‘A pandemia trouxe uma terrível lição de modéstia’

Historiador francês Stéphane Audoin-Rouzeau fala ao ‘Nexo’ sobre a herança deixada pela gripe espanhola em 1918 e as comparações da crise sanitária da covid-19 com uma guerra

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O historiador francês Stéphane Audoin-Rouzeau é especialista na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Com a pandemia da covid-19, ele passou a interessar-se cada vez mais pelo uso que os políticos atuais fazem da retórica da guerra para justificar as medidas excepcionais que estão sendo tomadas na área da saúde.

Nesse cruzamento de discursos, governantes, como o presidente da França, Emmanuel Macron, tomam emprestado do vocabulário bélico o apelo à coesão nacional e ao sacrifício, mesmo que não existam inimigos ou violência na dinâmica da pandemia. Audoin-Rouzeau é um crítico dessa estratégia, ainda que seja um apoiador das medidas sanitárias derivadas dela, como o lockdown.

As pesquisas sobre a Primeira Guerra têm ainda um ponto de contato importante com a pandemia atual. Foi em 1918, com o fim do conflito, que a Europa tornou-se epicentro da gripe espanhola – doença que provocou um número de mortos 16 vezes maior que a atual pandemia da covid-19 numa época em que a população mundial era pelo menos quatro vezes menor que a de hoje.

Nesta entrevista, concedida por escrito ao Nexo no dia 15 de abril, Audoin-Rozeau fala sobre a memória da guerra aplicada às políticas sanitárias da pandemia atual, tema da conferência que ele dará no dia 27 de abril no ciclo de debates sobre a covid-19 promovido pelo Consulado da França em São Paulo, em parceria com a Unesco, órgão das Nações Unidas para educação e cultura, e com os Blogs de Ciência da Unicamp.

As transmissões do ciclo são feitas ao vivo, online, em francês, sem legendas. Em seguida, os vídeos ficam disponíveis nos canais do Consulado da França na internet, com legendas em português.

O sr. criticou o discurso do presidente francês, Emmanuel Macron, no qual ele disse ‘estamos em guerra’ para se referir à pandemia. De acordo com o sr., esse tipo de associação sugere a adoção de um comportamento uniforme da sociedade francesa diante de uma ameaça externa comum. Mas no caso de Bolsonaro, no Brasil, o presidente resiste muito em adotar um esforço nacional uniforme. Isso não é mais nefasto do que a mentalidade de guerra proposta por Macron?

Stéphane Audoin-Rouzeau Eu critiquei essa retórica belicista do presidente Macron à época porque me pareceu algo artificial. Para que haja uma guerra, é preciso haver um inimigo, e é preciso que uma morte violenta se apresente. Esse não é o caso, evidentemente, numa pandemia. Porém, eu verifico que o emprego dessa retórica não durou muito tempo. Note também que a minha crítica não foi dirigida às medidas estritas em si. Ao contrário, o que eu achei inaceitável foi o emprego inadequado dos termos.

O que me incomoda, como historiador, é que a Primeira Guerra Mundial [1914-1918] forneceu as imagens e as palavras que foram usadas pelo presidente da República em sua estratégia de comparação entre a guerra e a pandemia, o que mostra como a Grande Guerra está presente na lembrança dos políticos franceses. É algo que persiste como a grande referência histórica contemporânea de tragédia que bateu à nossa porta.

Contudo, há algo que é justo nessa comparação: a alteração temporal que foi provocada tanto pela pandemia quanto pela guerra. Com a pandemia, nós entramos num “outro tempo”, assim como ocorreu em 1914. Nossas sociedades entraram na pandemia pensando que sairiam dela num curto espaço de tempo, mas, em vez disso, se viram metidas num longo tempo pandêmico. O mesmo ocorreu com os contemporâneos da Grande Guerra, que partiram pensando num fim de conflito no Natal de 1914, mas que só saíram dela quatro anos depois.

É comum, no Brasil, as pessoas dizerem que os europeus reagem de maneira estóica e organizada às tragédias porque viveram experiências de guerra em seus territórios no passado. Em que medida isso é verdade? Em que medida é apenas um estereótipo popular?

Stéphane Audoin-Rouzeau Devo dizer que eu não conhecia essa ideia brasileira sobre uma suposta resiliência europeia superior, ligada aos dramas da primeira metade do século 20, dos quais a Europa foi efetivamente o epicentro.

