‘Drogas psicodélicas são opção promissora contra doenças’

Autor de ‘Psiconautas’, jornalista Marcelo Leite fala ao ‘Nexo’ sobre o momento de ebulição dos estudos a respeito de terapias com substâncias antes associadas a raves e festivais hippies 

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Tratamentos e terapias com drogas psicodélicas vivem um momento de efervescência. São objeto de pesquisa em instituições acadêmicas de prestígio, recebem investimentos milionários por meio de startups e ganham aprovação de autoridades de saúde. Nos EUA, país que está na dianteira nesse campo, já há até estados legalizando algumas substâncias.

O motivo pelo qual drogas antes associadas a raves e festivais hippies vêm ganhando cada vez mais atenção e respeito são os resultados promissores que, em doses seguras e controladas, demonstram em tratamentos de saúde mental, psicoterapia e promoção do bem-estar.

Exemplos incluem tratamento de MDMA, base do ecstasy, em veteranos de guerra com estresse pós-traumático nos EUA, pesquisas britânicas que avaliam o efeito de cogumelos alucinógenos no combate à depressão e estudos anglo-brasileiros sobre o potencial da ayahuasca contra a neurodegeneração causada pelo mal de Alzheimer.

Essas e outras pesquisas são relatadas pelo jornalista Marcelo Leite no livro “Psiconautas” (Editora Fósforo). A obra cumpre o importante papel de reunir em um só lugar dados históricos sobre diversas substâncias, informações sobre as pesquisas acadêmicas dos últimos anos e o contexto social e político que, aos poucos, começa a desfazer preconceitos contra esse universo. Dando sabor à narrativa, Leite oferece ainda ao leitor suas próprias experiências com algumas das substâncias.

Para o autor, a atual corrida psicodélica é comparável à ebulição em torno da maconha medicinal dez anos atrás. Jornalista da área de ciência da Folha de S.Paulo desde a década de 1990, Leite mantém hoje no jornal o blog Virada Psicodélica, dedicado às novas pesquisas e terapias envolvendo substâncias como ayahuasca, LSD e MDMA. Leia abaixo a entrevista que ele concedeu ao Nexo.

Quais os desafios de se falar sobre drogas psicodélicas com o grande público?

MARCELO LEITE O desafio maior é o preconceito social e cultural que existe sobre elas. Enfrentei isso mesmo entre colegas, na família, e com conhecidos. Desde a primeira matéria que fiz, em 2017, acharam muito estranho por eu ser alguém considerado careta, um cara sério, centrado, objetivo e imparcial, um jornalista de ciência que reporta a partir de evidências. Além de ter que cruzar a barreira da não familiaridade com o tema, como sempre é o caso com jornalismo científico, para quem escreve num jornal geral pro leitor leigo, ainda por cima tem a barreira moral e ideológica, digamos assim, que diz que “droga” é coisa do demônio, destruidora de vidas.

Então, o desafio primeiro é explicar, na esperança de convencer, que as drogas psicodélicas em específico não têm potencial para causar dependência, ao contrário do que se acredita, e não são prejudiciais para o cérebro, ou seja, LSD e MDMA não “fritam” o cérebro, como se ouve por aí. As pesquisas todas estão mostrando que são substâncias bastante toleradas pelo organismo.

Algumas têm algum risco, por exemplo, ibogaína pode desencadear arritmia no coração, MDMA pode dar superaquecimento, como já aconteceu em raves. Não é que sejam totalmente inofensivas, longe disso, pessoas com tendências psicóticas podem ter um surto desencadeado. Mas feito com segurança, com prudência, com as pessoas corretas, para utilidades e indicações corretas, pode ser muito seguro, como os estudos têm demonstrado.

Onde se situa o Brasil no contexto de uso terapêutico e mudanças em leis sobre as drogas psicodélicas?

