O papel dos ‘sentinelas’ regionais para evitar pandemias

Em entrevista ao ‘Nexo’, antropólogo francês especializado em biossegurança fala sobre a importância de territórios com tecnologia para detectar vírus com antecedência e impedir disseminação global de doenças

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    Com longa experiência no estudo de biossegurança e emergências sanitárias, o antropólogo francês Frédéric Keck defende uma estratégia regional para evitar que epidemias locais se tornem pandemias. Ele aposta no reforço do papel dos “sentinelas” da saúde – nome dado a pontos geográficos estratégicos, equipados com os recursos científicos necessários para a detecção de novas ameaças virais em escala global.

    Países como Hong Kong, Taiwan e Cingapura, citados como exemplos por Keck, tem os meios tecnológicos para rastrear os vírus como o Sars-Cov-2 antes de a sua disseminação se tornar crítica e, com isso, conseguem emitir alertas precoces para países de suas regiões para que governos tomem medidas necessárias. Promovendo confinamentos, se necessário, para cortar a circulação viral localmente.

    Nesse sentido, um modelo global de sentinelas poderia impedir que o mundo todo adote medidas extraordinárias ao mesmo tempo para tentar conter a doença.

    Keck é diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França e diretor do Laboratório de Antropologia Social do Collège de France, em Paris, com trabalhos nas áreas de biossegurança e crises sanitárias. Ele concedeu uma entrevista ao Nexo por escrito, na quinta-feira (11). Na segunda-feira (15), ele dará uma palestra virtual para o público franco-brasileiro num ciclo promovido pelo Consulado da França em São Paulo.

    O objetivo do ciclo é “discutir o que a epidemia tem feito aos nossos corpos, às sociedades – em particular à França e ao Brasil –, à ciência, o que nós temos feito dessa pandemia, os significados que lhe são atribuídos e as diferentes maneiras de reagir a ela". Para debater esse olhar multidisciplinar, os organizadores convidaram antropólogos, sociólogos, epidemiologistas, biólogos, médicos e matemáticos franceses e brasileiros.

    Os eventos são promovidos em parceria com a Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) e com os Blogs de Ciências da Unicamp, e vão ocorrer de março a dezembro de 2021. As transmissões são feitas ao vivo, online, em francês, sem legendas. Em seguida, os vídeos ficam disponíveis nos canais do Consulado da França na internet, com legendas em português.

    A China foi criticada no início da pandemia pelos confinamentos forçados, pelo uso obrigatório de máscaras, pelo monitoramento em massa do movimento das pessoas, como se tudo isso fosse a exacerbação das características de um regime de força. Entretanto, um ano depois, as democracias liberais do Ocidente recorreram aos mesmos protocolos. Qual o significado disso?

    Frédéric Keck Isso é algo que demonstra que a preparação para as pandemias não é questão de uma cultura ameaçadora. Antes disso, é uma questão de reação às emergências virais.

    As sentinelas da China – Hong Kong, Taiwan, Cingapura – agiram de forma mais rápida [do que a própria China, epicentro original da pandemia no mundo], e conseguiram evitar o confinamento, uma vez que o rastreamento tecnológico das populações foi algo bem aceito para que se pudesse atingir o objetivo de “covid zero” nesses locais.

    Na sequência, o confinamento foi uma medida que se impôs ao restante do mundo como uma necessidade de recuperar o terreno perdido e de proteger as populações mais vulneráveis. Nada disso deve, no entanto, vir a tornar-se um modelo de gestão das pandemias do futuro. As sentinelas devem poder conciliar saúde com liberdade.

    As epidemias e pandemias não são uma novidade. Os seres humanos viveram com essas ameaças por séculos. O que mudou, do ponto de vista social e antropológico, no modo como reagimos à pandemia atual?

    Frédéric Keck O que mudou foi a escala das transformações que passaram a ser impostas pelos seres humanos ao meio ambiente. Mudou também a conexão entre os diferentes territórios do planeta – um vírus que, antes, poderia circular silenciosamente, hoje, se amplifica, num contexto em que nossas economias, conectadas, são muito vulneráveis. A atual pandemia está aí a nos lembrar também o quanto nossas sociedades liberais podem ser mortíferas, uma vez que são erigidas em torno do mote “viva e deixe morrer”.

    É possível prever quais mudanças vão perdurar – distanciamento social, hábitos de higiene, uso de máscara, trabalho à distância? Quais serão as heranças desse trauma?

    Frédéric Keck Nós não teríamos tomado nenhuma dessas medidas sanitárias que você menciona se as tecnologias de informação atuais não as tivessem transformado em medidas palatáveis, mas essas mesmas tecnologias devem ser reguladas a fim de evitar a difusão de informações falsas. Essa regulação [da difusão de informações falsas] deve seguir a mesma lógica que usamos para monitorar o vírus.

    Você menciona o uso de máscaras. Esse é um recurso, por exemplo, que nos permitiu diminuir o perigo das doenças respiratórias, mas é ao mesmo tempo um recurso que traz consigo um custo ecológico elevado [dado a escala gigantesca de máscaras descartáveis não biodegradáveis que estão sendo lançadas na natureza em todo o mundo]. Como acontece em todas as guerras, a atual luta contra a pandemia também é um exemplo de aceleração do uso das tecnologias disponíveis, de maneira a fazer com que essas tecnologias acabem ajudando a diminuir a resistência à adoção de medidas [que em tempos normais não seriam tão facilmente aceitas, como o uso de máscaras].

    O início da vacinação revelou uma enorme disparidade entre países ricos e pobres. De que maneira o acesso aos frutos do progresso científico exacerba essa fossa entre os extremos? Essa será uma nova linha de fratura mundial?

    Frédéric Keck A compra de vacinas deu início a uma corrida entre os países mais ricos, como os países europeus e os EUA, num contexto de disputa por inovação tecnológica. Os países mais pobres, como os países do continente africano e da América do Sul, foram deixados à margem dessa corrida.

    A China desempenha um papel interessante. Trata-se de um país que não vacinou massivamente a própria população e que realizou estudos clínicos de suas vacinas em populações de países do Sul, como a Indonésia e o Brasil, de maneira que, agora, o governo chinês pode reivindicar para si um posição no centro da saúde global, de maneira a reduzir essa fratura vacinal [no sentido de reduzir a distância entre ricos e pobres no acesso às vacinas]. Para que isso seja possível, no entanto, é necessário garantir a segurança dos produtos que a China está oferecendo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.