O que reivindicar no 8 de Março em ano de pandemia

O ‘Nexo’ entrevista a professora de antropologia da USP Heloisa Buarque de Almeida sobre os impactos da crise de saúde para as mulheres

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    Com um ano de pandemia do novo coronavírus, o Dia Internacional das Mulheres, comemorado nesta segunda-feira (8), não é apenas uma data de celebração pelas conquistas feministas históricas, mas também de luta por direitos que foram violados no último ano como efeito da crise de saúde.

    Professora de antropologia da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora de temas de gênero, Heloisa Buarque de Almeida fez esse diagnóstico em entrevista ao Nexo por telefone na quinta-feira (4), enquanto citava os amplos impactos da epidemia de covid-19 sobre as mulheres brasileiras.

    Embora tenha afetado todo o país, a crise do coronavírus teve impactos desiguais sobre diferentes grupos da população, reforçando discrepâncias que já existiam na sociedade brasileira. Com o isolamento social, a pandemia sobrecarregou mulheres que exercem trabalhos domésticos e de cuidado não remunerado e as expôs a violência doméstica.

    A participação feminina no mercado de trabalho caiu em relação ao período anterior à pandemia, ficando em 46,3% no segundo trimestre de 2020, a menor em 30 anos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em comparação, os homens registraram 65,5% de participação no mercado na mesma época. Na América Latina, as condições trabalhistas de mulheres recuaram uma década, de acordo com a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe).

    Mulheres também são a maior parte dos profissionais do cuidado — como os profissionais da área de saúde — que se tornaram ainda mais atuantes na pandemia. Estudos mostram que, embora homens sejam as principais vítimas do novo coronavírus no país, elas são as mais afetadas pela crise no dia a dia, e veem mais danos em sua saúde mental.

    Para Heloisa Buarque de Almeida, quando as mulheres perdem direitos, o país piora. A violência doméstica, por exemplo, tem custos para o sistema de saúde e para a economia, pois mulheres violentadas não têm condições de trabalhar — ou pelo menos de trabalhar adequadamente. Ela considera que, com a pandemia, as desigualdades de gênero se aprofundaram.

    “Desde antes da pandemia, estávamos enfrentando um período terrível de desmantelamento de políticas públicas” para as mulheres, disse em entrevista ao Nexo. “São, então, dois níveis — um antigo e um novo — de ataques às mulheres.” Ela cita retrocessos como o desmonte das Casas de Abrigo e do acesso ao aborto legal no país.

    O Nexo perguntou a ela o que significa o 8 de Março em ano de pandemia, como as mulheres podem reivindicar direitos em 2021 e quais são as perspectivas para este ano, com o provável prolongamento da crise de saúde. “A tendência é que haja um aumento dos impactos”, segundo ela, mas os movimentos feministas estão reivindicando nos espaços que podem.

    O que significa o Dia Internacional das Mulheres em ano de pandemia?

    Heloisa Buarque de Almeida A primeira coisa que penso é que a última coisa que fiz antes da pandemia foi exatamente uma manifestação para o 8 de Março na Av. Paulista [em São Paulo]. Depois, no dia 11, participei de uma manifestação na USP. E, no dia 13, a USP decretou quarentena.

    A primeira sensação que tenho, então, é que não vamos mais poder fazer nossos atos como de praxe no dia 8 de março. É muito comum haver uma passeata, um ato nas ruas. É muito triste o momento que estamos vivendo.

    Por outro lado, o 8 de Março é uma data de luta. As pessoas às vezes pensam que é uma celebração, mas é uma data de luta também. E temos muitas pautas feministas para erguer — uma luta muito grande em vários campos dos direitos das mulheres no Brasil e no mundo. No contexto da pandemia, penso em como as mulheres foram especialmente afetadas por esta crise.

    Qual foi o impacto da crise do novo coronavírus sobre as mulheres brasileiras?

    Heloisa Buarque de Almeida Com a pandemia, vimos uma série de notícias sobre o aumento da violência doméstica, contra mulheres e contra crianças e adolescentes. Esse tipo de violência é muito mais comum no ambiente doméstico, e ela cresceu com as pessoas, e principalmente as crianças, ficando mais em casa.

    Foi muito marcante também a sobrecarga de trabalho doméstico. Normalmente, as mulheres são as pessoas responsáveis pelo cuidado dentro das famílias. Em um ano em que as crianças não foram para as escolas, a situação ficou muito difícil. Por causa disso, muitas mulheres perderam seus empregos — mais do que os homens.

    Fora de casa, as mulheres também são as principais profissionais do cuidado. Basta lembrar que a primeira mulher que morreu de covid-19 no Brasil foi uma empregada doméstica, infectada na casa onde trabalhava no Rio de Janeiro. Mulheres são as empregadas domésticas, são as enfermeiras, são as cuidadoras de idosos… Elas ficaram mais expostas ao vírus — embora pareça que os homens tenham morrido mais. É um trabalho invisibilizado, mas que existe.

