‘Não saímos da crise, mas ainda viveremos o benefício do lockdown’

Em entrevista ao ‘Nexo’, prefeito de Araraquara, Edinho Silva, classifica como ‘terrível’ o custo político do fechamento radical, mas diz que decisão foi orientada por quem pesquisa a doença

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Ao identificar 12 casos de infecção pela nova variante do coronavírus e enfrentar uma explosão abrupta de covid-19, a prefeitura de Araraquara, no interior de São Paulo, decidiu em fevereiro fechar todas as atividades não essenciais que causavam aglomerações. No primeiro dia do decreto, as ruas ficaram vazias. Uma blitz orientava os motoristas sobre as novas regras. Quem as descumprisse poderia ser multado em R$ 150; ou em R$ 6.000, caso a infração fosse cometida por empresas.

Pela primeira vez desde o início da pandemia, uma cidade brasileira adotou por dez dias um lockdown de verdade, que incluía o fechamento de supermercados e a suspensão do transporte público. O período mais rigoroso da medida durou de 21 de fevereiro a 2 de março. Depois, a cidade entrou na fase vermelha, a mais restritiva do plano de reabertura do governo de São Paulo. Na sexta-feira (12), quase três semanas após o bloqueio, a média móvel diária de novos casos havia caído 43%.

A tendência de crescimento foi revertida, mas os hospitais ainda estavam lotados. “Tiramos a cidade efetivamente da crise? Não. Nós temos ainda a pressão sobre leitos, até porque o paciente é internado, principalmente em UTI [Unidade de Terapia Intensiva], e fica semanas, não fica dias”, disse ao Nexo o prefeito da cidade, Edinho Silva (PT).

A taxa de ocupação de leitos de terapia intensiva em Araraquara era de 97% na sexta-feira (12). Nos de enfermaria, o número era de 80%. “Não tenho dúvidas de que até o final de março vamos estar vivendo os benefícios, na sua totalidade, das medidas que tomamos”, afirmou.

Desde o começo da pandemia, a cidade de quase 240 mil habitantes tem sido citada como modelo no combate à covid-19, devido às taxas de mortalidade menores do que no resto do país e pela adoção de uma política de testagem em massa associada à busca ativa de doentes para isolá-los. O caso de Araraquara ganhou destaque em setembro de 2020 no jornal francês Libération por ser o oposto do que pregava o presidente Jair Bolsonaro, crítico de qualquer medida restritiva.

O prefeito, que já foi ministro-chefe da Secom (Secretaria de Comunicação Social) na presidência de Dilma Rousseff e cumpre seu quarto mandato à frente da cidade, evita partidarizar o tema da saúde, mas critica o governo federal pela falta de coordenação de uma política nacional de enfrentamento à pandemia e por não liderar o processo de compra de vacinas, abrindo espaço para negociação feitas por governadores com os laboratórios.

Nesta entrevista ao Nexo, ele diz que a possibilidade de aquisição de imunizantes pelos estados poderá dividir os brasileiros em dois grupos (os com e os sem direito à vacina), e que isso irá “ferir de morte” o princípio da equidade do SUS (Sistema Único de Saúde).

Comenta ainda os protestos de parte da população da cidade contra o fechamento do comércio, classifica o custo político dos lockdowns como “terríveis” e diz que não haverá retomada do crescimento econômico enquanto perdurar a instabilidade da pandemia.

Araraquara foi um exemplo de combate à pandemia em 2020 com testagem e busca ativa de doentes. O que deu errado agora em fevereiro? Essa estratégia teve limitações?

