‘Centrão não vai se comover só com a esquerda nas ruas’

Para cientista político Cláudio Couto, presença de representantes mais ao centro e à direita nas manifestações de 3 de julho foi ‘muito relevante’. Ele diz que é preciso condenar sectarismos

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    Já foram três manifestações nacionais pelo impeachment de Jair Bolsonaro em meio à crise da pandemia da covid-19, em 29 de maio, em 19 de junho e em 3 de julho de 2021. De forma gradativa, elas vêm ampliando seu espectro político, da esquerda organizadora dos atos à direita que aos poucos começa a aparecer nas ruas.

    Para o cientista político Cláudio Couto, professor da FGV de São Paulo e produtor do canal do YouTube “Fora da Política Não Há Salvação", essa união circunstancial entre adversários é central para enfrentar a gravidade do momento político. “Como todos precisam da democracia, ao menos para continuar disputando eleições livremente, combater Bolsonaro é o mais lógico a se fazer”, diz Couto.

    O cientista político alerta para a necessidade de combater o sectarismo de grupos à esquerda que, apesar de pontual em 3 de julho, com a agressão de militantes do PCO contra integrantes do PSDB em São Paulo, acaba tendo apelo simbólico. O quarto ato nacional pelo impeachment está marcado para 24 de julho.

    Por ora, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), permanece firme na decisão de não dar sequência a nenhum dos mais de 120 pedidos de processos por crimes de responsabilidade contra Bolsonaro, mesmo após as suspeitas de corrupção na compra de vacinas se somarem às atitudes negacionistas do governo.

    Nesta entrevista ao Nexo concedida no domingo (4), por escrito, Couto fala sobre o papel das manifestações de rua e a importância da amplitude de seu espectro político, avalia o estado dos arranjos do Palácio do Planalto no Congresso após dois anos e meio de mandato e analisa os ataques presidenciais ao sistema eleitoral, apontados como “pretexto” para não aceitar uma eventual derrota na tentativa de reeleição em 2022.

    Qual é a situação política de Bolsonaro em julho de 2021? Ele caminha para terminar o governo?

    CLÁUDIO COUTO É curiosa a questão sobre a possibilidade de Bolsonaro terminar ou não seu governo. Ainda durante o primeiro ano de mandato [em 2019], quando posto diante dessa mesma pergunta, eu tendia a responder que Bolsonaro provavelmente não terminaria seu governo. Isso porque sua gestão era tão disfuncional e sua forma de atuação política era tão contrária à lógica de operação das instituições políticas brasileiras que ele acabaria se inviabilizando e sendo expelido. Com o tempo, o que se viu foi uma impressionante resiliência de Bolsonaro. Por mais perda de apoio que tivesse, ele sempre conseguiu manter algo em torno de um terço de apoio, seja de eleitores que consideravam seu governo ótimo ou bom, seja daqueles que o aprovavam mais do que reprovavam.

    Com esse patamar de apoio, é muito difícil que um presidente seja afastado e, portanto, que seu mandato seja interrompido.

    Esse apoio ainda aumentou durante o período mais generoso do auxílio emergencial [em meados de 2020], quando houve uma significativa melhora dos rendimentos da camada mais pobre da população e o prestígio de Bolsonaro junto a esse setor da sociedade cresceu. Ademais, Bolsonaro também se blindou na frente político-partidária, abandonando a pretensão insustentável de governar sem uma coalizão congressual e buscando o apoio dos partidos e congressistas de adesão (aqueles que compõem o chamado centrão). Com isso, obteve suporte não só para algumas de suas pautas legislativas, mas também para o bloqueio de qualquer um dos mais de cem pedidos de impeachment.

