aceleração das imagens) para demonstrar como vegetais se movem no espaço.

 

Os biólogos da época ficaram estupefatos com o que viram, e desde então o tema é pesquisado ao redor do mundo.

As plantas apresentam dois tipos de movimentos, os ativos e os passivos. Os ativos exigem consumo de energia interna, enquanto os passivos dependem de fatores ambientais para acontecerem.

Os movimentos ativos são causados por mudanças na rigidez das células, em razão de alterações no fluxo de água nas membranas celulares. A abertura e o fechamento das folhas da Mimosa pudica, por exemplo, é um movimento ativo.

Em “A revolução das plantas”, Mancuso se debruça sobre os movimentos passivos. Segundo ele, estudar esse tópico do mundo das plantas pode ser essencial para o desenvolvimento de novas tecnologias.

Um caso exemplar disso é um polímero desenvolvido pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, dos EUA, na sigla em inglês). O projeto foi conduzido sob liderança de Mingming Ma, pós-doutorando em nanotecnologia, que trabalha no Instituto de Pesquisas Integrativas do Câncer.

O polímero de Ma, apresentado na forma de uma película plástica, é capaz de realizar movimentos rápidos de expansão e de contração e de levantar objetos 380 vezes mais pesados que ele, tudo a partir da troca de água com o ambiente.

Combinando o polímero a um cristal piezoelétrico, comum em relógios de pulso, os pesquisadores conseguiram produzir eletricidade com uma voltagem de cerca de 1 volt em seu pico, apenas usando a troca de umidade com o ambiente.

Mancuso afirma que uma tecnologia desse tipo pode ser capaz de fornecer energia a uma miríade de dispositivos com um baixo consumo de eletricidade, como relógios munidos de sensores que medem dados clínicos de um indivíduo – como temperatura e pressão.

“As plantas – que representam quase toda a vida na Terra –, até então percebidas mais como objetos do que como seres vivos, começaram a revelar seus mistérios e a variedade desconcertante de seus movimentos. Foi uma verdadeira revolução, que afetou a percepção das pessoas comuns; aqueles que até então tinham olhado para uma roseira ou uma tília como algo esteticamente agradável, mas quase inanimado, começaram a mostrar novo interesse e respeito pela botânica”— MANCUSO, Stefano. “A revolução das plantas”, p. 62

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A comunicação sem palavras

As plantas se comunicam. Esse é o tema de que Mancuso trata no sexto capítulo de seu livro, em que aborda o que chama de “democracias verdes”. Aqui, o botânico italiano estabelece, de maneira abstrata, a diferença primordial entre os animais e as plantas para a tomada de decisões: enquanto os animais resolvem seus problemas por meio de mudanças no comportamento, as plantas solucionam suas questões por meio da adaptação.

Enquanto a mudança é caracterizada por alterações, bruscas ou não, de comportamento, a adaptação funciona a partir da integração do ser vivo ao ambiente que o cerca.

O autor aponta que a comunicação das plantas se dá por meio das raízes, com os espécimes se organizando em uma “inteligência coletiva”, com módulos individuais que passam a compor um todo – um sistema semelhante a uma colônia de formigas.

Porém, a diferença crucial entre a organização social de formigueiros e de plantas está no fato de que os vegetais operam em um sistema descentralizado, com a tomada de decisões sendo feitas coletivamente.

Um estudo aprofundado da comunicação das plantas foi realizado em 2018, pelo biólogo sueco Velemir Ninkovic, que pesquisou como pés de milho se comunicam por meio da troca de secreções a partir de suas raízes.

“Toda organização na qual a hierarquia confia a poucos a tarefa de decidir por muitos está inexoravelmente destinada a fracassar, sobretudo em um mundo que requer acima de tudo soluções diferentes e inovadoras. O futuro precisa tomar para si a metáfora das plantas. As sociedades que no passado se desenvolveram graças a uma rígida divisão funcional do trabalho e a uma estrita estrutura hierárquica devem, no futuro, estar ao mesmo tempo ancoradas no território e descentralizadas, deslocando o poder decisório e as funções de comando para as várias células de seu corpo e transformando-se de pirâmides em redes distribuídas horizontalmente” — MANCUSO, Stefano. A revolução das plantas”, p. 123

Mancuso argumenta que a ordem sempre foi vista como um ponto positivo para o desenvolvimento das sociedades. Mas também que é possível criar um sistema ordeiro e ao mesmo tempo flexível – que mantenha apenas o necessário para a sobrevivência, dando total liberdade para os indivíduos resolverem questões que não são essenciais da maneira que quiserem.

Mancuso afirma que o sistema democrático contemporâneo é um mecanismo político que reflete a vaidade de poucos indivíduos que desejam o poder. Para ele, uma organização social mais descentralizada como a das plantas pode ser eficiente para o ser humano.

Como exemplo, Mancuso cita a Wikipédia , site de acesso livre, sem uma organização hierárquica, que permite que qualquer um consulte conteúdos de diversos assuntos ao mesmo tempo em que qualquer um pode incluir novos verbetes e editar aqueles que já estão disponíveis. Ele também enxerga as cooperativas como uma reprodução mais próxima do modelo de organização vegetal.

Segundo o cientista, quanto mais seguirmos esse modelo em nossa organização sociopolítica, mais perto estaremos de resoluções eficientes de problemas. Ao emular os vegetais, os seres humanos poderão potencializar as suas próprias virtudes. As plantas lembram, veem, se movem e se comunicam – e nos ensinam.

“Em 2050, na Terra, seremos 10 bilhões de pessoas, 2 bilhões e meio a mais do que somos hoje. Muitos estão alarmados com esse enorme crescimento populacional, porque acreditam que não haverá recursos suficientes. Não pertenço a esse grupo. Dois bilhões e meio de cabeças pensantes, desde que sejam livres para criar, não são um problema, mas um enorme recurso. Dois bilhões e meio de pessoas serão capazes de resolver qualquer problema, desde que sejam livres para pensar e inovar. Pode parecer um paradoxo, mas no futuro próximo teremos que nos inspirar nas plantas para recomeçarmos a nos mover” — MANCUSO, Stefano. “A revolução das plantas”, p. 125

Produzido por Cesar Gaglioni

Desenvolvimento por Jéssica Oliveira

Layout por por Thiago Quadros

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