A história do Rio de Janeiro em sete mapas

De cidade amedrontada à metrópole cosmopolita, o Rio mudou bastante ao longo dos séculos; veja como a cartografia registrou essa evolução

    Fundação

    Fundada em 1565, a cidade do Rio de Janeiro demorou quase 150 anos para ter seu primeiro mapa de proporções reais. Em 1713, o engenheiro militar Jean Massé foi trazido de Portugal para projetar uma muralha para a cidade. Como parte do seu trabalho, Massé elaborou o primeiro registro cartográfico do município em escala correta.

    O nome do mapa de Massé diz muito sobre as preocupações dos cariocas de então, muito parecidas com as dos atuais, ainda que em um outro contexto. “A Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e suas fortificações” destaca as estruturas de proteção da cidade (15 no total), que já contava com um longo histórico de ataques em seus primeiros séculos, tanto de colonizadores franceses quanto de índios tupinambás.

    A convocação de Massé acontece depois de um ataque particularmente arrasador, em 1711, quando os franceses vieram com 17 navios e quatro mil homens. “O Rio de Janeiro nasce num contexto de invasões”, destaca Ynaê Lopes dos Santos, professora doutora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas no Rio (CPDOC-FGV) cujos temas de pesquisa incluem a escravidão urbana nas Américas

    Pesquisadores estimam que a muralha levou cerca de 12 anos para ser construída. Registros oficiais dão conta de que sua altura variava entre 1,76 e 2,20 metros e a largura era de 3.08 metros. A estrutura corria pela rua da Vala (hoje rua Uruguaiana) e passava pelos largos Carioca e São Francisco. Seu portão ficava onde hoje é a rua da Alfândega.

    No mapa de Massé, que olha para a direção oeste na parte superior, destaca-se o Morro do Castelo (marcado com a letra A), uma das quatro elevações em cima e ao lado de onde o desenvolvimento inicial do Rio se deu. O Morro do Castelo foi demolido nos anos 20 do século passado.

    O Rio é um pântano

    Em 1763, quando o Rio de Janeiro se torna capital do Brasil, os ataques já não preocupavam tanto. O imperativo agora é saber como a cidade, “sufocada por suas limitações geográficas”, na descrição de Ynaê, iria crescer. A necessidade de se ajustar à topografia desfavorável dá lugar às primeiras intervenções na paisagem sob a forma de drenagens e aterramentos. “O Rio é um pântano e o aterramento é uma constante no desenvolvimento da cidade”, explica Ynaê. Além da motivação habitacional, havia a sanitária: os mangues e regiões alagadiças eram focos de doenças e insalubridade.

    Entre o início do século 17 e o fim do século 18, oito lagoas foram aterradas na região central do Rio, incluindo a Lagoa de Santo Antônio, onde hoje é o Largo da Carioca, a Lagoa da Carioca, onde se situa atualmente o Largo do Machado, e a Lagoa do Boqueirão, a última da série e que ficava em frente dos Aquedutos da Carioca. Sobre seu aterro está hoje o Passeio Público.

    Como escreveu o arquiteto Nireu Cavalcanti em “O Rio de Janeiro Setecentista: A vida e a construção da cidade da invasão”, as obras foram realizadas por indivíduos, instituições e principalmente pelo Estado que “empreenderam desmatamentos, obras hidráulicas, terraplanagens voltadas ao saneamento, exigindo todas elas intensa mão de obra, equipamentos, conhecimentos técnicos e recursos financeiros”. Com as obras, a cidade pôde dobrar sua área ocupada no fim do século 18.

    O Rio de Janeiro se tornou a capital do vice-reinado do Brasil em 1763 por ordem do Marquês de Pombal, tirando a honraria de Salvador. A cidade amedrontada dos primeiros séculos dava lugar a um polo comercial e cultural cada vez mais vibrante, tornando obsoletas as fortificações e o muro de Massé (este desprestigiado há muito tempo, com suas pedras rotineiramente extraídas pela população para uso em construções, com total anuência das autoridades).

    Em 1783, a população da cidade ganha seu primeiro parque, o Passeio Público. Situado sobre o aterramento da Lagoa do Boqueirão, ficava no que era então o limite sul da área urbana da cidade, no bairro da Lapa. Para oeste do núcleo central, se destaca o Campo de Santana (hoje Praça da República), consagrado então como uma das áreas abertas mais utilizadas da cidade. O nome veio depois da construção, em 1753, da Igreja de Nossa Senhora de Santana, ponto de atração de devotos. Em 1790, a área foi aterrada, tendo sido escolhida pelo vice-rei Conde de Resende como um dos polos de expansão da cidade.

    Um novo ritmo

    Estimativas de historiadores dão conta de que a cidade do Rio tinha cerca de 30 mil habitantes por volta de 1650. Quase 200 anos depois, este número tinha apenas dobrado. O crescimento lento, no entanto, estava com os dias contados à medida em que o Rio adentrava um novo estágio em sua história. Em 1808, a família real portuguesa chega trazendo nova dinâmica e relevância para a cidade, e em 1822 foi proclamada a independência do Brasil, que tem no Rio não apenas sua capital mas o principal centro cultural e comercial. O primeiro censo da cidade, realizado em 1872, já mostrava o Rio de Janeiro com 4,5 vezes mais gente, ou seja, 274.972 habitantes.