MARCELO LEITE Olha, mudança de lei, na verdade, ocorreu no passado e que foi importante foi o reconhecimento e autorização para o uso religioso da ayahuasca. Vários outros países depois vieram na cola e também autorizaram, como os EUA, por exemplo. Eu diria que o DMT (dimetiltriptamina), que está dentro da ayahuasca, é possivelmente uma das drogas mais usadas legalmente pelo mundo, na Holanda, Peru, EUA, têm também igrejas do Daime, da ayahuaca. Foi importante para o Brasil porque facilitou a pesquisa.

Existe uma tradição muito forte, começou lá atrás com pesquisa sobre maconha, principalmente na Unifesp [Universidade Federal de São Paulo], com o grupo do Elisaldo Carlini, depois Dartiu Xavier, toda uma geração de pesquisadores formados pelo Elisaldo, e, no grupo da USP [Universidade de São Paulo] de Ribeirão Preto, o pessoal em torno do Jaime Hallak também há muito tempo pesquisa ayahuasca. Isso deu ao Brasil uma posição importante no cenário mundial.

Recentemente, pesquisadores da área de ciência psicológica levantaram os 50 artigos de maior impacto no mundo dos últimos 10 anos, considerando número de citações, e o Brasil aparece em terceiro lugar. Praticamente, todos os artigos brasileiros na lista são sobre ayahuasca, então isso, do ponto de vista científico, coloca o Brasil numa posição muito vantajosa. O primeiro teste clínico controlado com psicodélico contra depressão foi feito no Brasil, na UFRN [Universidade Federal do Rio Grande do Norte], pelo grupo de Draulio Araújo.

Do ponto de vista legal, não sei se daqui para frente isso poderá facilitar de alguma maneira a legalização dessas drogas. Veja o que acontece com a maconha. O uso medicinal foi aprovado pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] com mil restrições, não pode plantar, o que força as pessoas que precisam a importar, produzir com liminar. Então, quem vai investir, do ponto de vista do grande negócio, como criar uma indústria? Eu temo que por conta dessa reação conservadora muito baseada em desconhecimento, que o protagonismo científico do brasil não frutifique em um protagonismo tecnológico e, depois, industrial, se for o caso. Temo pela conjuntura política e ideológica atual, muito dominada pelo conservadorismo, mais do que foi no passado. Seria um desperdício.

Qual o impacto de o Brasil ficar de fora do avanço de outros países em relação às drogas psicodélicas?

MARCELO LEITE O impacto que a gente tem em vários campos de atuação. O Brasil tem, em geral, uma massa crítica científica bastante boa dentro do panorama dos países de renda média e baixa. E sempre teve uma dificuldade crônica em traduzir isso em benefício social mais amplo, através da geração de tecnologia e de aplicação, de desenvolvimento industrial ou, no caso, pensando em saúde mental, eu acho um pouco inevitável que a gente acabe usando terapeuticamente, se de fato as coisas se encaminharem como parece que vão em países como EUA e Inglaterra, dentro de um protocolo de psicoterapia. Isso vai acabar chegando no Brasil em algum momento, mas vai chegar mais tarde, com importação de substâncias, e um monte de gente que poderia estar se beneficiando desses tratamentos até lá vai ficar no meio do caminho.

Se você pensar que a depressão é um dos principais casos de absenteísmo no trabalho no mundo, por exemplo, a OMS [Organização Mundial de Saúde] estima que são mais de 300 mil pessoas que sofrem de depressão, aproximadamente um terço dessas pessoas não resolve isso com antidepressivos existentes, são portadores de depressão resistente. Supondo que os psicodélicos se confirmem de fato como alternativa promissora para essas pessoas, quanto mais a gente atrasar, mais essas pessoas vão ficar sem tratamento, vão sofrer, algumas vão morrer, por suicídio. Então, um custo de você manter essas barreiras legais ou ideológicas e morais contra drogas psicodélicas por causa de um passado um pouco fantasioso é deixar de beneficiar pessoas que precisam disso.

A maior aceitação da maconha medicinal pode ser a porta de entrada para que se discuta de maneira mais ampla o uso terapêutico de drogas psicoativas no Brasil?

