‘No ritmo atual, vacinaremos o último brasileiro em 2024’

Especialista em imunologia fala ao ‘Nexo’ sobre o risco que a vacinação lenta traz para o surgimento de variáveis resistentes

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Uma vacinação lenta e em pequena escala, somada à livre circulação do vírus, é “o perfeito celeiro para a seleção de variantes virais que, além de serem mais transmissíveis, podem escapar totalmente da proteção gerada pelas vacinas”, disse ao Nexo o biólogo Maurílio Bonora Júnior, mestrando no Laboratório de Estudos em Autoimunidade da Unicamp.

O cenário descrito por ele é exatamente o existente no Brasil, onde até domingo (11), só 11% da população tinha recebido pelo menos uma dose de vacina contra a covid-19, e onde não existe uma política nacional unificada de lockdown, como recomendado por especialistas estrangeiros, como Anthony Fauci, líder da força-tarefa contra a pandemia nos EUA.

Bonora, que também atua num programa de disseminação do conhecimento científico nos Blogs de Ciência da Unicamp, deu na quinta-feira (8) uma palestra sobre “As vacinas contra a Covid-19 – Suas diferenças e similaridades na produção de resposta imune”, no ciclo promovido pelo Consulado da França em São Paulo sobre a covid-19, em parceria com a Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura).

As transmissões são feitas ao vivo, online, em francês, sem legendas. Em seguida, os vídeos ficam disponíveis nos canais do Consulado da França na internet, com legendas em português. A entrevista foi concedida por escrito ao Nexo, na quarta-feira (7).

Em Israel, 61% da população já havia recebido pelo menos uma dose de vacina contra a covid-19 até o fim da primeira semana de abril. Que conclusões podem ser tiradas do processo de imunização nesse estágio? E quais as projeções futuras num contexto como esse? O vírus será extinto? As pessoas voltarão a uma vida normal?

Maurílio Bonora Júnior É cedo para tirar grandes conclusões sobre os reflexos da vacinação. No entanto, os países que mais estão vacinando, como Israel, já estão vendo uma grande redução no número de casos, mortes e internações dentro da população vacinada, olhando principalmente para idosos e agentes de saúde.

Recentemente, foi publicada uma pesquisa feita em Israel, que avaliou a resposta de 600 mil pessoas vacinadas com a vacina da Pfizer. O que se viu foi uma eficácia muito próxima do que tinha sido mostrado pela Pfizer nos resultados da fase 3. Inclusive, é mostrado que a vacina da empresa é capaz de proteger bem contra a variante do Reino Unido, B117, que à época da vacinação já era a linhagem dominante no país. Os autores até dizem que a vacina é capaz de prevenir a transmissão do vírus entre pessoas. Entretanto, os dados referentes a isso não são muito robustos, visto que a pesquisa não foi desenhada para entender esse ponto.

Muito provavelmente o Sars-CoV-2 não será extinto dentro da população humana. Assim como outros vírus respiratórios, como o H1N1, é mais provável que ele fique circulando, mas causando infecções muito mais leves do que temos visto atualmente, muito por causa da vacinação. Por causa disso, é difícil dizer quando as pessoas voltarão a ter uma vida normal, pois não temos informações suficientes sobre algumas características das vacinas, por exemplo, o tempo da imunidade causada por ela. Pode haver a necessidade de doses de reforço, ou mesmo uma vacinação anual, como é o caso da gripe.

No Brasil, apenas 8% da população havia recebido pelo menos uma dose de vacina contra a covid-19 até 7 de abril. O país não tem uma política coordenada de lockdown ou de respeito aos protocolos sanitários que evitam o contágio. Quais podem ser as consequências dessa mistura de baixa imunização com grande circulação do vírus original e de suas variantes?

Maurílio Bonora Júnior O grande problema nesse contexto é o surgimento de novas variantes resistentes às vacinas, como já está acontecendo no caso da resistência da variante sul-africana à vacina de Oxford/AstraZeneca. As vacinas são a nossa maior proteção contra a pandemia, contudo, elas sozinhas não nos salvarão. Para o combate à covid-19, a vacinação precisa ser rápida e em larga escala. Além disso, é fundamental estar aliada a medidas de controle na circulação de pessoas, uso de máscaras e imposição de lockdowns.

O Brasil é o quinto país que mais aplicou doses de vacinas em valores absolutos, contudo, ao comparar a vacinação por 100 habitantes, estamos muito atrás no ranking. Temos uma população de 210 milhões de habitantes e, no ritmo que estamos, vacinaremos o último brasileiro somente em 2024.

Uma vacinação lenta e em pequena escala, somada à livre circulação do vírus, é o perfeito celeiro para a seleção de variantes virais que, além de serem mais transmissíveis, como é o caso da variante P1 [encontrada em Manaus], podem escapar totalmente da proteção gerada pelas vacinas. Uma vez que uma variante desse tipo surja, ela rapidamente toma conta do cenário nacional – e possivelmente internacional –, o que pode fazer com que todo o tempo e dinheiro na vacinação até agora fossem desperdiçadas.

Além disso, todas essas medidas precisam ser coordenadas pelo governo federal, e não somente por alguns estados e cidades. O problema em permitir que cidades e estados façam lockdowns de forma independente e isolada é: quando o número de casos nesta cidade fechada reduzir, essa cidade vai reabrir e começar a receber pessoas de localidades vizinhas que não fizeram lockdown. Depois de um tempo, os casos voltarão a subir. As ações precisam ser conjuntas, os lockdowns devem ser feitos nos municípios, mas precisam ser coordenados em esferas maiores – estaduais e federal – para terem maior apoio, efetividade, além de condições às populações vulneráveis de cumprir o fechamento.

