‘O luto por Kathlen representa um conjunto de despedidas’

Ao ‘Nexo’, a psicóloga Clélia Prestes fala sobre o impacto para a população negra da recorrência de casos como o da jovem grávida morta durante uma operação policial no Rio

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    A recorrência de mortes como a de Kathlen Romeu deixa a população negra brasileira num estado de luto coletivo e permanente, na visão da psicóloga Clélia Prestes, que atua na Amma Psique, ONG que trata dos efeitos psicossociais do racismo. “A cada novo episódio de extermínio em operações policiais, passa-se a mensagem de que as vidas negras não têm valor”, disse a doutora em psicologia social pela USP (Universidade de São Paulo) em entrevista ao Nexo.

    Aos 24 anos e grávida, a designer de interiores Kathlen de Oliveira Romeu foi morta após ser atingida por um tiro durante uma operação da Polícia Militar na terça-feira (8) na comunidade de Lins, no Rio de Janeiro. O assassinato da jovem causou comoção nas redes sociais, onde as pessoas compartilharam fotos de Kathlen e relatos de sua história.

    Para Prestes, em casos como o de Kathlen, “não lamentamos apenas a morte de uma profissional negra, uma mãe, uma neta e uma companheira, mas a morte dos direitos de uma mulher negra. É a morte dos direitos de um grupo.”

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    mulheres grávidas foram baleadas na região metropolitana do Rio desde 2017, segundo a plataforma Fogo Cruzado; quatro desses casos ocorreram em operações policiais

    O caso também reacendeu críticas às operações policiais e seu elevado saldo de mortes de homens, mulheres e crianças negras que vivem nas periferias. Em nota, a Polícia Militar afirmou que, no dia da morte de Kathlen, agentes da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da região foram atacados a tiros e houve confronto. A PM disse que a perícia foi acionada.

    O Nexo conversou com Clélia Prestes sobre mortes como a de Kathlen, que a especialista considera parte de um genocídio em curso, e os efeitos coletivos da recorrência desses casos. A psicóloga também comenta sobre como a sociedade pode lidar com esses eventos.

    Como a recorrência de mortes como a de Kathlen Romeu afeta pessoas negras?

    CLÉLIA PRESTES Mortes como a da Kathlen Romeu afetam na medida em que, a cada novo episódio de extermínio em operações policiais, passa-se a mensagem de que as vidas negras não têm valor. Quando há uma notícia desse tipo, uma pessoa negra pode sentir certo estresse. Mas, como os casos são recorrentes, esse estresse vai se transformando em uma condição de saúde precária, que traz o tempo todo a ameaça de morte.

    No longo prazo, essas notícias podem promover tanto contextos de resistência, quando as pessoas entendem que as mortes são recorrentes, quanto adoecimentos, nos casos em que elas percebem que sua cidadania e dignidade são atingidas repetidamente. Quanto mais recorrentes são as mortes, mais a situação de assassinato se torna esperada por uma pessoa que tem características parecidas [com aqueles que ela vê morrendo]. Fica muito difícil levar o cotidiano.

    Além disso, quando vê o quanto vidas negras têm menos valor em uma sociedade racista, a população negra fica com dificuldade de confiar em seus direitos garantidos e de construir uma imagem positiva de si mesma. Outras pessoas também acabam com dificuldades para construir uma imagem positiva de pessoas negras.

    Em postagens nas redes sociais, algumas pessoas disseram que o caso traz o sentimento de que pessoas negras vivem em estado de luto permanente. Qual a diferença entre o luto comum e o luto manifestado nesses casos?

    CLÉLIA PRESTES No luto individual, nós tentamos sofrer e elaborar a perda de alguém. Mas esse luto é diferente, porque é coletivo. Ele advém de uma situação recorrente de extermínio de pessoas negras por violências de Estado. Nesses casos, não lamentamos apenas a morte de uma profissional negra, uma mãe, uma neta e uma companheira — como Kathlen Romeu —, mas a morte dos direitos de uma mulher negra.

    É a morte dos direitos de um grupo social que corresponde à maioria da população brasileira. É a morte da possibilidade de uma pessoa negra ser vista com dignidade nos espaços nos quais circula. É a morte da possibilidade de estar em uma matéria de jornal por conta das coisas que produz, não por conta das violências que a atingem. É também a morte da possibilidade de ela confiar que as instâncias de governo vão garantir seus direitos em vez de promover o genocídio.

    Todo esse conjunto de despedidas — da dignidade, da cidadania, da igualdade de direitos e do respeito — faz com que o luto seja por algo que é mais do que a morte de uma pessoa — o que já seria, por si só, extremamente angustiante e sofrido. É a morte do imaginário sobre um grupo social.