EDINHO SILVA A estrutura que montamos nos deu condições para que descobríssemos ainda em janeiro a circulação da nova variante em Araraquara. O que fizemos em 2020? Uma parceria com a Unesp (Universidade Estadual Paulista). Aqui tem uma faculdade de farmácia com um dos laboratórios mais tradicionais em pesquisa de doenças transmissíveis do Brasil. Foi um dos primeiros laboratórios no país a detectar o HIV, na década de 1980. Nós estamos com quase 87 mil exames realizados, uma testagem de mais de 36 mil por 100 mil habitantes. A taxa nacional é de 13 mil, a do estado de São Paulo é de 20 mil. É uma taxa altíssima. Criamos um centro de monitoramento do coronavírus na cidade, equipes de bloqueio, equipes de telemedicina para acompanhamento dos positivados, equipes de consulta domiciliar, transformamos uma UPA [Unidade de Pronto-Atendimento] numa unidade de acolhimento de todos os sintomáticos de coronavírus.

Essa estrutura fez com que Araraquara tivesse a menor letalidade em 2020 no estado de São Paulo e a terceira menor no Brasil. Graças a essa estrutura, na última semana de janeiro, notamos uma curva muito acentuada de contaminação. A média móvel teve um crescimento abrupto. Se não tivéssemos essa estrutura montada, talvez não detectássemos isso. Remetemos as amostras para o IMT [Instituto de Medicina Tropical, da USP] e tivemos a devolutiva no comecinho de fevereiro de que a nova cepa estava circulando em Araraquara.

Evidente que a nova cepa não estava circulando só em Araraquara, nós comunicamos o governo de São Paulo, comunicamos o Ministério da Saúde. Não tem nenhum motivo geográfico, econômico, cultural que explique porque a cepa de Manaus estaria circulando só em Araraquara. A diferença foi que Araraquara descobriu a cepa antes e, imediatamente, no começo de fevereiro, olhando o que tinha acontecido em Manaus, começamos a correr atrás de ampliação de leitos, de montagem de novas equipes médicas, de estruturas de produção de oxigênio e gás medicinal. Nunca desmontamos o hospital de campanha nem outra unidade que temos aqui para a internação de pacientes de covid-19. Nós ampliamos a capacidade dessas duas unidades e tomamos as medidas de isolamento social ainda em fevereiro.

Hoje, estamos colhendo os frutos dessas medidas que tomamos. Se não tivéssemos essa estrutura montada desde 2020, certamente não teríamos descoberto a nova cepa e não teríamos tomado as medidas preventivas que tomamos. A nova cepa está circulando no Brasil inteiro e é a responsável pelo crescimento absurdo que estamos tendo de covid-19.

O que poderia ter sido feito nacionalmente para impedir que a variante chegasse à cidade?

EDINHO SILVA Estou fazendo de tudo para não partidarizar em hipótese alguma esse debate da pandemia até porque eu penso que saúde pública você não partidariza. Mas não tem como eu não te falar o que vou falar aqui: o governo federal tem vigilância epidemiológica nacional, vigilância sanitária nacional, a Anvisa que aglutina informações estratégicas da saúde no Brasil inteiro. Tem todas as universidade federais que monitoram a saúde no país e as pesquisas que estão ocorrendo. Tem pesquisadores que estudam Sars [síndrome respiratória aguda grave] no Brasil inteiro.

Quando, em dezembro, estoura a nova variante do coronavírus em Manaus, ele tinha em mãos todas as informações, porque tinha as vigilâncias e todos os centros de pesquisa. Ele sabia que era praticamente impossível essa nova cepa não se espalhar rapidamente pelo Brasil. Na minha avaliação, deveria ter em dezembro liberado recursos para novos leitos hospitalares no Brasil inteiro, convocado os governadores e pedido a expansão da rede hospitalar. Deveria ter dado celeridade ao processo de vacinação. Todos os pesquisadores já falavam da gravidade da nova cepa.

Ele deveria ter soltado recursos para uma coisa que estamos vendo aqui que funciona muito: a agilidade das equipes de bloqueio. Achar o positivado, testar e colocar em quarentena. Isso é o que tem nos ajudado de forma eficaz. Precisa de testagem em massa, precisa de equipes de bloqueio, tudo isso dependeria da liberação de recursos do governo federal. Ao contrário disso, ele descredenciou os leitos SUS.