Qual o risco de que as vacinas disponíveis atualmente não cubram novas variantes da covid-19 no futuro? E qual a possibilidade de desenvolver e distribuir em tempo hábil versões atualizadas das vacinas, de maneira a impedir que a pandemia volte, adiante, aos níveis atuais?

Maurílio Bonora Júnior O risco das vacinas atuais não funcionarem em novas variantes é proporcional ao aparecimento dessas variantes: quanto mais nós permitirmos que esse vírus sofra mutações e surjam novas variantes, maior é a chance das vacinas não funcionarem.

Até o momento, as infecções causadas pelas variantes do Brasil, África do Sul, Reino Unido e outros países ainda podem ser combatidas com as vacinas que temos, contudo, já foi visto que a eficácia de algumas delas, como da AstraZeneca e Janssen, é menor na variante da África do Sul. Essas vacinas ainda são altamente eficazes em diminuir o número de casos moderados e graves – aqueles que precisam de hospitalização e uso de UTI –, mas contra casos leves elas não se demonstram tão potentes.

Entretanto, muitas das vacinas para covid-19 usam novos tipos de biotecnologias, em que um vírus, uma molécula de lipídio (gordura) ou até uma bolha de lipídeos, entrega parte do material genético do Sars-CoV-2 para as nossas células. Empresas como a Pfizer e Moderna já disseram que são capazes de atualizar suas vacinas em 3 semanas para conter novas variantes. Essas são as chamadas vacinas de segunda geração. Contudo, ainda precisa-se somar nesse tempo os meses que levarão para testar essas vacinas em pessoas infectadas pelas variantes.

O Brasil também está se preparando para as novas variantes, apesar de todo o trabalho em instâncias governamentais contra a vacinação e a proteção da população. Nas últimas semanas, duas candidatas à vacina de covid-19 desenvolvidas em cooperação por universidades brasileiras e órgãos estrangeiros, a ButanVac e a Versamune, enviaram documentação à Anvisa pedindo o início dos testes de fase 1 e 2. Essas candidatas a vacinas também são de segunda geração, e já farão seus testes levando em conta a variante P1 do Brasil.

Por que autoridades sanitárias da União Europeia levantam dúvidas sobre a eficácia e a segurança da vacina de Oxford, produzida pela AstraZeneca? Se a aprovação dela passa por processo científico, porque existem avaliações científicas tão divergentes a respeito dela? Como isso funciona? Em quem confiar?

Maurílio Bonora Júnior O desenvolvimento de toda e qualquer vacina passa por múltiplas fases tanto de pesquisa, feita por cientistas, quanto de regulação, feita por órgãos de fiscalização. Uma vez que a candidata à vacina passa por essas fases, ela é aprovada e aplicada na população, quando inicia a última fase – não mais de teste. Nesta fase aplicamos a vacina em milhões de pessoas, comprovando no mundo real as características dessa vacina. É nessa fase que já estão as vacinas conhecidas no mundo.

Nessa fase, é comum surgirem eventos que não apareceram nos testes anteriores, como foram os casos de trombose relacionados à vacina da AstraZeneca na Europa. Nesses episódios, o protocolo é exatamente o que foi realizado: paralisa-se a aplicação dessa vacina e continua-se com outras. Enquanto isso, pesquisadores e outras autoridades buscam entender se há relações entre a vacina em questão e os problemas que surgiram. Nos episódios de trombose, as autoridades chegaram à conclusão que eles não tinham qualquer relação com a vacinação. Com isso resolvido, as pessoas voltaram a ser vacinadas com ela [A Agência Europeia de Medicamentos passou a considerar acidentes vasculares com a vacina de Oxford/AstraZeneca como “efeito colateral possível”, enquanto o Reino Unido recomenda que menores de 30 anos não tomem essa vacina].

Outro problema que essa vacina teve, relacionou-se à forma como os dados referentes à fase 3 foram liberados, de forma confusa. Mesmo assim, é necessário lembrar que esses resultados passam por avaliações de seus pares, tanto na academia científica quanto nos órgãos reguladores. Caso haja qualquer dúvida, novos resultados são requeridos até que tudo esteja em conformidade para a sua aprovação. A OMS [Organização Mundial da Saúde], pesquisadores e outras autoridades apontam que os benefícios da vacina da AstraZeneca – e todas as outras aprovadas – ainda são maiores do que qualquer risco.

Por fim, a ciência não funciona a partir de falas totalmente uniformes e sem discordâncias ou questionamentos. É comum, em qualquer resultado de pesquisas, termos análises e questionamentos, além de pedirem mais repetições do que foi testado, com novas análises. E é por isso que podemos confiar na ciência: por ela se permitir ser questionada e não ser dogmática.

Perguntar, olhar resultados e analisar novamente, avançar na construção do conhecimento científico a partir de novas perguntas e revisão de conhecimentos anteriores faz parte das ações científicas e é etapa fundamental em qualquer fenômeno natural e social que pesquisamos.

A diferença disso para o momento atual, é que o mundo inteiro está olhando para as mesmas pesquisas e fenômenos e buscando respostas rápidas – e compreendemos esta apreensão, pela urgência que estamos vivendo. Mas confiar na ciência é entender que etapas precisam ser analisadas com acurácia, revisão e debate entre especialistas de diversas áreas. Qualquer órgão regulatório, incluindo a OMS, passa por constante revisão de seus protocolos e análises do que está acontecendo no mundo, neste momento. Por se permitir errar e mudar sempre que for preciso, sem respostas milagrosas e dogmáticas, é que confiamos na ciência.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.