‘Não adianta perseguir ou ameaçar, a cultura continuará existindo’

Ao ‘Nexo’, Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo, fala como a pandemia agravou os problemas do setor

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    Do cancelamento de festivais de música ao fechamento de museus, a pandemia atingiu em cheio a área cultural em 2020. Sem a possibilidade do público presencial, artistas e profissionais enfrentam uma crise sem precedentes.

    Iniciativas de socorro por parte de governos locais ou do Congresso, no caso da lei Aldir Blanc, procuraram mitigar os prejuízos de profissionais que, em grande parte, não têm ganhos regulares ou rede de proteção social. Em dezembro, uma pesquisa mostrou que 48,8% dos agentes culturais perderam 100% da sua receita entre maio e julho.

    Nos primeiros meses de 2021, com as taxas de casos e mortes por covid-19 em crescimento no país, a perspectiva de retomada foi se distanciando. Com o andamento da vacinação cercado de incertezas, a previsão é de que shows só serão retomados em 2022.

    Somadas a essas dificuldades, a área da cultura também é alvo de ataques e políticas de desmonte do governo Jair Bolsonaro. Das nomeações em instituições de quadros sem qualificação técnica à paralisia na aprovação de projetos pela Lei Rouanet, a administração federal age desde o início para minar a área.

    Para Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo (Serviço Social do Comércio), 2021 está sendo um ano de problemas “agravados”. Figura central das artes nacionais, Miranda já foi chamado de “o outro ministro da Cultura” por seu papel na instituição que promove atividades nas mais diversas linguagens artísticas.

    O Sesc é parte do chamado Sistema S, grupo de nove entidades ligadas a categorias profissionais que já entrou diversas vezes na mira do ministro da Economia, Paulo Guedes, defensor de cortes no sistema, mantido com contribuições compulsórias de empresas.

    O Nexo conversou com Danilo Miranda em 30 de abril, por chamada de vídeo, sobre o cenário da cultura na pandemia estendida e sob Bolsonaro, entre outros temas.

    Como o sr. enxerga os desafios do setor cultural brasileiro diante de mais um ano inteiro na pandemia?

    DANILO MIRANDA Antes da pandemia, a realidade brasileira já era de problemas de financiamento de projetos culturais, em razão de entendimentos inadequados da administração pública federal, de pessoas que não são do ramo, vendo a cultura como uma espécie de ameaça, um perigo que poderia comprometer ou desequilibrar a proposta do atual governo, que foge da questão do enfrentamento de assuntos que a cultura trata, como nossa desigualdade, nossas questões de gênero, de raça, de inadequação, de desatenção com boa parte do povo brasileiro. Isso é tratado como uma ameaça ao projeto de poder de quem está lá. Com a pandemia então, o financiamento foi totalmente paralisado.

    Agora, os problemas não só continuam, como se agravam. As coisas vão se acumulando, problemas aumentando e as dificuldades para dar continuidade se tornam maiores. A presença é parte essencial para a própria existência da cultura, a cultura ressente muito a impossibilidade do contato direto. Claro que as mídias eletrônicas e virtuais preenchem uma parte desse vazio, mas não preenchem tudo. Com a pandemia, tivemos a oportunidade de ver muita coisa, de discutir muitos temas, graças a essa tecnologia. Não tenho queixas e isso ainda vai evoluir muito. Das lives menos elaboradas do começo da pandemia, hoje as pessoas têm mais traquejo e a tecnologia melhorou. O mundo da cultura se vale disso. Mas por mais que se utilize das ferramentas, ainda falta. Por que o presencial, o contato, a relação interpessoal, é fundamental. Da nossa parte, será mais um ano com o virtual como única forma de realizar nosso projeto institucional.

    A lei Aldir Blanc trouxe algum alívio a criadores e organizações na cultura. Qual sua avaliação sobre essa iniciativa?

    DANILO MIRANDA Foi uma saída razoável, que deu um pouco de suporte para os profissionais da cultura, mas insuficiente. Primeiramente, porque o rombo era muito maior que isso, por mais que tenha sido volumosa a ajuda. Depois, são muitas as pessoas envolvidas nesse processo. Qualquer ação cultural responsável, em qualquer campo, em qualquer linguagem, música, teatro, literatura, artes visuais, tudo supõe infraestrutura e pessoas que dão suporte para isso acontecer, transporte, montagem, circulação, é toda uma infra indispensável para que isso ocorra. Essas pessoas que lidam com essa infra nem sempre são contempladas, como no caso da lei Aldir Blanc que procurou contemplar as pessoas que realizam as ações culturais ou as instituições.

    Qual é o estado da cultura na era Bolsonaro?

    DANILO MIRANDA Por mais que tenha problemas de financiamento, de desatenção pública, mesmo de perseguição, a cultura vai continuar de maneira absolutamente normal, porque ela é inerente à vida normal do ser humano. O que nos faz humanos é a cultura, não é simplesmente a economia, é a capacidade de criar, desenvolver, inventar. A cultura nos faz enxergar a beleza, o encantamento ou, através da solução de um artista, provoca um debate, nos faz enxergar uma determinada realidade. Então, não adianta ameaçar, perseguir, demonizar, retirar recursos, que a cultura continuará existindo, e a reação dela será superior. Há até quem pense que são nesses momentos que a cultura fica mais forte, se sobressai. Temos muitos exemplos na nossa história de reações do campo cultural a perseguições. É a famosa frase do Chico [Buarque]: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. O barco sacode, as ondas são imensas, mas vamos superar tudo isso.

    Em 2019 e 2020, o ministro Paulo Guedes repetidamente ameaçou fazer cortes no Sistema S. Em que pé está esse assunto?