O que estamos vivendo é uma situação dramática. Eu penso que será a maior tragédia humanitária da história do Brasil. Os fatos já estão levando a isso, e ainda não vimos o epicentro da crise. Mesmo se o governo correr hoje e liberar recursos para a ampliação de leitos, os municípios não vão conseguir ampliar, os governadores não vão conseguir ampliar. Porque você não tem na prateleira usina de produção de oxigênio para ser entregue. Isso é feito sob encomenda. Você não tem os produtores de oxigênio de cilindro com capacidade de produzir cilindros e estocagem da noite para o dia. Isso exige um planejamento. E você não tem equipes de saúde. Nós aqui, que começamos a tomar as medidas em janeiro, estamos sofrendo até hoje para montarmos as equipes para a ampliação dos leitos que fizemos em semanas. Infelizmente, qualquer medida que seja tomada neste exato momento dificilmente vai dar conta da realidade que o Brasil já está enfrentando e que vai se agravar.

Empresários fizeram protestos em frente à prefeitura devido ao fechamento de bares e restaurantes em janeiro. Como o sr. avalia essas manifestações e por que é difícil fazer pessoas assimilarem a importância do isolamento no Brasil?

EDINHO SILVA Eu tive ontem aqui uma carreata com 30 carros e buzinaço em frente da prefeitura. Para mim, faz parte do jogo democrático. São 30 carros numa cidade de 250 mil habitantes. Respeito a mobilização, mas não consigo entender o negacionismo no século 21. É muito difícil entender o negacionismo. Ele existe e não é de hoje. Teve mobilização de rua contra o Oswaldo Cruz, contra a vacina da febre amarela. A negação da ciência não é algo novo no Brasil nem no mundo. Estamos vendo negacionistas pelo mundo afora.

O Brasil é um país ocidental de cultura latina. Nós não temos um rigor cultural como tem os países asiáticos ou a tradição dos países europeus que já viveram tragédias e grandes guerras. O Brasil nunca viveu os reflexos diretos de uma grande guerra. Na Segunda Guerra Mundial, mandamos os nossos pracinhas para a Europa, mas não tivemos um cenário de guerra interna. Nós sentimos as consequências da economia de guerra, a depressão econômica que assolou o mundo. É a primeira vez em que o Brasil, com a configuração que temos hoje de estados e metrópoles, de grandes aglomerados urbanos, enfrenta de fato uma tragédia humanitária com reflexos econômicos. É a primeira vez que o país passa por isso. A população brasileira não tem uma cultura de rigor, de controle. Nos países que já viveram grandes guerras, a cada toque de recolher as pessoas iam para os abrigos antibombas. Você tem tradição de racionamento de alimentos diante das tragédias. O Brasil não tem essa cultura. Nós tampouco temos a cultura oriental de uma outra disciplina, de um outro rigor. É muito difícil para um povo como o brasileiro, que é afetivo, que gosta de estar junto, que gosta de abraçar e de estar o tempo todo convivendo, dizer que tem que ir para o isolamento.

Aqui em Araraquara, mesmo com todas essas dificuldades, eu digo que a cidade assimilou o lockdown. A cidade colaborou, tanto é que nós estamos colhendo os resultados. Tiramos a cidade efetivamente da crise? Não, temos ainda a pressão sobre leitos, até porque o paciente é internado, principalmente em UTI, e fica semanas, não fica dias. A pressão nas UTIs que estamos vivendo hoje é consequência do pico da doença que vivenciamos no final de janeiro e começo de fevereiro. Eu não tenho dúvidas de que, até o final de março, vamos estar vivendo os benefícios, na sua totalidade, das medidas que tomamos. Nós já estamos com uma curva decrescente de contaminados, estamos com uma pressão menor sobre leitos, não temos nenhum paciente hoje na cidade esperando para ser internado, mas ainda teremos os benefícios dessas medidas, em plenitude, no final de março.