MARCELO LEITE Não tenho dúvidas de que nos EUA o caminho deverá ser esse. Primeiro veio a maconha medicinal, depois a legalização do uso recreativo, depois estados aprovando uso terapêutico de alguns psicodélicos, como em Oregon, Distrito de Colúmbia e Colorado. No Brasil, eu diria que é um pouco difícil de prever. Temos alguns conservadores mais abertos, ou porque têm casos na família ou porque têm mais conhecimento, mas eu diria que no campo bolsonarista, em geral, a maconha é considerada um anátema, uma coisa horrorosa. E não só no campo bolsonarista, na própria academia existe a velha guerra entre o pessoal da redução de danos e o pessoal da abstinência completa. Entre os bolsonaristas, o pessoal tipo Osmar Terra, Damares Alves, não pode nem ouvir falar em maconha medicinal, e eles ainda são muito influentes. As comunidades terapêuticas evangélicas são baseadas na ideia de abstinência. Estou um pouco cético, não acho que vamos viver um processo tão cedo de liberalização, de regulamentação dessas drogas.

A narrativa da Guerra às Drogas perde força nos EUA, a gente vê agora até tentativas de reparação às vítimas como no caso da legalização da maconha em Nova York. Porque continua forte no Brasil?

MARCELO LEITE Acho que temos um presente e um passado muito traumático do tráfico no Rio de Janeiro, mas em São Paulo também, com o PCC, que associou muito o problema da criminalidade às drogas, especificamente, com o crack e a cocaína, que são os maiores motores desse beco sem saída em que a gente está metido, que é essa matança generalizada que nao resolve nada, porque continuam aí, continuam distribuindo cocaína, matando gente, dominando morro.

Mas é um discurso muito difícil de romper porque essa conversa mais conservadora coloca muito facilmente os adeptos de uma liberalização num gueto, numa espécie de armadilha, que é a do defensor da droga e defensor do bandido. É um discurso de fácil assimilação, como sempre distorcido, baseado em simplismos. Infelizmente, para muita gente acaba soando mais convincente que uma argumentação baseada na ciência, em evidências, em experiência histórica. Você pode falar horas sobre a experiência de Portugal com a descriminalização das drogas e a redução de danos, ou seja, a transferência disso da esfera policial, judiciária e criminal para a esfera da saúde pública foi uma enorme revolução que é um caso considerado exemplar no mundo inteiro. Você tem evidência de diminuição de consumo, de overdose, de pessoas que voltaram a ser funcionais porque não precisam ficar roubando para comprar heroína e vão tomar em um lugar fornecido pelo estado. Você pode cansar de repetir isso, de dar esse exemplo, e a repercussão é muito pequena porque as pessoas estão muito entrincheiradas e agarradas a esse paradigma que droga é uma coisa do demônio, que destrói as pessoas e que quem defende droga e descriminalização está do lado dos bandidos.

No livro você destaca como persiste a desaprovação ao uso recreativo e à ‘bagagem pesada da contracultura’. Por que isso ocorre?

MARCELO LEITE Por tudo isso que a gente está falando, basicamente a mentalidade conservadora que eu acho que também é baseada em falta de conhecimento. Por ser um jornalista de ciência, eu tenho de me apegar a essa ideia de que tudo pode ser explicado e qualquer pessoa pode entender as coisas e eventualmente mudar de opinião. E eu, pessoalmente, também por uma questão de posição filosófica e doutrinária, acredito que as pessoas devem ter a liberdade de fazer o que bem entenderem, inclusive usar drogas se achar que vai ser bom para si, mesmo que seja ruim. Mas, obviamente, não é a discussão que está posta hoje, está distante disso.

