‘Há uma guerra silenciada em curso contra os indígenas’

Aparecida Vilaça, do Museu Nacional da UFRJ, fala ao ‘Nexo’ sobre como a pandemia de covid-19 e as políticas do governo Bolsonaro impactam os povos originários brasileiros

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    A covid-19 é só a ponta mais visível de um processo de destruição em curso que atinge os povos indígenas brasileiros. A opinião é da doutora em antropologia Aparecida Vilaça, professora titular do Programa de Pós-Graduação em Antropologia do Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    Villaça também é autora de livros sobre a questão indígena. Ela se dedica ao estudo do impacto das pandemias nos povos indígenas e, mais recentemente, sobre a incidência da covid-19 nessas populações.

    A entrevista, feita por telefone, na terça-feira (15), trata do mesmo tema da conferência que Vilaça deu no dia seguinte, no ciclo de debates sobre a covid-19 promovido pelo Consulado da França em São Paulo, em parceria com a Unesco, órgão das Nações Unidas para educação e cultura, e com os Blogs de Ciência da Unicamp. A palestra de Vilaça foi transmitida ao vivo e a gravação está disponível na página do Consulado da França no Youtube.

    De que maneira a pandemia da covid está afetando os povos indígenas? Quais são as particularidades desse grupo específico em relação aos demais?

    Aparecida Vilaça A contaminação dos indígenas começou pela ação de pessoas não indígenas que estavam na área, muitos deles agentes de saúde. Não tinha nenhum tipo de protocolo e isolamento naquele momento [de início da pandemia, no início de 2020], não tinha testagem. Quando indígenas contraiam doenças e precisavam ser deslocados entre as aldeias, eles acabavam indo para ambulatórios da Sesai [Serviço Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde] e se contaminavam [com a covid-19] nesses locais. Fora isso, foi oferecido aos indígenas o que este governo insiste em chamar de tratamento precoce, com cloroquina, azitromicina, ivermectina [remédios sem eficácia contra a covid]. Isso acontecia muito entre os aldeados, que têm um acesso muito mais difícil a cuidados médicos e estavam distantes dos recursos ideais.

    As aldeias têm uma forma de habitar, de dormir junto, que fez com que a epidemia se alastrasse muito rapidamente, atingindo, como entre nós, as pessoas mais velhas, que, no caso dos indígenas, são grandes repositórios do saber, da moral. Isso é algo que afetou muitas lideranças. Muitos sabedores indígenas morreram. A Articulação dos Povos Indígenas fala em 1.104 mortos entre indígenas de 163 povos afetados. Só no Mato Grosso do Sul foram 92 mortos até esta segunda-feira (14). Em Roraima foram 80 indígenas mortos de covid. No Alto Solimões, acima de Manaus, região onde a epidemia começou forte, foram 51 mortos. É uma proporção alta. O índice de morte entre indígenas é maior do que entre os não indígenas, mesmo que agora essa realidade tenha mudado por causa da vacinação, já que muitos deles foram vacinados como parte do grupo prioritário.

    As mortes são proporcionalmente mais numerosas entre eles não só por uma questão genética, mas porque estão mais isolados, com menos acesso aos serviços de saúde e menos preparados em vários sentidos para lidar com a contaminação de uma pessoa para a outra.

    Como os próprios indígenas veem essa situação? E como reagem a ela?

    Aparecida Vilaça Os povos indígenas, de um modo geral, sofrem com epidemias desde a invasão européia, no século 16. Há registros feitos pelo Padre José de Anchieta [1534-1597] falando de varíola no litoral sul. Há registros de varíola na costa do Maranhão. O povo com o qual eu trabalho, os Wari’, de Rondônia, até 1962, 1963, viveram uma grande epidemia, trazida pelos brancos. Mais ou menos dois terços dessa população morreu por epidemia e por armas de fogo.

    Desde a Constituição de 1988, com todos os instrumentos de proteção indígena, vacinação etc, eles de fato tiveram uma melhora muito grande em termos de saúde. Tem uma geração que vai de 1980 até agora que desconhecia esse tipo de pandemia que estamos vivendo hoje. Eles estão muito assustados de estar vivendo uma coisa da qual só tinham ouvido falar. Já os mais velhos tiveram essa experiência, viveram experiências semelhantes nos anos 1960, por exemplo. Eles têm essa memória.