Bauru, que fica a uma hora e meia de Araraquara, tem se oposto às medidas restritivas. Adianta uma cidade fechar, mas a região não? Falta uma coordenação?

EDINHO SILVA Falta uma programação nacional. Nós temos um sistema de saúde que nenhum outro país do mundo tem. O SUS tem capilaridade em qualquer cidade, em qualquer vilarejo no Brasil. Se der um comando hoje no SUS, ele chega no mesmo dia em qualquer município do Brasil, porque lá vai ter um agente comunitário de saúde, uma unidade de Saúde da Família, uma unidade de pronto-atendimento, alguma coisa do SUS. Infelizmente, o governo federal deveria estar usando o SUS para o enfrentamento à pandemia, para dar comandos que unificasse o Brasil, que criassem um sentimento no povo brasileiro de enfrentamento à pandemia. Ele não faz isso.

Ele partidariza um debate que não deveria ser partidarizado, tenta fazer uma disputa política na sociedade com um tema que é desastroso, que tem matado mais de 2.000 pessoas por dia. É como se dez aviões da Chapecoense caíssem por dia no Brasil. E o mundo se comoveu com o avião da Chapecoense que caiu — e é uma tragédia. Caem dez aviões desses por dia no Brasil. É a maior tragédia humanitária da nossa história, isso não pode ser partidarizado, nem pelo presidente da República nem por governadores ou por prefeitos.

Você tem que fazer aquilo que a ciência te pede para fazer. A ciência te pede que, se você não tem vacinação em massa — e o Brasil não tem vacinação em massa, infelizmente, o país com a dimensão do Brasil vacinou 4% da sua população — só tem uma forma de conter uma pandemia: com distanciamento social. É não permitir que o vírus saia de uma pessoa infectada para uma pessoa saudável. Porque se passar de um infectado para um saudável ele abre novamente mais um ciclo de reprodução e é assim que se constrói a pandemia.

Estou tentando fazer na cidade que eu governo aquilo que é correto. Evidente que o ideal seria que tivéssemos uma ação nacional de enfrentamento à pandemia, conduzida pelo Ministério da Saúde, liderada pelo presidente da República, e que mobilizasse o Sistema Único de Saúde.

O estado endureceu o Plano SP só agora, quase um mês depois do lockdown em Araraquara. A iniciativa é tardia? Qual o custo político das restrições?

EDINHO SILVA O custo é terrível. Nenhum prefeito gosta de anunciar medidas restritivas, imagino que nenhum governador nem o presidente da República. Eu estou anunciando medidas que colocam a economia em retração. Essas medidas vão fazer com que a atividade econômica desacelere, o município perca arrecadação no momento em que eu mais preciso de recursos, porque os municípios hoje estão custeando praticamente todo o enfrentamento à pandemia. No mês passado, o governo de São Paulo liberou recursos para nos ajudar no custeio de leitos de UTI e enfermaria. Não cobre toda a despesa mas ajuda muito. Mas tem a omissão do governo federal. As outras despesas do enfrentamento da pandemia como equipes de bloqueio, testagem, montagem das estruturas do hospital de campanha, da outra unidade de retaguarda que nós criamos de internação, estamos criando mais uma unidade de leitos de enfermaria. Tudo isso é feito com recurso próprio. Os insumos, o pagamento dos médicos. No momento que eu mais preciso de recursos, eu desacelero a economia, derrubo a minha arrecadação própria. É claro que isso não é bom, mas eu não tinha outro caminho.

Conversei com cientistas, com a Faculdade de Saúde Pública da USP, com o IMT [Instituto de Medicina Tropical], com os profissionais da Faculdade de Medicina da Unesp. Foi uma decisão construída com aqueles que estão pesquisando o desenvolvimento da doença. O que eles diziam? Ou é o lockdown ou a cidade vai perder totalmente o controle sobre a pandemia. Porque já estávamos em colapso do sistema de saúde. Quando você tem mais pacientes do que leitos ofertados, você já está em colapso. O que fizemos foi tomar as medidas seguindo as orientações dos cientistas.