É certo que o referencial dos europeus repousa nas experiências precedentes de guerra: a Primeira Guerra Mundial para a França, a blitz [bombardeios aéreos nazistas em larga escala] de 1940 para os britânicos, o ‘ano zero’ de 1945 [após a derrota nazista na Segunda Guerra] para os alemães.

Entretanto, observando esse início da pandemia, eu acho que dificilmente essas experiências sociais dramáticas resultaram numa resiliência superior. O que eu acho é que a sociedade europeia é de forma geral uma sociedade de forte disciplina social, além de serem democracias antigas no seio das quais, em casos de graves crises, se cristaliza um consenso mínimo em torno das medidas preconizadas – ou, melhor dizendo, medidas ordenadas – pelos governantes.

Esse consenso nunca é dado de saída, ele precisa ser criado e recriado. Mas, enfim, ele existe. Até aqui, mesmo com protestos, às vezes com manifestações, esse consenso tem se mantido.

Um dos efeitos nefastos que a guerra provoca é o enfraquecimento do direito e a perda de liberdade diante da hipertrofia de um poder estatal, em particular do aparato militar. A pandemia também provoca algo semelhante? Isso pode ficar como herança?

Stéphane Audoin-Rouzeau Esse é um receio que tem aparecido com frequência, pelo menos nos países europeus: o receio de que as liberdades democráticas, os direitos individuais, minados por medidas restritivas tomadas pelos Estados em todas as áreas – em particular a liberdade de ir e vir, que é absolutamente fundamental –, sejam duramente afetados pelas atuais medidas. Mas eu diria que esses temores são infundados.

Chama a atenção o consentimento extraordinário que as sociedades europeias têm dado a esses constrangimentos. Ninguém poderia dizer que isso seria assim, em particular na França. Embora o país seja considerado depositário de uma cultura política facilmente insurrecional – basta ver a chamada crise dos “coletes amarelos” do final de 2018 –, a sociedade se submeteu muito obedientemente às restrições.

Ao contrário de outros países europeus, nós não tivemos um único motim na França protestando contra medidas restritivas. Isso não quer dizer, porém, que se possa falar em União Sagrada [termo usado para o projeto de união nacional que se seguiu ao fim da Primeira Guerra, em 1918, na França].

Que mudanças sociais a gripe espanhola deixou de herança? E que heranças a pandemia atual da covid-19 pode deixar?

Stéphane Audoin-Rouzeau A historiografia tem, recentemente, reavaliado consideravelmente para cima o número de vítimas da gripe espanhola de 1918-1919: estamos falando agora de 50 milhões de mortos ou mais para uma população mundial de 1,7 bilhões de habitantes à época, o que torna possível colocar em perspectiva a gravidade da atual pandemia [até a penúltima semana de abril de 2021 eram 3 milhões de mortos pela covid-19 para uma população mundial de 7,8 bilhões de pessoas].

Essa imensa pandemia da gripe espanhola, certamente a mais importante de nossa contemporaneidade, teve obviamente consequências econômicas e sociais importantes, mas é difícil separar isso das consequências da própria guerra.

A influência mais direta foi o surgimento de uma nova consciência sobre a necessidade de criação de uma rede global de vigilância sanitária, o Comitê de Saúde da Liga das Nações, precursor da atual Organização Mundial da Saúde (OMS).

Criou-se à época uma certa consciência do caráter internacional das ameaças epidêmicas, assim como surgiu também uma globalização das preocupações com a saúde e em relação às medidas profiláticas que precisam ser adotadas numa perspectiva de acompanhamento populacional. Decorreram disso as primeiras políticas públicas de saúde: na França, o surgimento do Ministério da Higiene, Assistência e Previdência Social, criado em 1920, ancestral do nosso Ministério da Saúde. Isso foi, em grande parte, uma herança da gripe espanhola.

Sobre o futuro, prefiro não comentar. Não é verdade que os historiadores tenham uma capacidade superior de prever o futuro. No entanto, parece-me que nossas sociedades, até então tão autoconfiantes, reconectaram-se com o aspecto trágico da história, com a imprevisibilidade dos acontecimentos, e receberam uma terrível lição de modéstia. As consequências culturais de tudo isso podem ser consideráveis.

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