    Ocorre que Bolsonaro, quando se sente confortável, volta à carga com seu estilo destrutivo. Assim, paradoxalmente, investe justamente contra o que lhe dá a sensação de segurança – a política dentro da lógica institucional – e acaba por solapar novamente sua base protetiva. Até a metade de 2020, quando iniciou a construção da aliança com os partidos de adesão, culminando na eleição dos presidentes das duas Casas do Congresso [Arthur Lira na Câmara e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) no Senado], Bolsonaro minava o chão sob seus próprios pés. Acuado pela prisão de Fabrício Queiroz na casa do advogado Frederick Wassef [em junho de 2020], adotou de vez a “velha política” que dizia repelir.

    Com essa aliança, havia se tornado mais improvável seu afastamento. Porém, agora, não só com o descalabro da gestão sanitária (que já era conhecido em 2020), mas também com o envolvimento de importantes membros do governo – inclusive militares – em corrupção, o espaço para uma nova recomposição de Bolsonaro diminui muito.

    Não há como [Bolsonaro] construir uma nova aliança com o centrão; o problema, agora, é tentar preservá-la.

    E isso fica mais difícil se membros eminentes do centrão forem colhidos pelos escândalos produzidos pelas revelações da CPI da Covid e se Bolsonaro e sua família se virem cada vez mais enfraquecidos por conta das diversas frentes de investigação que se abrem contra eles. Ademais, o afastamento (ou, ao menos, um imenso enfraquecimento) de Bolsonaro é uma condição indispensável para a viabilização da chamada candidatura de terceira via. Com Bolsonaro na disputa eleitoral e, mais ainda, com ele forte nessa disputa, é pouco provável que esse candidato “ao centro” da atual polarização se viabilize, pois o atual presidente ocupa justamente o espaço que essa força precisaria ocupar. Assim, os setores interessados na candidatura de terceira via têm também interesse em expelir Bolsonaro.

    O que faria Arthur Lira mudar de ideia e dar sequência a um pedido de impeachment, já que nem as suspeitas de corrupção em torno da vacina parecem demovê-lo, segundo declarações recentes? Isso passa pelo arranjo que Bolsonaro tem com o centrão?

    CLÁUDIO COUTO A lógica que vale para o centrão, vale para Arthur Lira [que integra o grupo]. Ele só irá se abrir à possibilidade de dar seguimento a um pedido de impeachment se notar que irá perder politicamente ao não o fazer. Isso pode advir tanto da mudança de posição dos membros do centrão, deixando Lira isolado na defesa de Bolsonaro, quanto do risco de que o próprio presidente da Câmara, ao ser identificado com um governo tóxico, perceba que, independentemente de qualquer coisa, é melhor para ele abandonar o barco.

    E, claro, uma outra possibilidade é de Lira considerar que o governo o abandonou o traiu. Se isso ocorrer, também pode dar encaminhamento ao impeachment como retaliação – da mesma forma que Eduardo Cunha fez com Dilma Rousseff [o então presidente da Câmara deu sequência ao pedido de impeachment da então presidente em dezembro de 2015 ao perceber que não teria os votos do PT num processo a que respondia no Conselho de Ética, em razão de suspeitas de corrupção].

    As manifestações de rua como as de 3 de julho e as anteriores podem mudar o quadro, levando a um impeachment?

    CLÁUDIO COUTO Estudos como os da cientista política Kathryn Hochstetler, da London School of Economics, mostram que sem povo na rua é improvável que presidentes caiam: não é uma condição suficiente, mas é uma condição necessária. Das demais, Bolsonaro já tem várias: política econômica fracassada e com altos custos sociais, escândalos de corrupção e impopularidade (embora ainda com um patamar alto de apoio). Falta, além do povo na rua, perder apoio no Congresso. Vejamos o que acontece.

    No que se refere especificamente às manifestações, sem dúvida é algo importante e que pode produzir uma alteração no cenário, inclusive culminando no afastamento do presidente. Os congressistas que hoje estão com Bolsonaro podem perceber que os ganhos com o apoio ao presidente superam os custos em que incorrem ao fazê-lo – e isso mesmo quando aumentam o preço diante da fragilização do governo. Dessa maneira, manifestações de rua são importantes porque sinalizam para os políticos que a insatisfação popular os pode atingir, caso não mudem de postura. Claro que para isso é importante que as manifestações sejam não só grandes numericamente, mas diversas em termos de sua composição.