Isso é bom ou não? É benéfico? Não. É positivo? Claro que não, porque já tem empreendedor individual, autônomo, microempresário, pequeno e médio empresário sangrando, sofrendo desde 2020. Esses setores da economia não tem mais o que oferecer de sacrifício. Penso inclusive que o governo federal deveria abrir imediatamente uma linha de crédito para socorrer a micro, a pequena e a média empresa até que nós possamos sair da pandemia.

E além do que o governo fica criando uma falsa contradição entre economia e vida. Não existe essa contradição, não existe economia sem vida. E não existe retomada do crescimento econômico no meio da instabilidade. A grande instabilidade hoje é a pandemia. Se nós não equacionarmos, se não fizermos uma gestão adequada da pandemia criando minimamente uma estabilidade no país, nenhum investidor vai pôr dinheiro no Brasil. Nenhum investidor vai tirar seus ativos da Bolsa de Nova York, de Hong Kong, de Londres e trazer seus ativos e investir no Brasil com a instabilidade que estamos vivenciando por conta da pandemia. Se nós quisermos que a economia volte a crescer, temos que mostrar ao mundo que nós estamos controlando a pandemia.

Não me digam que a economia cresceu no ano passado. O que cresceu foi o consumo por conta do auxílio emergencial. Do ponto de vista de um crescimento sólido, sustentável, o Brasil não vivenciou isso. E nem vai vivenciar neste ano por conta da instabilidade gerada pela pandemia.

Araraquara recebeu até agora 30 mil doses de vacinas. A cidade pode ter suspensão da campanha como tem ocorrido no Rio de Janeiro?

EDINHO SILVA Duas semanas atrás, já fizemos uma suspensão de uma semana porque não recebemos mais doses. Nós temos vacinado de acordo com o fornecimento de doses, porque o programa nacional de vacinação é uma atribuição da União. O município recebe as vacinas e aplica o mais rápido possível. Nós, entes federados, deveríamos fazer um apelo ao governo federal, pedir a intervenção do Ministério Público e do poder Judiciário para termos um programa mais célere de vacinação, porque esse programa que o Brasil está desenvolvendo corrobora uma tragédia humanitária que nós já começamos a viver e que vai se intensificar e que vai marcar definitivamente as nossas gerações.

O sr. se manifestou contra a compra de vacinas pelos estados. Por quê?

EDINHO SILVA Eu não sou contra. Se eu tiver oportunidade de comprar, você acha que não vou comprar? O que acontece é que um dos princípios do SUS é a equidade, ou seja, que todo brasileiro tenha o mesmo direito, o mesmo acesso à saúde pública. Se você procurar uma unidade de saúde do SUS, ninguém vai perguntar quanto você ganha, qual a tua renda. Você será atendido. O morador do Oiapoque ou o morador do Chuí, se procurar uma unidade básica, vai ter o mesmo direito que você tem, que eu tenho. Quando você estabelece que terá acesso à vacina a população que morar em estados que tenham condições de comprá-la, você coloca que esses serão os brasileiros com direito à vacina e destrói o princípio da equidade do SUS. Dentro do Brasil, você dividiu o povo brasileiro em dois: aqueles que têm acesso à vacina e vão lutar pela vida e aqueles que não têm acesso à vacina e não vão lutar pela vida. Isso é a destruição do SUS.

O sr. concorda com a compra de vacinas por empresas privadas?

