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Nas últimas décadas, o cinema brasileiro construiu um rico painel das questões políticas, sociais e ambientais da Amazônia. Aqui estão alguns dos trabalhos mais relevantes

Iracema é uma adolescente indígena que se prostitui na periferia de Belém. Ela se relaciona com Tião “Brasil Grande”, caminhoneiro que faz apologia do “progresso” e transporta madeira ilegal. Os dois são os protagonistas de “Iracema - Uma transa amazônica”, filme de Jorge Bodanzky de 1975 que, entre documentário e ficção, metáfora e literalidade, é considerado um marco no cinema que registra a Amazônia.

Historicamente, a Amazônia sempre figurou na imaginação brasileira como um território misterioso e inóspito. Ao longo das últimas décadas, documentários e filmes de ficção, muitas vezes realizados em condições adversas, tiveram um papel importante em apresentar as questões ligadas à região.

As disputas e problemas de décadas atrás continuam em grande parte sem solução. Em muitos casos, se agravaram por causa de projetos de desenvolvimento e iniciativas no Congresso contra garantias legais de populações locais e contra proteções ao meio ambiente, sem falar na impunidade de matadores e criminosos que continua sendo a regra na região.

O quadro atual é uma das motivações por trás do panorama de filmes ligados à Amazônia realizado pelo festival Ecofalante, que explora a convergência entre cinema e meio ambiente. De acordo com o diretor do festival, Chico Guariba, olhar para o que já se filmou sobre a região tem um caráter educativo para entender o hoje, em especial “pela forma que a Amazônia está sendo explorada e pelos retrocessos em termos de legislação que estão acontecendo no país”.

Neste especial sobre a Amazônia em filme, incluímos alguns dos títulos selecionados para a mostra do Ecofalante ao lado de outros dentro da mesma temática, mas que não fazem parte da programação.

Registros Iniciais

Os primeiros filmes que tratam da região amazônica são da primeira metade do século 20. Entre os pioneiros, se destaca o trabalho do major Thomaz Reis, que acompanhava as expedições do marechal Cândido Rondon entre 1917 e 32. Além dele, boa parte dos registros ficava a cargo de etnólogos e antropólogos (entre eles o belga Claude Lévi-Strauss), cuja missão era essencialmente de documentação.

Ainda não havia o tom crítico e de denúncia das gerações posteriores, mas nem por isso eram desprovidos de recorte. “Esses filmes mostravam como os índios estavam sendo integrados, eles apareciam colocando roupa, tomando vacina”, explicou ao Nexo o crítico de cinema José Geraldo Couto, que assina texto sobre o panorama da Amazônia no site da mostra Ecofalante. “Indiretamente, acabam revelando o olhar que estava sendo lançado sobre esse índios.”

Durante a ditadura militar, se consolidou o discurso desenvolvimentista de integrar a região por meio de migração interna, construção de estradas e exploração das riquezas. Na Rede Globo, o programa do jornalista Amaral Netto carregava nas tintas ufanistas ao acompanhar pelotões do Exército em áreas fronteiriças da região.

 

O lado B da Amazônia

Foi neste tempo que, teimosamente, alguns cineastas começaram a tentar mostrar uma outra Amazônia através de suas lentes. Desde a década de 1960, o documentário brasileiro, em alinhamento com o cinema novo, vinha se engajando na crítica social e política do Brasil. O lado B do triunfalismo dos discursos oficiais sobre a Amazônia (e seus apologistas como Amaral Netto) começava a ser exposto. Ele não era exuberante nem glorioso.

Cenas de penúria social nas cidades, opressão a indígenas, devastação ambiental e violência vieram à tona. De lá para cá, diretores e documentaristas brasileiros vêm retratando as disputas e dramas da Amazônia em diversas abordagens e fazendo uso de linguagens variadas.

O festival de cinema Ecofalante traz em sua edição de 2017 um panorama com seis filmes de ficção que abordam a região. A retrospectiva se inicia com “Uirá, um Índio em Busca de Deus”, de Gustavo Dahl, de 74, e vai até “Brincando nos campos do senhor”, de Hector Babenco, de 91. A conexão amazônica no evento continua com o tributo ao cineasta franco-brasileiro Vincent Carelli, cuja filmografia dedicada às questões indígenas abordou a região de diversas maneiras.
 

“Esses cineastas foram desbravadores e extremamente corajosos”, afirma Chico Guariba, cineasta e diretor do festival Ecofalante. “Na época, já tinha a violência, com o estímulo do Estado. Os militares incentivaram a ocupação, as grandes empresas. A corrupção de hoje começou ali”.