    Desde antes da pandemia, estávamos enfrentando um período terrível de desmantelamento de políticas públicas. Com a crise de saúde, isso continuou acontecendo. É uma situação que vem desde o governo [de Michel] Temer, mas que se aprofundou no governo Bolsonaro, e agora ainda mais, com a pandemia. São, então, dois níveis — um antigo e um novo — de ataques às mulheres. É uma situação de perda de direitos depois de anos de luta.

    Por outro lado, sinto que essas desigualdades — sociais, de raça, de classe e de gênero — têm sido bastante visibilizadas e comentadas. Com a pandemia, as pessoas perceberam que essas desigualdades se agudizaram. E não só no Brasil — o aumento da violência doméstica, por exemplo, é mundial.

    O que o país perde quando há retrocessos nos direitos das mulheres?

    Heloisa Buarque de Almeida Quando as mulheres perdem direitos, todos os índices do Brasil pioram. A violência doméstica ou a restrição ao aborto [legal, que aumentou com a pandemia] são problemas de saúde pública. Eles têm um custo para o sistema de saúde. São custos também para o trabalho — as mulheres que sofrem violência não conseguem trabalhar. Com esses problemas, elas têm dificuldades de levar a vida cotidiana, o que certamente traz impacto para o país.

    Com o desmantelamento de políticas específicas — como as Casas Abrigo [para mulheres que sofrem violência], as creches, as condições de emprego —, como vem acontecendo, a vida das mulheres fica ainda mais precária. Por outro lado, quando elas têm empregos e acesso à saúde, elas conseguem seguir. Tudo fica mais favorável.

    Qual a perspectiva para 2021, com o provável prolongamento da crise no país?

    Heloisa Buarque de Almeida As perspectivas não são otimistas no caso brasileiro. Estamos em um momento muito ruim da pandemia, em termos de aumento de casos e mortes, e colapso nos sistemas de saúde. Não estamos vendo a vacinação em massa. Com isso, a tendência é que haja um aprofundamento dos impactos da crise para as mulheres desde 2020.

    Mais mulheres estão na linha de frente do atendimento da pandemia. A maior parte delas, inclusive, são mulheres negras que trabalham nos hospitais. Por outro lado, o emprego mais comum das mulheres no Brasil é de empregada doméstica. Todas essas pessoas ainda estão indo trabalhar, e continuam a correr riscos. Temos uma crise econômica para aprofundar. Se não tivermos um amplo processo de cuidado, de testagem e vacinação, não vamos ter perspectivas otimistas.

    Como a sra. avalia a resposta das políticas públicas para os problemas das mulheres?

    Heloisa Buarque de Almeida Estamos vendo o desmonte das políticas públicas. É material. Não se investe na política pública com as verbas disponíveis, não se permite acesso aos locais de atendimento. Em muitos lugares, o atendimento vem sendo desmontado, seja de saúde, seja de assistência social. É o caso das Casas Abrigo. É o caso das políticas de saúde das mulheres.

    Outra política que está encolhendo e é fundamental para os direitos das mulheres é o Bolsa Família. Milhões de pessoas poderiam estar no Bolsa Família na pandemia, mas não têm acesso. É uma política com impacto muito grande, especialmente para mulheres negras e de camadas populares. Com esse dinheiro, elas ganharam autonomia, romperam relações violentas, mantiveram os filhos na escola.

    Por enquanto, não vemos resposta das políticas públicas. Os governos deveriam continuar investindo nas políticas que existem… Ou mesmo ampliá-las, né? Em 2020, o auxílio emergencial foi uma política importantíssima. Seria excelente se ele voltasse. O ideal seria ter uma política pública de renda mínima. Essas políticas têm impacto muito forte na vida das mulheres no país.

    Como as mulheres e os movimentos feministas podem reivindicar direitos na pandemia?

    Heloisa Buarque de Almeida Estamos reivindicando. Estamos fazendo militâncias online, seja nas redes sociais, seja por meio de lives, seja, em certa medida, nos eventos acadêmicos que discutem essas questões. Nos últimos tempos, o movimento feminista mais recente passou a usar muito as ferramentas da internet. Há um movimento online e outro que é offline.

    Precisamos continuar fazendo isso. Mas, na primeira oportunidade, quando for possível, temos que voltar para as ruas. Podemos nos inspirar muito nos exemplos da Argentina e do Uruguai, com relação a temas como a pauta do aborto. É uma das políticas, aliás, que tiveram retrocessos com a crise.

    Vemos também que há também muito ataque à liberdade de opiniões. Mas temos que continuar fazendo campanha, batalhando, mesmo que seja um momento difícil. Nem as mulheres, nem outros movimentos sociais vão se amedrontar.

    ESTAVA ERRADO: O nome da entrevistada Heloisa Buarque de Almeida foi escrito de forma incorreta no subtítulo da primeira versão deste texto. O material foi corrigido às 16h40 de 9 de março de 2021.

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