EDINHO SILVA Se comprar e doar para o SUS para dar celeridade ao processo de vacinação, sou favorável, acho que é benéfico. Como eu não sou contra o governador que está vendo uma situação de desespero e tem um país oferecendo uma vacina. Vou dizer o que para o povo aqui de Araraquara? Que não vou comprar vacina porque isso fere o princípio do SUS? Vão me dizer: moro aqui na cidade, você é o prefeito da minha cidade e quero que você acelere o processo de vacinação. O que estou dizendo, em síntese, é que a ausência do governo federal nesse processo está destruindo um dos princípios do SUS que é a equidade, e isso é grave. É gravíssimo.

O governador assinou um decreto considerando as igrejas como atividades essenciais mesmo na fase vermelha. Como o sr. avalia isso?

EDINHO SILVA Tudo o que aglomera contribui para que o vírus se reproduza. É a igreja, é o churrasquinho de final de semana. Do jeito que está no decreto, a igreja atender de forma individualizada, como assistência espiritual, fazer o culto pela internet, não acho que aglomere. O princípio é aquilo que aglomera. O que nós notamos aqui em Araraquara com o rastreamento que a vigilância faz? O que mais propicia o aumento da doença são as confraternizações familiares. É impressionante quando você rastreia. Claro, você tem contaminação no local do trabalho. O problema são as confraternizações que as pessoas relaxam, tiram máscara, é difícil a confraternização que as pessoas não cheguem perto, não conversem de perto. Tomam uma cervejinha e ficam mais relaxados.

Para poder conter o pico da doença, nós determinamos o fechamento de tudo aquilo que aglomera pessoas. O shopping center aglomera, o centro comercial, o supermercado. Por incrível que pareça, o brasileiro tem uma cultura de fazer da compra mensal uma atividade familiar. A família toda vai para o supermercado. É muito difícil fechar o supermercado. Fechamos por seis dias, mas depois começa a gerar desabastecimento. Esses locais aglomeram muito e as igrejas, quando descuidam, também aglomeram, também propiciam uma interação.

As festas, não adianta, são espaços de relaxamento. Nesses espaços, as pessoas se contaminam e muitas vezes. Com essa nova mutação do vírus, mudou muito o perfil. Antigamente era difícil ter um jovem contaminado em que a doença evoluísse. Hoje, não. A doença evolui no jovem, ele está sendo levado para os leitos de UTI, está sendo intubado, e você tem muitos jovens indo a óbito. Isso a ciência ainda não documentou. O que ela documentou é que a nova cepa contagia muito mais do que a antiga, a original. Empiricamente, o que os médicos que estão na linha de frente dizem é que a nova cepa é muito mais agressiva. Tivemos, em 2020, um óbito de paciente com menos de 40 anos. Em 2021, já temos 16 óbitos de pacientes com menos de 40 anos.

O sr. vê alguma perspectiva de melhora na pandemia?

EDINHO SILVA Eu queria te dar uma entrevista cheia de otimismo, mas não consigo. Vai depender muito da vacinação, mesmo com as dúvidas sobre a eficiência ou não em relação às mutações do vírus. A arma que nós temos hoje é a vacina. Se não tivermos a vacinação em massa, dificilmente o mundo sairá dessa pandemia.

Com a proximidade das eleições e a retomada dos direitos políticos do ex-presidente Lula, o Bolsonaro deve mudar de atitude em relação à pandemia?

EDINHO SILVA Só tem uma forma dele mudar de postura. Se o Congresso Nacional entender o seu papel neste momento da história brasileira. Se o Ministério Público entender o seu papel e se o Judiciário tomar medidas em defesa dos interesses do povo brasileiro. É a única saída que eu vejo, porque nós estamos diante de uma tragédia humanitária, as pessoas estão morrendo, nós não vimos ainda o pior cenário da tragédia. Se medidas não forem tomadas com muita agilidade, será muito difícil evitarmos o pior. Mas se nenhuma medida for tomada, vai ser cena de genocídio. Nós já estamos vendo isso. Dois mil brasileiros mortos por dia é um absurdo. A nossa média móvel já é maior do que a dos americanos.

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