    O procedimento típico deles, nesses casos, é de se isolar. Um grupo de pessoas sai de onde está a doença e vai para o mato, seja para se curar, seja para ficar longe da doença. Hoje, com a covid, muitos grupos fizeram isso, eles se isolaram ou fecharam as aldeias para os brancos. O problema é que muitos deles se tornaram dependentes de auxílio do governo. Eles se fixaram no território para ter acesso a saúde e educação. Com isso, a caça ficou restrita e eles ficaram ligados aos auxílios para complementar a própria alimentação. Dessa maneira, tornou-se mais difícil o isolamento, ficou mais difícil fechar uma aldeia. Logo, duas coisas aconteceram: primeiro, eles passaram a ir às cidades buscar o auxílio emergencial, que foi apelidado por eles de “os R$ 600 da morte”, porque eles temiam se contaminar nas filas. Depois, alguns grupos mais articulados lançaram campanhas na internet para conseguir doações de mantimentos, sabão e até máscaras.

    Essa é uma situação exclusiva do Brasil? Ou outros povos indígenas da região, em outros países amazônicos, passam pelo mesmo?

    Aparecida Vilaça Venezuela, Colômbia e outros locais em que a vacina demorou muito a chegar e onde não há política para priorizar os povos indígenas, sim, devem viver situações semelhantes. Normalmente, nesses locais, os povos indígenas acabam alinhados de maneira geral às populações economicamente mais vulneráveis, às pessoas mais pobres. Eles não vivem nos grandes centros, vivem como camponeses. Eles vivem do cultivo, da caça e da pesca. Assim, ficam alinhados com as pessoas mais vulneráveis, que precisam lutar por fundos de ajuda emergencial e precisam se deslocar na direção de centros urbanos para sobreviver.

    Como funcionam as medidas de isolamento social e de distanciamento entre os indígenas? E como eles são alcançados ou não por políticas como a do auxílio emergencial e a vacinação?

    Aparecida Vilaça A questão do isolamento torna-se muito complicada quando se está numa aldeia indígena. A ideia de isolar o doente é uma ideia que, para o mundo deles, para o universo que eles habitam, é muito complexa porque um doente, na concepção de muitos desses povos, para ser curado, precisa estar perto de pessoas saudáveis. O doente tem que estar perto dos parentes porque a doença é vista muitas vezes como uma disputa entre espíritos e animais que são espíritos, que querem capturar a alma daquela pessoa, da pessoa doente. Então, o papel dos parentes não é só o de mitigar a febre e alimentar. É um papel de assegurar o parentesco, assegurar o pertencimento daquela pessoa a esse mundo. É como se estivessem ali para dizer: “ele é nosso, ele vai ficar aqui com a gente, ele não vai com vocês.” Então, a ideia do isolamento de uma pessoa, a ideia de ela estar sozinha num hospital, é como se fosse um decreto de morte, pois esse doente está sendo afastado justamente daquelas pessoas que poderiam assegurar a permanência do doente aqui neste mundo. Isso é algo muito complexo.

    Em maio, junho, julho [de 2020], no auge da pandemia entre eles, indígenas eram levados para internação, eram entubados, mas acabavam arrancando as coisas e fugindo do hospital ou se recusando veementemente a entrar no hospital, porque, para eles, não é simplesmente a ideia de ter acesso a medicamentos. Eles têm uma outra concepção por trás, que é uma concepção muito peculiar da doença, como uma disputa entre entidades por aquele sujeito, em que a presença dos parentes é muito importante. Daí, a questão do isolamento individual ser praticamente impossível, ou pelo menos muito difícil.

    Em relação ao auxílio emergencial, foi algo muito corretamente estendido aos povos indígenas, mas sem nenhum tipo de consideração pela peculiaridade do modo de estar e de viver desses povos. Eles acabavam viajando dias de canoa, de barco, para chegar à cidade e ficar em fila de banco, onde muitos se contaminaram. Esse recurso tinha de ter sido sido levados a eles de alguma outra forma, fosse na entrega direta às aldeias, fosse na distribuição em forma de mantimentos, mas não da forma como foi: obrigando eles a se deslocar justamente de onde eles deveriam estar, que é nas aldeias, isolados dos brancos. Foi, então, uma coisa muito mal feita nesse sentido. A existência do recurso em si foi algo positivo, porque eles precisavam, estavam mesmo numa situação de deficiência alimentar, mas não podia ter sido dessa forma.

    Em relação à vacinação, incluí-los no grupo prioritário foi uma conquista muito grande das organizações indígenas, mas houve muitos entraves também. Alguns grupos missionários evangélicos não indígenas pregaram contra a vacinação. Recebi um áudio que uma evangélica mandou para os Wari’, dizendo que a vacina tinha um chip do diabo que tinha sido criado para assassiná-los. Circularam muitos áudios assim. Recebi telefonemas de Wuari’ que se diziam muito confusos e assustados com a situação, perguntando se deviam ou não tomar a vacina. Há uma ação de alguns evangélicos nesse meio que me deixa em dúvida sobre se é uma tipo de crendice inocente, no sentido de ser apenas ignorante, ou se é uma coisa perversa mesmo.

