‘O que para a polícia é combate, para nós é extermínio’

Ativista social e rapper, MV Bill fala ao ‘Nexo’ sobre o lançamento de seu livro ‘A Vida Me Ensinou a Caminhar’ e sobre o olhar da periferia sobre as várias crises brasileiras

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    O artista carioca MV Bill lançou seu livro “A Vida Me Ensinou a Caminhar” (editora Age), no qual conta parte de sua trajetória como rapper e ativista social. A obra foi idealizada em 2018 e escrita durante a pandemia de covid-19. Este é o terceiro livro do rapper.

    Bill é um dos fundadores da Central Única das Favelas, projeto que nasceu na Cidade de Deus, comunidade da zona oeste do Rio onde o rapper nasceu e foi criado. O artista é coescritor dos livros Cabeça de Porco, Falcão - meninos do tráfico e Falcão – mulheres e o tráfico.

    Por suas músicas e seus trabalhos sociais, Bill já foi eleito pela Unesco (agência da ONU para a infância) como um dos ativistas sociais mais atuantes do mundo. O artista também ganhou visibilidade internacional com os prêmios audiovisuais Rei da Espanha e Festival de Cinema de Milão, por causa do filme Falcão - meninos do tráfico, um documentário que dirigiu.

    Nesta entrevista ao Nexo, o rapper fala sobre seu livro, as eleições de 2022 e a violência nas comunidades do Rio de Janeiro.

    O que levou você a escrever o livro?

    MV Bill Eu já tinha a ideia de fazer esse livro, com algumas memórias. Mas estar dentro de um momento pandêmico foi determinante para eu escolher essas histórias especificamente. São histórias que me fizeram aprender de alguma forma. Mesmo quando eu falo de outra pessoa, como o capítulo que trato da Kamila CDD ou do Chorão, são histórias que vão fazer as pessoas me conhecerem de forma mais íntima.

    Qual sua expectativa em relação a recepção do livro nas periferias do Brasil?

    MV Bill Tenho sido surpreendido de forma positiva com os lançamentos. Rio, São Paulo, Porto Alegre e Salvador são os lugares onde eu já fiz o lançamento e tenho encontrado pessoas muito emocionadas, muito felizes de estar comprando um livro de uma pessoa preta.

    Em muitos lugares e ocasiões nós não somos vistos como escritores, normalmente as pessoas imaginam uma pessoa de pele clara e nunca colocam os pretos no radar.

    Tenho me deparado com pessoas que nunca tinham entrado nessas livrarias, nesses espaços elitizados e a minha felicidade é ver muita gente entrando nesses espaços e comprando seu primeiro livro da vida, sendo o meu, então eu acabo incentivando.

    Você produziu ‘Falcão - Meninos do tráfico’ em 2006. De lá para cá tivemos UPPs, proliferação das milícias e intervenção militar no Rio. Como isso impactou a realidade das comunidades? O que mudou e o que continua igual?

    MV Bill Eu acho que, quando eu e o Celso Athayde fizemos o documentário “Falcão - Meninos do tráfico” a gente deu oportunidade do poder público e boa parte da sociedade entender e conhecer o que está acontecendo com a juventude, principalmente a juventude preta, pobre e favelada.

    Na época houve uma comoção, mas pouco movimento, pouco investimento, pouca movimentação em torno desse tema. Isso, infelizmente, fez com o que as coisas ficassem fora de controle, pior do que já estava, e piorassem. Hoje a gente tem um quadro que eu considero pior.

    A política de guerra às drogas continua prevalecendo no Brasil. Qual tem sido o saldo dela?

    MV Bill A forma de combater o tráfico de drogas atualmente é uma forma que se mostrou ineficaz, através do tiro, porrada e bomba, através das execuções policiais. Dificilmente se vê um trabalho de inteligência nas fronteiras, com gente rica que financia tudo isso e fica acima de qualquer suspeita.

    Esse tiro porrada e bomba na ponta, no varejo, já provou sua ineficácia e isso acaba virando uma permissão para matar jovens pretos de favela.

    Não precisa nem ampliar o auto de resistência [quando a polícia mata uma pessoa alegando que ela reagiu a uma ordem de prisão], a própria interpretação, a própria narrativa faz esse trabalho, já faz essa parte de tornar natural essas mortes, ainda que sejam mortes inocentes e não haver comoção nacional. O que para eles é combate, para nós é extermínio.

    O Brasil atravessa quase oito anos de crise econômica. Quais são os principais impactos sobre as periferias?

    MV Bill Quando a economia está mal, quando ela está quebrada, algumas pessoas de outras classes deixam de comprar algumas coisas, comem diferente. Na ponta, na base da pirâmide, existem pessoas que simplesmente deixam de comer, entram em vulnerabilidade alimentar.

    A pandemia aprofundou isso um pouco, mas toda vez que um momento como esse se agrava, uma crise mais aguda, sempre são as pessoas mais pobres que pagam mais alto, ou simplesmente deixam de comer.

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