    Segundo a historiadora Ynaê, da FGV-Rio, a chegada da corte portuguesa, com o adjacente funcionalismo, estimula o primeiro movimento em direção à Zona Sul da cidade. A área central passa a ser ocupada pelos poderosos recém-chegados. Ao mesmo tempo, os moradores mais antigos migram na direção sul, progressivamente ocupando as regiões da Glória, Laranjeiras e Botafogo.

    No século 19, o Rio conhece seus primeiros planos urbanísticos: o Relatório Beaurepaire, de 1843, e o Relatório da Comissão de Melhoramentos, de 1875. No primeiro, estava colocada a necessidade de transcender a precariedade urbana da cidade colonial e enfrentar não apenas questões de saúde como também nortear seu desenvolvimento social e econômico da cidade por meio de propostas “disciplinadoras”, como a proibição de qualquer construção sem licença municipal. No segundo, o discurso de saúde e higiene ganha importância, motivado por uma sucessão de epidemias na cidade, nas décadas de 1850, 60 e 70. Os cortiços da área central estavam entre os principais focos de insalubridade a serem atacados pelas reformas.

    Higienismo e segregação

    A reforma de 1875, com seu discurso higienista, foi o prenúncio de uma outra ainda maior, lançada em 1903 pelo prefeito e engenheiro Francisco Franco de Pereira Passos. A mais célebre das reformas urbanas cariocas, apelidada de “Bota abaixo” pela população, desapropriou e demoliu grandes porções da área central da cidade para a abertura de amplas avenidas e bulevares, à moda do que havia sido feito em Paris décadas antes. Para algumas, como a Avenida Central (depois avenida Rio Branco), a última palavra em infraestrutura técnica, incluindo cabos de luz, telefone e gás subterrâneos. Caracterizava-se aí também um novo e preponderante aspecto dos planos urbanísticos da cidade: a preocupação com a estrutura viária necessária para o crescente número de automóveis em circulação. E não apenas na área central. Pereira Passos inaugurou em 1906 a Avenida Atlântica, no então longínquo e desabitado bairro de Copacabana.

    E para onde iam os antigos moradores das regiões arrasadas pela reforma? Boa parte ia incrementar os contingentes populacionais das favelas, modalidade habitacional recentemente surgida nos morros que atendia principalmente a ex-escravos, não apenas os da cidade, mas os que chegavam aos milhares das áreas rurais. Os planos urbanísticos simplesmente não contemplavam a realocação, e não por distração. “A falta de políticas de inserção era uma opção consciente, dentro de uma mentalidade de se remover sujeitos não muito bem vindos”, lembra Ynaê, da FGV-Rio.

    A pesquisadora observa que o Rio foi “a maior cidade escravista do mundo” no século 19 e a área por onde se espalha hoje a cidade era repleta de fazendas, engenhos e quilombos. Como exemplos, cita o Parque Lage, que era um engenho, e o quilombo existente no sopé do Morro dos Dois Irmãos, no Campo do Le Blon, terras antes pertencentes a um fazendeiro francês e que hoje constituem o bairro do Leblon (ver imagem acima). Outros nomes de localidades revelam seu passado: Engenho Rainha, Engenho Novo, Engenho de Dentro e Fazenda Botafogo.

    Além das correntes migratórias internas, a partir do fim do século 19 começam a chegar levas de imigrantes estrangeiros, em especial portugueses, mas também, em menor escala, espanhóis, franceses e “turcos” (como eram chamados os cidadãos do Império Otomano, mas que provinham de locais onde hoje ficam a Síria e o Líbano).

    A primeira metade do século 20 assistiu ao crescimento vertiginoso da população carioca. Entre 1900 e 1950, o número de habitantes da cidade triplicou, indo de cerca de 811 mil pessoas para 2,3 milhões. Boa parte foi habitar bairros ao norte e a oeste do Centro, existentes ao longo dos ramais ferroviários Central do Brasil e Leopoldina, áreas como Méier, Cascadura, Inhaúma, Penha, Realengo, Bangu, Campo Grande e Santa Cruz.

    É ao longo desse período que se consolida o simbolismo das regiões da cidade que perdura até hoje: a Zona Sul, privilegiada e atraente, e a Zona Norte, o “subúrbio”, longínquo e menosprezado. Forma-se assim uma dinâmica de segregação que acompanha os habitantes do Rio de Janeiro até hoje. “As pessoas da Zona Sul simplesmente não frequentam os lugares da Zona Norte”, diz Ynaê. A região central, por sua vez, perde progressivamente seus habitantes mais abastados e entra no ciclo de degradação tão típico das áreas centrais das cidades brasileiras.

    Agradecimentos especiais a Eduardo Botti, da comunidade Mapas Antigos do Rio

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