‘A pandemia é sintoma de uma catástrofe muito mais ampla’

Professor da UFRGS Jean Segata fala ao ‘Nexo’ sobre como a antropologia vê o vírus e as mudanças que ele provoca em diferentes sociedades

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    Embora o vírus que causa a covid-19 seja um só, o impacto que ele provoca não é o mesmo em diferentes comunidades e sociedades. Compreender essas dinâmicas, assim como as relações entre meio ambiente e humanos na pandemia, são temas de estudo do antropólogo Jean Segata, professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

    Nesta entrevista, concedida por escrito ao Nexo em 26 de agosto, Segata refletiu sobre o papel da antropologia para compreender os efeitos da crise sanitária e como o impacto humano na natureza desencadeia relações de desequilíbrio – que podem retornar em forma de vírus, catástrofes naturais e doenças.

    Segata também falou sobre o tema no ciclo de conferências promovido pelo Consulado da França em São Paulo, em parceria com a Unesco, órgão das Nações Unidas para educação e cultura, e com os Blogs de Ciência da Unicamp, sobre a pandemia. A palestra foi transmitida ao vivo e permanece registrada na página do Consulado da França no Youtube.

    De que maneira a atual pandemia aparece como objeto de interesse antropológico?

    Jean Segata A pesquisa antropológica sobre a pandemia não se concentra nos aspectos técnicos dos vírus em si, mas em como a sua presença transforma, impacta e reconfigura a vida social.

    Esqueça o vírus por um instante e pense em como a nossa vida foi transformada neste um ano e meio de pandemia. Quais novos hábitos você desenvolveu? Quais as suas preocupações, suas incertezas? Como a noção que você tinha de si e do mundo ao seu redor se transformou? Pense também em como a pandemia revelou inúmeros problemas sociais, ambientais, políticos e econômicos, que estavam varridos para debaixo do tapete, e pense em tantos outros que ela agravou ou produziu. É sobre isso que a pesquisa antropológica se interessa, e é por isso que ela é importante.

    Nós precisamos entender por que um mesmo vírus pode provocar transformações tão diferentes – mais agudas e mais intensas sobre a vida de algumas populações mais do que de outras, em alguns lugares mais do que em outros. O vírus é o mesmo, então vamos manter o distanciamento para evitar a sua circulação, usar máscara para nos protegermos do seu contato e tomar a vacina para nos imunizarmos. Parece simples. Mas não é.

    Eu estou entre uma pequena parcela da população que pode manter distanciamento, trabalhando de dentro da minha casa. Mas quem não pode? Quem são as pessoas que não podem? Elas tiveram as mesmas oportunidades que eu? Quando eu saio, eu uso máscara de boa qualidade. Todos podem fazer isso? Qual o impacto da aquisição de boas máscaras no orçamento da maior parte das famílias?

    Logo que chegou a minha vez, eu me vacinei. Mas, ontem mesmo, eu conversei com duas pessoas que não se vacinaram e perguntei a razão. Uma me disse que o horário da vacinação colide com o do trabalho e se ela faltar ou se atrasar, o patrão desconta no salário. No fim de semana, a vacinação acontece bem longe da sua casa – lá não chega ônibus e o seu dinheiro não é suficiente para o Uber. A outra simplesmente me disse que não se vacina porque no grupo de WhatsApp as pessoas compartilharam o alerta do presidente da República, de que se vacinar é perigoso.

    Então note, o vírus nunca vem sozinho: ele é favorecido pelas desigualdades e injustiças sociais, pela economia bagunçada e mal conduzida, pela cada vez mais intensa situação de precarização do trabalho e pelas inúmeras manifestações de falta de empatia e de negacionismo protagonizadas por agentes políticos. É por isso que uma pandemia é um evento múltiplo e desigual e a pesquisa antropológica se concentra, justamente, na compreensão dessa complexidade.

    A escala global da pandemia da covid-19 mostrou como diferentes comunidades reagiram de forma diferente à ameaça de um mesmo vírus. A que conclusões você chega quando compara a reação brasileira em comparação com a reação em outros países?

    Jean Segata Pesquisas antropológicas sobre a covid-19 têm mostrado múltiplos e devastadores impactos e transformações sociais, econômicas, políticas e culturais. A despeito das narrativas globais “coronavírus-centradas”, a pandemia frequentemente excede o agente patógeno e ganha forma e intensidade em emaranhados e encontros mais ou menos locais e contingentes.

    Governos neoliberais de direita com inclinações fascistas têm se comportado como importantes agentes patogênicos na pandemia de covid-19, mais do que o próprio vírus. O caso brasileiro, então, ganha destaque negativo ante o cenário mundial, pela combinação nociva de agentes políticos e corporativos e desmonte de políticas sociais que atua com o vírus na constituição de ambientes de risco e de vulnerabilidade.

    O governo de Jair Bolsonaro está na vanguarda da destruição ambiental, com um projeto político de “passar a boiada”, de desregulamentação generalizada. Desde o início da pandemia, ele atua com força contra as medidas de proteção sanitária. Ele encoraja a retirada de direitos indígenas. Ele não protagoniza ações federais que realmente se caracterizem como uma campanha – com políticas e ações – de contenção à pandemia. Enfim, o governo de Jair Bolsonaro atua em favor do desastre, por meio da superexposição de determinadas populações às contaminações e agravamentos com a doença. Ele é um exemplo evidente de que o perigo em uma pandemia não é apenas o vírus.

    Como você vê o comportamento dos brasileiros quanto ao senso coletivo diante das escolhas individuais durante a pandemia de covid-19? Algo chama atenção?