Um filme “não brasileiro”

Jorge Bodanzky se interessou pela Amazônia quando foi fotografar as obras da rodovia Transamazônica para a revista “Realidade”. Viu de perto os problemas sociais e ambientais gerados pelo projeto. “Foi observando a movimentação na beira da estrada que surgiu a ideia de mostrar o que acontecia em torno da Transamazônica por meio de dois personagens: uma prostituta e um motorista de caminhão”, explicou o cineasta à revista “Trópico” em 2003. “O filme foi na contramão de uma maneira muito sarcástica, com um personagem cínico que revela muito da postura desenvolvimentista predatória”, na avaliação de José Geraldo Couto.

Financiado por uma emissora de TV alemã, “Iracema” não foi reconhecido pelo governo brasileiro da época. A alegação era de que o filme não havia sido apresentado à censura e não possuía o registro do Conselho Nacional de Cinema (o Concine). “Assim que ele foi exibido na TV alemã, a Embaixada brasileira, através do adido militar, mandou uma carta para a emissora ressaltando que o filme não era brasileiro. A cada convite para apresentar ‘Iracema’ em festivais internacionais a situação se repetia: a embaixada afirmava que ele não era um filme nacional”.

 

Trazendo atores para uma ambientação real, com figurantes reais, o filme também inaugura uma linguagem que depois será repetida em outras obras que têm a Amazônia como foco: a mistura de ficção com documentário.

Bodanzky voltou ao tema diversas vezes em sua filmografia, por meio de documentários como “Jari” (79) e “Terceiro milênio” (81), até os mais recentes “No meio do rio, entre as árvores” e “De volta ao terceiro milênio”, respectivamente, de 2010 e 2011.

Massacre e genocídio

Zelito Viana realizou seu documentário “Terra dos Índios”, de 1978, com recursos da Embrafilme. Mesmo com o apoio oficial, ao percorrer diversas regiões do país, os conflitos entre o cineasta e funcionários do Incra e da polícia eram frequentes. “A reportagem não era bem-vista. Às vezes, tinha que dizer que era da Rede Globo pra me safar”, contou o diretor ao Nexo.

Segundo Viana, quando mostrou o documentário a um índio cherokee, nos Estados Unidos, este teria dito “vão morrer todos eles”, em referência às pessoas que aparecem diante das câmeras. “Eu fiquei gelado. E era verdade. Mataram todos eles. É uma tragédia. Praticamente todos os índios que eu entrevistei, que defendiam a posse da terra, foram assassinados”, declarou.

Na década de 1980, Viana voltou à questão indígena, mas pelo caminho da ficção. Seu “Avaeté – Semente da Vingança” é brutal, baseado em um episódio verdadeiro: o massacre do povo Cinta-larga, no Mato Grosso, em 1963 e que resultou no primeiro caso de repercussão internacional negativa para o Brasil por conta de violência contra indígenas. A obra de Viana registra a recorrência de tais temas e das situações de violência.

 

A mesma questão envolvendo a relação com a terra, mas sob outro ponto de vista, é o tema da ficção “Fronteira das Almas”, realizada em 1987 por Hermano Penna (que também assina o roteiro de “Iracema”). No filme, agricultores brancos, que migraram do sul do país, enfrentam problemas para se assentar em áreas designadas pelas autoridades. A obra revela a falta de planejamento e continuidade dos programas que visavam a ocupação da Amazônia por novas populações. Suas vítimas são indígenas, mas também brancos pobres.

“As pessoas são atores de um jogo. De um sistema que infelizmente não reconhece os direitos dos pequenos,” resume o diretor. “É a história brasileira, é um país que não é uma nação. Quem é mais poderoso é que leva a melhor.”

O olhar indígena

Em meados dos anos 1980, o franco-brasileiro Vincent Carelli inicia com sua esposa, a antropóloga Virgínia Valadão, o projeto Vídeo nas Aldeias, em que coloca uma câmera na mão dos indígenas. É um raro momento de olhar não estrangeiro nos registros a respeito da Amazônia. Ao todo, 70 documentários foram produzidos dentro do projeto, hoje ameaçado por falta de financiamento.

Em entrevista à revista “Trip” neste ano, o diretor declarou que o projeto é importante porque “numa sociedade da informação como a nossa, uma minoria étnica só sobreviverá se tiver um espaço de expressão nacional. Além de serem minoria, os índios muitas vezes habitam áreas remotas. [O Vídeo nas Aldeias] é importante para o registro da memória e do patrimônio cultural deles e também para sua visibilidade e seu reconhecimento nacional.”

