‘De patinho feio, o SUS virou um cisne sem recursos’

Médica e estudiosa de saúde pública Ligia Bahia fala ao ‘Nexo’ sobre o impacto da pandemia no sistema de saúde pública do Brasil

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A médica Ligia Bahia é doutora em saúde pública e estuda as políticas de planejamento nacional do setor, além das especificidades dos sistemas público e privado no Brasil. Sua posição acadêmica, como professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a coloca num lugar privilegiado para avaliar como o SUS (Sistema Único de Saúde) vem se saindo no enfrentamento da maior crise sanitária de sua história.

Esta entrevista ao Nexo foi concedida em 27 de abril, dia em que a CPI da Covid realizou sua primeira reunião, em Brasília, enquanto hospitais de todo o país tentavam se recompor da falta de leitos e de equipamentos, após terem lidado com os recordes mundiais de aumento nas contaminações e mortes que marcaram os meses de março e abril.

Para Ligia Bahia, a pandemia está levando o SUS ao seu limite, e colocando todo o sistema à prova. Ela considera que a crise faz o brasileiro perceber a importância de contar com um robusto sistema público de saúde, como este, erguido no país após a Constituição de 1988, e que hoje atende mais de 200 milhões de cidadãos. Porém, a resposta dada à população ainda tem falhas e é insuficiente – mesmo que por motivos alheios ao desenho do SUS em si, e ligados à incompetência do atual governo federal, como no caso da compra de vacinas.

A médica e pesquisadora avalia que nem mesmo o saldo positivo do desempenho do SUS na pandemia atual é suficiente para afastar de vez o debate sobre a privatização do sistema, que continua acontecendo no ambiente político, “fora dos holofotes do ‘viva o SUS’”.

Que impacto a pandemia teve na forma como os brasileiros veem o SUS? Como esse impacto é medido?

Ligia Bahia O SUS passou a ser reconhecido como relevante, como um sistema de saúde que poderia responder à pandemia. Em vez daquelas fotos de pessoas jogadas em cima de macas nos corredores de hospitais pelo país afora, emergiu um sistema com CTI [Centros de Terapia Intensiva], com profissionais de saúde de carne e osso, pessoas que estão batalhando pela vida.

Então, eu acho que mudou a compreensão sobre o que é o SUS no Brasil. Todos passaram a falar bem e a aplaudir o sistema. De patinho feio, o SUS virou um cisne. No entanto, ele é um cisne sem autonomia para nadar no lago. O SUS continua subfinanciado e sofrendo com a descontinuidade em sua gestão. Está sem capacidade para articular respostas adequadas às necessidades de saúde.

A sra. considera que também houve mudança na postura dos governantes em relação ao SUS, por causa da pandemia?

Ligia Bahia Sim e não. Eu acho que, agora, vai ser difícil para quem quiser se eleger em 2022 desconsiderar o SUS. Por outro lado, o ministro [da Economia] Paulo Guedes declarou hoje [27 de abril de 2021] que a saúde pública não funciona, que o Brasil não tem como sustentar um aumento da esperança de vida de sua população, e voltou a mencionar a velha e gasta proposta de voucher.

Ou seja, nós temos atualmente no Brasil um debate oculto, que fica escondido, fora dos holofotes do ‘viva o SUS’. Em reuniões sobre o setor privado, ainda prevalece a ideia de que ‘o SUS não presta’.

De que maneira esse impacto pode influenciar o futuro do sistema, em relação, por exemplo, à manutenção do caráter público ou às propostas de privatização?

Ligia Bahia Já está influenciando agora, neste momento. Houve expansão do setor privado e aumento pouco significativo da capacidade instalada do setor público. Mas vai ficando muito nítido que a privatização nos levará para a situação da qual os EUA hoje querem sair. A eleição do [Joe] Biden terá um papel muito relevante no debate sobre sistemas privados ou públicos no mundo, e certamente no Brasil.

A atual pandemia é o maior teste de stress pelo qual o SUS já passou. Como ele tem se saído, na sua avaliação?

Ligia Bahia Médio, nota 5. O sistema demonstra potencial, mas não resolveu lacunas que terminam por fazer a população desacreditar de políticas baseadas no bem comum.

A população que procura o SUS não tem certeza se será atendida e, se for, não sabe como será a qualidade da atenção prestada. Ao longo da pandemia, faltaram testes, faltou oxigênio e faltaram oxímetros em unidades básicas de saúde, assim como faltaram equipamentos de proteção individual para profissionais de saúde. Depois houve déficit de respiradores e de leitos, e, por fim, de medicamentos para intubação e de vacinas.

O SUS parece ter toda capacidade de conduzir um programa vacinal de larga escala. Entretanto, isso ainda não acontece com o alcance e o ritmo desejados. Onde está o problema e de quem é a culpa?

Ligia Bahia A responsabilidade é do governo federal, que não usou recursos disponíveis pelo ‘orçamento de guerra’ para adquirir vacinas e investir em ciência e tecnologia. Hoje, o Brasil não tem a quantidade de doses para vacinar o grupo prioritário.

Nós estamos no final de abril e nem sequer a maioria dos idosos têm cobertura completa das vacinas. O país dispõe de uma vasta e bem treinada rede para vacinar mas ficamos à mercê da péssima gestão no Ministério da Saúde.

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