    No território Yanomami [no Amazonas e em Roraima] há garimpeiros pagando em ouro para desviar vacinas e, ao mesmo tempo, dizendo aos indígenas que aquelas vacinas não foram feitas para eles, foram feitas para os brancos e, se eles forem inoculados, vão morrer. Por tudo que esses indígenas viveram ou ouviram sobre as experiências de gerações passadas, de atos de extermínio, de pessoas jogando veneno de avião sobre aldeias, eles têm memória e um medo muito grande. Então, há aldeias inteiras se recusando a se vacinar por causa dessas informações. Isso é algo de uma perversidade enorme, e certamente colabora para aumentar o número de mortos entre eles.

    Em seu livro ‘Morte na Floresta’ a sra. fala na existência de um ‘projeto de extermínio das culturas indígenas’. O que é esse projeto? E quem são os responsáveis por ele?

    Aparecida Vilaça A palavra “extermínio” envolve uma ação muito clara, então talvez não seja a melhor palavra. O sentido aí é de afetar negativamente. Toda ação do governo atualmente é para que os povos indígenas deixem de ser povos indígenas. É uma negação da cultura deles, é uma introdução deles no mundo capitalista, no mundo dos brancos, na cidade.

    O Projeto de Lei 490, do chamado marco temporal, diz que as terras só serão consideradas para demarcação caso tenham sido ocupadas [por povos indígenas] até 1988, o que implica na não demarcação de uma série de áreas. Tem também o chamado “PL do garimpo” [Projeto de Lei 191/2020], que abre as terras indígenas para a exploração do solo por parte de não indígenas. Todos esses projetos vão junto com essa morte em grande escala que acontece entre indígenas na pandemia. O vírus é, portanto, algo que está misturado, é algo que entra junto com todas essas invasões. Ele vem junto com a destruição do território, com a destruição da terra, vem com a agressão direta, como nós vimos nesses últimos ataques de garimpeiros contra as aldeias Yanomami [em maio, em Roraima], que são uma coisa criminosa.

    O atual governo tem um grande descaso. Todos esses invasores – garimpeiros, madeireiros, grileiros – estão se sentindo autorizados pelo discurso do governo. Por enquanto, a defesa desses territórios ainda está do lado da lei, no sentido de que o Ministério Público Federal ainda tem recursos legais para impetrar mandados, mas o discurso deste governo, do presidente [Jair Bolsonaro], do ministro do Meio Ambiente [Ricardo Salles], corrobora essas invasões.

    Então, se a gente não pode falar de um projeto de extermínio, ele é pelo menos um projeto de destruição. E essa é uma posição que se estende à questão da covid de modo geral. O presidente fala contra o uso de máscaras, prega contra o isolamento social, enfim, tudo isso, com o número de mortos, que está subindo, é uma atitude de destruição e de morte. No caso dos povos indígenas, isso é potencializado de forma exponencial. Eles estão ainda mais fragilizados, mais isolados, são menos visíveis. Todo mundo vê o que ocorre nos hospitais, mas ninguém vê o que está ocorrendo nas aldeias. O grande público não está informado sobre o que está acontecendo.

    Enquanto isso, como disse o ministro [Salles], vai “passando a boiada”. Enquanto todo mundo está voltado para a questão da covid, para a expectativa sobre a chegada ou não das vacinas, há áreas de proteção estadual e federal que estão sendo desmontadas, loteadas. A Amazônia está um caos. Nós estamos nos aproximando de um ponto irreversível de destruição. Os indígenas, sem território, não sobrevivem. Essa é uma ameaça direta a eles. Eu nem saberia dizer se me preocupo mais com a covid entre eles ou com esse avanço e com essa destruição provocada pelos invasores. Há um caos, uma espécie de guerra silenciada em curso. A frase do Salles é clara para descrever a situação: deixa a covid e vamos passando a boiada, porque a covid faz uma espécie de sombra em outras coisas que estão acontecendo. A covid é só a ponta mais visível da destruição dos povos indígenas.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que a entrevistada, Aparecida Vilaça, deu uma palestra em evento do Consulado da França, no dia 16 de junho, acompanhada da pesquisadora Francy Baniwa. Por problemas técnicos, no entanto, Baniwa não participou da palestra. A informação foi corrigida às 9h05 do dia 21 de junho de 2021.

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