    DANILO MIRANDA Eles têm uma visão diferente, de uma economia baseada apenas em alguns princípios, como a renda. Como se a renda fosse a única saída. Claro, para viver temos de ter recursos. Então, a primeira coisa que deveriam fazer quando falam em renda seria garantir renda para todos, coisa que nunca levam a sério. Em geral, a cabeça de quem administra é uma cabeça economicista, ou seja, enxerga aquilo de uma maneira muito limitada e não vê o papel das instituições que lidam com a questão de maneira ampla, têm necessidades e que precisam ser mantidas. Só que não é tão simples acabar com o Sistema S, tanto que já tentaram e não foi para frente porque a evidência que aparece do outro lado é tão flagrante, tão óbvia, que acaba massacrando completamente esse pensamento pobre, quase que infantilizado.

    Essa coisa de fazer continha e ver quanto custa para o empresário e esquecer o que tem por trás. Parece que nós somos apenas custo! Somos uma instituição mantida de maneira muito inteligente, invejada por muitos países, e que tem uma missão. Se não está cumprindo bem a missão, existem mecanismos para fazer com que se cumpra melhor. Mas dizer que não tem a menor importância, que não significa nada, como às vezes aparece? Tiraram 50% da nossa arrecadação por três meses e acham que não tem consequência nenhuma? Deixamos de fazer coisas porque tiraram recurso. Se me provassem que esses 50% retirados seriam usados exatamente para o combate à pandemia, para a compra de vacinas, eu ficaria chateado, mas entenderia melhor. Mas nem isso. É tudo usado de maneira inadequada. Agora, eu tenho a impressão de que alguém próximo ali [de Paulo Guedes] percebe que, no fundo, se trabalha contra os interesses do país e conseguiu de alguma forma convencê-los disso, tanto que eles não têm falado com tanta frequência ultimamente sobre isso [cortes no Sistema S].

    Em alguns países, a cultura é encarada como prioridade por seu papel na economia e no soft power internacional. Por que o Brasil tem dificuldades em olhar para sua cultura nesses termos?

    DANILO MIRANDA Porque não há uma concepção de que a cultura tem esse valor. O ministério da Cultura agora é subordinado ao Turismo. Turismo é um aspecto da economia, vinculado um pouco ao mundo da cultura, da educação, da indústria e do comércio. Cultura subordinada ao turismo é uma excrescência, um equívoco, uma falta de visão. Tenho uma trajetória pessoal no mundo da cultura e vi como foi em outros países. O primeiro ministério da Cultura que apareceu foi na França. A cultura tem grande contribuição para o PIB de lá, assim como o turismo, mas o turismo subordinado à cultura, que vai para o que a França oferece em termos de cultura. A Espanha, Portugal, Itália, você vê que a cultura está presente como um “asset” [ativo] econômico fundamental. Nunca houve esse entendimento aqui, mesmo em governos mais progressistas.

    Me lembro que o ministro Jack Lang, que foi ministro da Cultura do presidente François Mitterrand, quando esteve em São Paulo, dizia que era o “primeiro-ministro da Cultura”. Com isso, ele queria dizer que era chamado mesmo que o assunto não tivesse ligação direta com a pasta dele. Exemplo: o ministério que cuidava da administração de presídios estava implantando um programa de bibliotecas nas prisões. Estava lá o ministro da Cultura discutindo isso. A mesma coisa para o campo da Educação e todos os outros. Quando havia necessidade de alguma campanha para explicar à população de, por exemplo, um novo projeto econômico, uma questão sanitária, a cultura estava presente para discutir junto com os outros ministros, para ajudar nesse esclarecimento, nessa comunicação. Imagine isso no Brasil.

    Em diversas ocasiões, o governo Bolsonaro atacou produções culturais e defendeu sua censura sob a alegação de que é preciso “preservar valores cristãos”. Como o sr., que tem forte componente religioso em sua formação, vê esse tipo de argumento?

    DANILO MIRANDA Eu distingo muito bem o papel das religiões e das crenças pessoais das coisas que dizem respeito ao interesse público e democrático. Eu sou um republicano, um democrata e sou laico. Misturar religião e crença é algo indesejado, inadequado, inconveniente e mesmo ilegal e inconstuticional do ponto de vista de tomada de decisão. Por exemplo, dizer que uma pessoa tem de estar em um cargo porque ela professa uma religião X, Y ou Z é totalmente inadequado do ponto de vista do senso comum. Ela tem que estar lá porque é competente, conhece o assunto, pode me dar uma ajuda, é leal, acredita nos princípios democráticos. Estamos vivendo uma realidade nova. Esses valores tidos como da família, da moralidade, dos bons costumes, não são outra coisa senão pensamentos retrógrados, anti interesse público, contrários à evolução natural e ao conhecimento das pessoas, da valorização da educação, ao respeito pelos direitos humanos. Tudo isso tem de ser combatido. Então essas afirmações são extremamente equivocadas.

    Uma sociedade normal tem de ser laica, não podemos nos submeter ao fanatismo religioso, de qualquer lado. Cada vez mais vivemos em um mundo plural, onde eu dependo de você, e você depende de mim. Para que essa dependência seja correta, e igualitária, as pessoas têm de banir qualquer pensamento religioso das questões do Estado e de interesse público. Fui formado numa família católica, religiosa, fui seminarista, fui jesuíta, tive uma formação do ponto de vista do conhecimento, das humanidades, muito profunda e séria, de valores como solidariedade e do respeito ao outro, que para mim é fundamental como princípio de orientação de vida, são valores humanos. Tenho minha crença pessoal, meu modo de enxergar as coisas, agora nada disso interfere no meu pensamento sobre administração pública, interesse público. Não há conflito da minha parte.

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