    Jean Segata Essa não é uma questão fácil de se responder porque usualmente cria generalizações. Então, o que eu vou dizer não é uma regra. Mas de maneira ampla, posso afirmar que cada vez mais temos tido dificuldade em manejar o sentido de coletividade. Não é difícil entender a razão. Se é para apontar algum culpado destacado, eu vou dizer que é o neoliberalismo.

    É comum o debate que reduz neoliberalismo a um tipo de modelo econômico. Sim, economia tem a ver, porque é uma importante infraestrutura do neoliberalismo, porque é com dinheiro que você cria o senso de distinção do coletivo. Na essência do neoliberalismo está uma universalização da ideia de indivíduo como valor. Neste pacote, estão incluídos o etnocentrismo e o egocentrismo – ou seja, a ideia torta de que a tua gente vale mais que as outras e você, em particular, vale mais do que a tua própria gente.

    Também entra neste combo a doença do mérito e da exclusividade: você tem que vencer na vida, como se ela fosse uma competição, e só vence quem é forte; o prêmio aos vencedores é a exclusividade, baseada em bens distintos. É a ilusão do cliente “prime” que acessa o que ninguém mais acessaria, que compra o carro único, vive no apartamento único, com móveis únicos e que traja a roupa única.

    Você acha que este tipo de pensamento, altamente difundido na opinião pública ou nas escolas de empreendedorismo e negócio, favorece a saúde coletiva? Você acha que alguém que vive essa ilusão realmente se importa com a vida dos outros? O neoliberal é aquele que paga um “plano de saúde exclusivo”, com atendimento exclusivo, com quarto exclusivo, leito exclusivo. Ele luta contra o SUS, porque o SUS é coletivo, é saúde para todo mundo. Quem vive esse modelo de pensamento tem a ilusão de que a pandemia é um problema “dos outros” – não é com ele, pois afinal ele é exclusivo. O neoliberal nega a pandemia porque ela é um evento coletivo e ele não se vê dentro de uma coletividade. Ele se vê como exclusivo. Na sua ilusão, ele tinha que ter um vírus só pra ele, por que ele é “prime”, ele é exclusivo.

    As mudanças climáticas e a pandemia aparecem como eventos traumáticos. O senhor detecta um viés, bastante difundido, de que a natureza parece estar devolvendo uma agressão humana. Qual sua interpretação desses eventos que envolvem a natureza no atual momento?

    Jean Segata De fato, eu compreendo que a pandemia é apenas um sintoma de uma catástrofe muito mais ampla, em curso acelerado. É o que em muitas áreas de conhecimento tem sido chamado de Antropoceno.

    A ideia geral que forma o debate sobre o Antropoceno é a de que uma nova época geológica tem sido definida pela ação humana, e pode ser percebida por meio da profusão daquilo que uma importante antropóloga estadunidense, Anna Tsing, chama de “paisagens em ruínas”. São extinções em massa, o aquecimento global, o desmatamento, o derretimento de geleiras polares, a acidificação dos oceanos ou as secas arrasadoras. Enfim, é o “destino” da vida na Terra nas mãos destrutivas do homem. E quando eu digo “do homem” e não “do humano”, eu também me inspiro nesta autora.

    Frequentemente, é evocada uma crítica ao “excepcionalismo humano”. Eu me filio a esta crítica que consiste em questionar esse pensamento secular de que o humano se distingue dos demais seres. Nós seríamos, assim, mais importantes, mais poderosos, mais inteligentes, mais, mais, mais… do que “o resto” das criaturas e dos ambientes.

    Permita-me uma “brincadeira séria” com a questão anterior; nós nos vemos como o cliente “prime” do planeta, exclusivos! Então, quando nos vemos como “fora da natureza”, nós, os humanos, nos sentimos como sujeitos dela. Achamos que podemos fazer o que bem entendermos, podemos convertê-la em uma recurso e explorá-la para nossos proveitos. Por outro lado, quando “as coisas não dão certo” e a gente extrapola os limites, nos comportamos como indefesos e vítimas da “crueldade da natureza”. É o que se fala diante de uma enchente, um tornado ou um vírus.

    Porém, se a gente aperta um pouco mais a crítica – e é o que a Anna Tsing faz –, podemos ver que a “humanidade” tem cor e gênero. Trata-se, assim, de um fetiche de dominação e controle propriamente masculino, de um prototípico homem branco europeu, “civilizado”, cultural, colonizador, patriarca, dominante, empreendedor e produtor de lucro. É comum a este tipo de homem a vontade de dominar plantas, animais e mulheres. Plantas não podem, para este homem, nascer em qualquer lugar: elas têm que nascer enfileiradas para poupar o óleo da máquina colheitadeira e maximizar o lucro; animais não podem ser livres. Eles têm que ser dóceis e manejáveis e precisam comer o suficiente para produzir em pouco tempo leite, ovos ou carne para que sejam produtivos e tenham a sua existência justificada.

    Para estes homens, mulheres têm que ser submissas, subordináveis; devem apenas criar filhos dentro de casa e fazer a manutenção do sucesso masculino. Esse também é o homem que é o “senhor do império”, que tinha o leme dos navios do império em suas mãos; é o homem que segura o chicote que açoitava outros homens, só que negros, como escreveu outra importante antropóloga, Anne McClintock, em um livro seminal, chamado “Couro Imperial”.

    Foi esse homem que expropriou os territórios dos povos originários, que aniquilou suas identidades, estuprou mulheres e destruiu os ambientes em busca de madeira e riquezas minerais. Vírus, como eu disse na outra questão, não aparece sozinho. São séculos de destruição do planeta, de criação de condições para que novos patógenos apareçam. Não podemos tomar estes eventos como aleatórios ou isolados. O debate sobre a pandemia precisa pautar a violência histórica e estrutural que intersecta diretamente o colonialismo, o capitalismo e patriarcado e o fetiche de dominação do homem.

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