 

Da década de 1990 em diante, a produção de obras de ficção que têm a Amazônia como foco perde fôlego. Guariba, do Ecofalante, chega a falar em “apagão”. “Até a [conferência ambiental] Eco 92, a região estava muito presente nas discussões. De meados da década em diante, isso desaparece”, lamentou.

A produção se tornou mais inconstante, mas títulos relevantes não deixaram de aparecer nas últimas duas décadas. “Serras da desordem” (2006), de Andrea Tonacci aposta em inovações estéticas para trazer outro relato de massacre de indígenas por pistoleiros, um dos temas recorrentes nas telas e na vida real. Já “Xingu” (2012), de Cao Hamburger, com produção de Fernando Meirelles e participação de atores globais, volta no tempo para retratar os irmãos sertanistas Villas-Bôas. Há um esforço em apresentar os sertanistas com todas as contradições intrínsecas à sua atividade, evitando colocá-los na posição de heróis.

Entre 2010 e 2012, dois filmes bem diferentes trazem os Yanomami como personagens. O mais conhecido é “Segredos da tribo”, de José Padilha, que não se concentra exatamente no povo indígena, mas nos antropólogos que os estudaram, trazendo denúncias pesadas sobre os pesquisadores, incluindo pedofilia e assassinato. “Xapiri”, dirigido por Leandro Lima, Gisela Motta, Laymert Garcia dos Santos, Stella Senra e Bruce Albert, é uma produção experimental e lisérgica que aposta no aspecto sensorial. O foco é o mundo imagético e sonoro dos Yanomami, incluindo uma tentativa de reproduzir uma alucinação xamânica.

Entre os documentários, “Chico Mendes, cartas da floresta” (2009) e “Mundurukânia - Na beira da história” (2015) apostam em narrativas de resistência. O primeiro, dirigido pela jornalista Dulce Queiroz, procura investigar as consequências da luta do ativista acreano. “Queríamos saber, 20 anos depois, até que ponto as reservas extrativistas — idealizadas por Chico — tinham se desenvolvido e de que forma o assassinato dele havia produzido efeitos na vida dos seringueiros da Amazônia”, declarou a diretora ao site Somos Verdes.

No segundo, a batalha dos Munduruku pela preservação de seu território ancestral diante do avanço de mineradoras e, especialmente, da construção da usina de Belo Monte, no rio Tapajós. Dirigido por Miguel V. Castro, conta com participação de mundurukus na equipe. O filme enfatiza a importância dos sítios arqueológicos como forma de estabelecer os vínculos do povo com o solo em que vivem.

“Amazônia Eterna”, por Belisário França (2014), também aposta na esperança. O filme percorre nove projetos em estados amazônicos que geram renda de forma sustentável. Em uma reserva perto de Santarém, por exemplo, artesãos desenvolvem uma iniciativa de recuperação e reutilização da madeira. O filme foi exibido na Rio+20, conferência sobre meio ambiente realizada em 2012.

 

Um salve-se quem puder

Na opinião dos diretores ouvidos pelo Nexo, os assuntos de décadas anteriores continuam vivos. Por outro lado, nesse mesmo período, o contexto piorou, seja pela atuação das bancadas ruralistas no Congresso ou pelo aumento da violência na região. Em fins de maio de 2017, por exemplo, dez sem-terra foram mortos pela Polícia Militar em um conflito em Redenção, sul do Pará, em um crime de repercussão nacional.

“Na época dos militares em Rondônia, pode-se dizer que a intenção era até boa, ainda que fossem coisas mal feitas e mal pensadas”, lembra o cineasta Hermano Penna. “Isso desapareceu completamente. Hoje é um salve-se quem puder, é o poder da bala, das bancadas do Congresso Nacional.”

Para Chico Guariba, filmar na região se tornou arriscado, talvez mais que na época da ditadura. “Acho que hoje é muito mais difícil filmar, a violência é muito explícita, mesmo para a televisão. Se pegar uma televisão chegando pra filmar no sul do Pará, as pessoas atacam dependendo do caso. Se for algo de exploração de madeira, por exemplo, eles atacam, atacam Ibama, atacam até o Estado”, lamenta.

 

ESTAVA ERRADO: Na primeira versão deste texto, a direção do filme "A Arca dos Zo'é" foi creditada a apenas Vincent Carelli. Ele é dirigido por Carelli e Dominique Gallois. A informação foi corrigida às 13h04 de 1 de junho de 2017

Produzido por Camilo Rocha Arte por Guilherme Falcão© 2017 Nexo Jornal

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