    É importante notar que isso não apenas traz um efeito coletivo para a população negra, que se identifica com quem foi assassinado, mas para pessoas que têm privilégios e pensam que podem cometer essas violências, que estão naturalizadas. Casos como o de Kathlen Romeu passam a mensagem de que os direitos servem apenas para algumas pessoas, e o Estado os garante às custas do extermínio de outras.

    Em um contexto de casos recorrentes, como tratar o assunto de forma adequada e evitar que essas mortes sejam normalizadas?

    CLÉLIA PRESTES Penso que temos duas tarefas. A primeira é justamente esta: falar desse tema da forma mais franca possível, compreendendo que essa morte não é uma exceção. É um projeto, um programa que acontece repetidamente nos mesmos tipos de territórios. Devemos perceber que esse tipo de bala perdida encontra sempre os mesmos corpos — e esses corpos não estão em outros locais da cidade, nem têm têm outras cores, ou outra classe socioeconômica. Com isso, podemos contribuir para não normalizar essas mortes.

    Além disso, precisamos transformar a comoção em “co-moção”. Precisamos sair desse estado de incômodo com mais uma morte para uma movimentação conjunta e politizada em direção a uma mudança social. Falo tanto para quem tem prejuízo com os privilégios quanto para quem ganha com eles. Todos precisam se comprometer e entender que qualquer tipo de violência, da mais branda à mais intensa, precisa ser interrompida. Qualquer tipo de impunidade precisa ser anulada.

    Se as mortes são recorrentes e a gente não se compromete, nem se comove, o que pode acontecer é a naturalização da violência e a manutenção desses extermínios, que já se enquadram como genocídio. Nesse caso, uma sequela vai se criando e atingindo, em efeito cascata, todo o grupo social que se identifica com pessoas mortas. No caso do Brasil, trata-se da maioria da população.

    O que é possível fazer para enfrentar esse cenário, do ponto de vista individual e coletivo?

    CLÉLIA PRESTES Do ponto de vista individual, as pessoas mais prejudicadas neste cenário de violência — ou seja, as pessoas negras — podem acionar espaços de resistência e fazer com que o luto se reverta em luta coletiva. Trata-se de buscar a possibilidade de ter seus sofrimentos cuidados — seja pela garantia de direitos, seja pela saúde, seja por uma luta coletiva que diminui a possibilidade de novas violências acontecerem com elas ou com pessoas em outros contextos de vulnerabilidade.

    Outros grupos devem analisar qual o seu lugar na sociedade e qual o seu papel neste contexto de violência estrutural, para depois compreender como podem interromper a manutenção de privilégios e violências. É preciso entender que o racismo não acontece lá longe, nem com os outros — acontece no dia a dia, nas diversas relações, em diferentes intensidades. Não basta continuar pensando que se é bacana e exceção, enquanto o resto da sociedade está podre. Todos fazemos parte da sociedade e somos responsáveis por seus problemas.

    Coletivamente, é necessário que nós façamos um processo educacional de identificação das violências raciais e de Estado, para que possamos mudar esse cenário. É necessário que façamos mudanças estruturais. Não basta encarar a morte de Kathlen Romeu como se fosse um ato isolado de um policial equivocado. Nós precisamos entender esse fenômeno como algo estrutural da nossa sociedade. A morte mais recente é apenas mais um dos exemplos dessa dinâmica histórica.

    Qual sentido a ideia de solidariedade ganha em contextos como esse?

    CLÉLIA PRESTES É preciso que entendamos solidariedade como respeito e compromisso mútuo. A solidariedade não é apenas doar, dividir ou ser generoso com alguém que não tem aquilo que tenho. Não é dessa solidariedade que precisamos neste momento.

    Se alguém hoje tem segurança pública — que deveria ser direito de todo mundo, mas não é, por exemplo —, essa pessoa tem, na verdade, um privilégio. Nesse caso, ser solidário é se comprometer para que essa segurança seja ampla e igualitária. É preciso que estejamos alinhados em termos de justiça, igualdade e ações afirmativas — que, aliás, muitas vezes também são vistas como solidariedade (doação), mas são ações de compromisso para compensar privilégios.

    É preciso também falar dos grupos atingidos pelas balas para além das balas. Precisamos aparecer nos meios de comunicação para falar do que pensamos, do que produzimos, dos espaços de resistência, das produções teóricas, das reflexões filosóficas, das estratégias de cuidado... Meu mestrado e doutorado, por exemplo, são sobre saúde, mas constantemente sou chamada para falar sobre morte e violência — e isso não é casual.

    É assim porque geralmente, quando se fala de população negra, fala-se das mazelas, das violências, dos prejuízos, das discriminações e das mortes. É preciso que as pessoas negras, que são a maioria neste país, possam aparecer nos diferentes espaços com a sua potência de vida.

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