Mesmo dentro da área de pesquisa científica, da chamada ciência psicodélica, há grupos de pesquisadores que são contra o uso recreativo, defendem que tudo deve ser dentro de parâmetros químicos estritos, dentro de hospitais, com acompanhamento médico, consideram o único jeito possível e imaginável para eliminar todo o risco. Em geral, são pesquisadores que também são contra que cientistas que trabalham nesse campo também usem psicodélicos. Essa é outra divisão importante. Tem muito pesquisador que já usou no passado, usa ainda, de alguma maneira chegou a pesquisar essas coisas porque tem um histórico de experiência com psicodélicos. E tem outros que acham isso o fim da picada, que tira a objetividade, a imparcialidade, que não pode usar de jeito nenhum, não pode falar para o paciente que usa, por aí afora. Vai ser uma briga um pouco longa, mas que tudo indica que num futuro talvez distante vai seguir um percurso parecido com o da maconha medicinal, que hoje tem uso recreativo aprovado em vários estados americanos.

Não gosto muito da palavra recreativo para psicodélicos porque não acho que são substâncias simples nem para uso só de entretenimento. Muita gente fala, e eu concordo com a ideia, que elas são substâncias de trabalho e de autoconhecimento, de aprofundamento na sua própria psique, de reflexão sobre a sua própria vida, e que vem associadas também a momentos de muito prazer. Não vamos negar isso, longe de mim. Mas não vejo como uma busca primordialmente de prazer, de diversão. Eles podem ser, nao vou ser o puritano que diz que não, mas eu acho que é bom que você tenha um propósito um pouco maior ao usar essas substância. Pelo menos para mim teve esse aspecto. Até porque existe o risco, embora pequeno, de serem experiências difíceis, as bad trips existem, embora sejam menos frequentes do que as pessoas imaginam, como mostram estudos.

Na própria religião da ayahuasca existe a famosa “peia”, em que alguns tem momentos de sofrimento intenso, não só físico, mas psíquico, mas que a maioria das pessoas considera também como uma experiência terapêutica, porque está resolvendo problemas e memórias que existem dentro de você.

O crescimento de problemas de saúde mental na pandemia pode contribuir para o avanço na pesquisa e uso terapêutico de substâncias psicoativas?

MARCELO LEITE A pandemia aumenta muito a necessidade de avançar com essas pesquisas. Agora, se vai contribuir para aumentar a aceitação já é um pouco mais difícil de apostar, mas eu acho que sim. Pode ser que a gente presencie, por essa “pandemia de tristeza” que está vindo na cola da covid-19, um fenômeno parecido com o que está acontecendo com MDMA e estresse pós-traumático. Essa substância foi uma escolha muito feliz dos pesquisadores. Primeiro, porque não é o psicodélico mais louco do mundo, ele não dá alucinação, é empatógeno mais do que psicodélico. Primeiro fato. O segundo é que estresse pós-traumático lá é, principalmente, uma doença de veterano de guerra, que são considerados heróis nos EUA. São centenas de milhares de veteranos de guerra que sofrem com isso. Um índice de suicídio altíssimo, um custo social financeiro do ponto de vista de esaude altíssimo, bilhões de dólares por ano, que, aparentemente, começa a ser resolvido em alguns casos por meio de uma droga psicodélica. Então, é possível que as sequelas sociais, individuais, facilitam de alguma maneira a erosão desse preconceito que existe. Você vê tanta gente sofrendo, um problema tão grave, se tem uma coisa com potencial porque não pesquisar e por mais dinheiro nessa pesquisa e talvez rever os protocolos, os regulamentos de proibição? Eu acho que o potencial existe, se vai acontecer ou não, não tenho ideia. Há indicativos que sim, por causa dos EUA.

A quantidade de instituições acadêmicas de primeira linha que estão abrindo centros de pesquisa psicodélica é muito grande, como Johns Hopkins, Harvard, Universidade de Nova York, Universidade da Califórnia [nos EUA], Imperial College [Reino Unido]. A parte de investidores também, tem surgido muita startup no Canadá, nos EUA, no Reino Unido. Para um pesquisador brasileiro são coisas impensáveis, investimentos de centenas de milhões de dólares, aqui precisam mendigar unidades de milhão de reais. É uma área que está em ebulição, como estava a maconha dez anos. São indicativos de que alguns setores mais vanguardistas, como a academia e os investidores de risco, estão vendo para onde o vento está soprando e estão rapidamente pegando essa corrente. Acho que vai vir muita gente atrás.

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