    A ida de representantes do centro e da direita democrática às ruas, portanto, é muito relevante.

    Vimos que militantes do PSDB e do [movimento político liberal] Livres estiveram nas ruas no sábado [3 de julho], o que sinaliza para um engrossamento do movimento. Claro que quando imbecis extremistas como aqueles do PCO [partido de extrema esquerda] agridem esses manifestantes e, ainda pior, são apoiados por outros que sequer pertencem à sua organização, isso empurra a manifestação para o gueto e diminui seu potencial. Por isso mesmo é importante ver como os setores democráticos da esquerda vão se posicionar diante desse tipo de ocorrência, que por mais localizada e numericamente pouco significativa que seja, tem grande impacto simbólico e afasta muitos que poderiam ser atraídos para a mobilização pelo afastamento de Bolsonaro. Caso se calem ou, pior ainda, coonestem, esses setores vão contribuir para sua própria derrota. Mesmo porque, políticos do centrão não irão se comover porque a esquerda está na rua, já que sabem que não perdem um único voto dela (não se perde o que não se tem). Esses políticos podem ser levados a mudar de posição se virem que até mesmo seus eleitores vão às ruas pedir o “Fora Bolsonaro”.

    Entre os grupos a favor do impeachment de Dilma Rousseff, há os que ainda estão com Bolsonaro. Mas há grupos, como o MBL, que desembarcaram do governo e já estiveram lado a lado do PT no ‘superpedido de impeachment’, mas ainda não estão nas manifestações. O que falta para eles aderirem aos atos? Esses grupos se encaixariam às pautas sociais, às pautas antirracistas, por exemplo, que marcam o discurso da esquerda presente nas ruas?

    CLÁUDIO COUTO Creio que esses outros grupos [como o MBL] não são entusiastas de pautas identitárias de grupos subalternizados, ou de ação afirmativa, às quais a esquerda é mais aderente. Por isso, o que irá mesmo atraí-los são a incúria na gestão da pandemia, a corrupção, o isolamento internacional do país e a incompetência governamental. Nada impede, em princípio, que se compareça aos atos empunhando essas outras bandeiras, mesmo que as mais caras à esquerda também se façam presentes ali. A questão é saber em que medida são viáveis atos marcados por uma diversidade não só de bandeiras, mas de grupos mesmo.

    Há dias se discutia se o centro e a direita iriam ou não aos atos. Mas depois do episódio de hostilidade dos extremistas do PCO aos tucanos, essa presença de atores não esquerdistas se torna ainda mais complicada – sobretudo se não houver algum tipo de condenação desse tipo de coisa pelos setores mais representativos da esquerda democrática. Lideranças como Flávio Dino [governador do Maranhão, do PSB] e Orlando Silva [deputado federal pelo PCdoB de São Paulo] fizeram isso, mas parecem ainda vozes isoladas entre lideranças partidárias da esquerda, que optaram pelo silêncio.

    Alguns setores ao centro e à direita começam a falar em manifestações paralelas, próprias. Creio que mobilizações massivas e plurais, como foram as das Diretas Já ou do impeachment de Collor, fazem mais sentido e têm mais força. Contudo, ainda me parecem pouco prováveis. Esses grupos precisariam de alguma sinalização de que seriam recebidos de forma tolerante nas manifestações já em curso.

    Bolsonaro já uniu numa foto os ex-presidentes FHC e Lula. Também já uniu os deputados Kim Kataguiri, do MBL, e Gleisi Hoffmann, presidente do PT, pelo menos ao protocolarem juntos o chamado ‘superpedido de impeachment’. Como avalia essas aproximações? Elas sinalizam algo para 2022? Ou é só algo circunstancial?

    CLÁUDIO COUTO Essas aproximações não indicam a possibilidade de uma coalizão eleitoral em 2022, como por vezes se imagina. Elas têm a ver, na realidade, com a percepção desses setores de que Bolsonaro é uma ameaça comum. O MBL, que apoiou a eleição de Bolsonaro e, ao menos no início, seu governo, também tem a motivação da retaliação, mas sabe que, Bolsonaro se tornando tóxico, precisa se diferenciar dele no campo da direita.

    De uma forma mais geral, o que aproxima esses setores é a percepção de que Bolsonaro é uma ameaça à democracia. E, como todos eles precisam da democracia, ao menos para continuar disputando eleições livremente, combater Bolsonaro é o mais lógico a se fazer.

    Até para serem adversários numa eleição esses setores precisam ser aliados na defesa da democracia.

    Portanto, tais aproximações são circunstanciais na medida em que a defesa da democracia contra uma ameaça populista autoritária é o que está posto na atual conjuntura. Esses atores políticos são adversários, mas não necessariamente inimigos; Bolsonaro os vê a todos como inimigos. Faz sentido, portanto, que eles se unam pelo que têm em comum.

    Agora, claro que num eventual segundo turno em 2022 entre qualquer uma desses grupos e Bolsonaro, aí a tendência é mesmo de que permaneçam juntos, pois a defesa da democracia assumiria o contorno de uma escolha eleitoral. A bem da verdade, isso já estava posto no segundo turno de 2018, mas muitos minimizaram o perigo, supuseram (sinceramente ou não) que Bolsonaro poderia ser moderado uma vez no governo e ajudaram a produzir o cenário em que hoje nos encontramos. Acredito que muitos não pretendem repetir o erro.

    Bolsonaro está em marcha com seu projeto de voto impresso e de deslegitimação do sistema eleitoral brasileiro, num claro choque com o Tribunal Superior Eleitoral. O que esperar dessa investida presidencial? Há risco de ruptura institucional em 2022?

    CLÁUDIO COUTO A lógica política de Bolsonaro é a da ruptura institucional, pois ele tem uma clara vocação autoritária. As seguidas afirmações bolsonaristas de que houve fraude nas eleições de 2014 e 2018, de que as urnas eletrônicas não são confiáveis, de que nenhum país do mundo adota algo parecido, são todas tentativas de criar um pretexto para não reconhecer em 2022 um resultado eleitoral desfavorável.

    Mesmo que houvesse voto impresso, certamente o bolsonarismo encontraria outro motivo para não aceitar uma derrota. Não é a coerência com os fatos que caracteriza movimentos extremistas como o bolsonarismo, mas a coerência com seus propósitos políticos: tudo o que lhes serve é verdadeiro, tudo o que lhes atrapalha é falso. Daí a ser possível uma ruptura institucional em 2022, vai uma distância.

    Eu não tenho dúvidas de que Bolsonaro está disposto a tentar uma quebra da democracia, seja em 2022, seja em qualquer outro momento. Porém, não é porque ele está disposto que será capaz de produzi-la, embora, mesmo não atingindo esse objetivo, possa produzir danos consideráveis. No Capitólio [prédio do Congresso americano], os trumpistas conseguiram produzir cinco mortos [com a invasão promovida em janeiro de 2021, sob incentivo de Trump].

    Quantos os bolsonaristas, aqui associados a milícias, bandos armados e policiais violentos, seriam capazes de matar?

    Mesmo não havendo uma interrupção da democracia, esse é um cenário suficientemente preocupante. A situação tende a ser melhor se um Bolsonaro muito enfraquecido e impopular for afastado antes das eleições de 2022 por conta de seus inúmeros crimes, ou se chegar tão fraco à disputa que sequer vá para o segundo turno. Uma derrota por margem apertada seria pretexto para um questionamento muito vocal do resultado e, consequentemente, para um ataque às instituições da democracia, que – como é o caso em qualquer democracia – funcionam não para satisfazer a vontade de cada um, mas de acordo com regras de competição política limpa.

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